Peitos.
Assim que começaram a aparecer, fui ensinada a escondê-los. Afinal, nossa
sociedade não está preparada para recebê-los, insistindo em recusá-los. Quando mais
nova, eu me obrigava não só a tapar meus peitos, como a esconder os sutiãs que
usava. Nada poderia ser mostrado, nem mesmo as alcinhas. Mas fui crescendo e
querendo que meus peitos fossem mais notáveis. Não os mamilos, claro. Esses jamais
podem aparecer. Eu queria meus peitos grandes, redondos, pontudos e iguais. Ah,
e juntos, para poder ficar bonito com um decote. Como eles não obedeciam às
minhas vontades, decidi falsificá-los e passei a usar sutiãs de enchimento. Eles
deixavam meus peitos lindos, redondos... e falsos. Mas, pelo menos, escondia a
diferença de tamanho que havia entre eles e forjava um tamanho considerado
aceitável por mim mesma. Os meus peitos e mamilos me incomodavam muito. Eles foram
um peso muito grande na minha adolescência. Eu estava decidida que colocaria
silicone no futuro, a dúvida estava apenas em quando: ao completar 18 anos ou
depois de amamentar meus futuros nenéns? Eu pensava no silicone como uma
solução para a anormalidade que eram meus peitos, na minha cabeça. Um dos meus
maiores medos de pré-adolescência era saber que um dia eu tiraria meu sutiã na
frente de um cara.
O
tempo passou. Arrumei um namorado. Fui amadurecendo. O enchimento dos sutiãs
foi diminuindo e virando bojo. Percebi que a ideia do silicone era uma loucura
para alguém que tem pavor de agulhas e cirurgias, como eu. E percebi que o
dinheiro que gastaria com isso era abusivo, sendo que ele seria gasto para que
eu me enquadrasse em um padrão imposto por uma sociedade patriarcal, machista,
consumista, capitalista e objetificante. Uma sociedade que quer igualar corpos
e mentes. Que rejeita a diferença. Uma sociedade que faz uma adolescente se
sentir um lixo por ter peitos pequenos, mamilos grandes e um peito maior do que
o outro. Que a faz se sentir feia, errada e desproporcional ao se olhar no
espelho. Uma sociedade que cria humanos que acham uma vulgaridade uma mulher
andar sem sutiã. Uma sociedade que prende e repreende uma mulher sem camisa,
quando deveria ser um direito dela, assim como é do homem. Não estou atacando
sutiãs e dizendo que eles são ruins, mas apenas defendendo a liberdade de uma
pessoa ao escolher se quer ou não colocar um sutiã, sem ser julgada e regulada.
Pois
bem. De uns tempos para cá, ando tentando ter uma relação melhor com meus
peitos. As mulheres de minha família (avó, tias, primas, irmã e mãe) me
ajudaram muito e sempre, tratando peitos como algo natural e belo. Assim como
meu pai. Minhas amigas me ajudaram. Meu namorado. A luta feminista. Até a
JoutJout, garota de 24 anos que faz vídeos no YouTube me ajudou. O Corpo Cru,
meu projeto fotográfico, me ajudou – e muito. Foi graças aos meus peitos que a
ideia dele me veio. E foi graças a ele que criei coragem de falar deles. É também
por ele que pude ouvir o que uma mulher sofre e ama por ser quem é, do jeito
que é. É por ele que posso dizer a cada mulher o quanto ela é bela por ser ela.
Por
conta de uma blusa mal cortada que fazia parte do figurino de uma peça, tive
que desistir do bojo e usar um sutiã normal, para que meus peitos não
aparecessem. Esse sutiã faz parte de uma coleção de sutiãs sem bojo herdados da
minha irmã quando eu era mais nova, e que decidi guardar por ter a esperança de
conseguir usá-los um dia. Desde a peça, comecei a tentar levar o figurino para
a vida real. Ontem, fui vestir uma regata. Quando peguei um sutiã de bojo,
olhei para ele, joguei na cama e peguei um sem. Consegui sair de casa assim. Hoje,
a mesma coisa. Outro dia, usei um vestido sem sutiã. Ele nunca precisou de
sutiã, na verdade. Mas na minha cabeça todos iam reparar se eu não estivesse de
sutiã. Quando saí na rua, vi o quão libertador era não estar com um tomara-que-caia
de bojo me apertando e escorregando.
O
desapego dos bojos não deveria ser tão difícil. E essa dificuldade é cruel. Meninas,
às vezes literalmente, se torturam e se matam em busca de uma perfeição que não
existe. Uma perfeição construída e ditada por um sistema. É muito triste ver
uma menina sofrendo por seus peitos, porque o que ela tem é diferente do que
ela vê na mídia. É cruel sentir vergonha dos seus peitos, sentir-se inferior
apenas por não preencher decotes. É muito chato ter o corpo regulado o tempo
todo. O sutiã, por exemplo, deveria ser uma escolha, não uma imposição. Não deveria
ser uma decisão tão intensa o ato de não usá-lo. Moças, vamos aceitar nossos
peitos. E moços também. Deveríamos ter a liberdade de tê-los livres quando
quiséssemos, assim como os homens têm. Uma historinha: fiquei com meu namorado,
pela primeira vez, aos 16 anos. Estávamos na praia, ou seja, eu estava de biquíni.
Eu fiquei feliz, pensando no quanto ele me aceitava, pois “me viu de biquíni,
viu que eu tenho peito pequeno e, ainda assim, quis ficar comigo”. Sim, eu
pensei nisso. Moças, vamos combinar, se algum dia um cara ou uma mulher recusar
vocês por seus peitos, agradeça por isso ter acontecido e joga a pessoa fora. Isso
aconteceu pra você nunca mais olhar na cara dela. Vocês não se merecem. Você
merece muito mais e a pessoa não merece você com seus lindos e únicos peitos.
Eu
nunca imaginei que fosse conseguir publicar um texto falando sobre peitos. Era um
assunto realmente delicado para mim, mas graças a muitas coisas e pessoas, isso
está mudando. Por último, quero dizer que é realmente muito difícil esperar
algo bom de uma sociedade que não consegue aceitar nem um peito. Não suporta
conviver com mamilos (femininos!), a não ser que o contexto deles seja sexual. Mulheres,
ainda temos muito a mostrar para esse mundo com nossos peitos enormes, mínimos,
redondos, desproporcionais, nossos mamilos que acendem faróis e marcam nas
roupas. É muito difícil se desprender do padrão, eu digo por mim, mas olhem...
é libertador. Quanto mais você se desprende, mais você se liberta, mais você
percebe o quão cruel é o que ele faz com você e o quão melhor é você se
aceitar. A luta é difícil, mas vamos em frente. E de peito aberto.
Ok,
vamos lá. Eu já escrevi textos dessa temática algumas vezes. E enquanto tiver
motivo, continuarei escrevendo. Sabem por quê? Porque a pior coisa a se fazer é
ficar calada frente a situações absurdas que PRECISAM ser mudadas. Então temos
que falar, falar e falar, porque o que incomoda não deve ser o ato de falar
sobre, mas sim o “sobre”. Sabem por que a redação do ENEM teve como tema a
violência contra a mulher? Porque ela existe. Tão óbvio, não é? E tão triste
ser óbvio. Sabe por que também? Porque uns pedófilos machistas fazem questão de
comentar sobre a beleza de uma criança de 12 anos de idade, comentários
abertamente sexuais, inclusive insinuando estupro. Porque existem Eduardos
Cunhas. Porque há pessoas (homens e, pasmem, mulheres) que chamam feminismo de
mimimi. Que acham que mulher tem que levar corretivo mesmo pra aprender. Que
acham que mulher é inferior. Que acham que qualquer tipo de abordagem na rua,
coisa que muitas nós chamamos pelo seu verdadeiro nome, ASSÉDIO, é elogio.
Cara,
eu vou ser sincera. Eu vou ser desbocada. Eu vou ser tudo o que eu bem entender
nesse texto porque eu to de saco cheio dessa merda toda. Aliás, de saco não, to
de peito cheio mesmo. E ainda vou misturar vários assuntos que têm a ver com um
só. Vamos por partes.
Primeiramente,
gostaria de avisar que vou botar a vagina na mesa nesse texto. Essa história de
botar o pau na mesa não cabe a mim, já que não tenho um. E parou de achar que,
quando uma pessoa é forte e tem atitude, ela tem colhão. Para quem não sabe, colhão
é testículo. Eu conheço muita gente sem colhão que “tem muito mais colhão” do
que gente com colhão. E parou também de achar que, quando alguém se mostra
poderosA em alguma situação, é porque “tem pau”. E parou de achar que pau é
sinônimo de força e poder. Inclusive, comparando aqui rapidinho: da minha
vagina, querido, sairá um futuro você, ou seja, um ser humano. Minha tão frágil
vagina tem o poder de parir uma cabeça e um corpinho inteiros de um bebê. E no
dia seguinte, eu já to andando segurando a criança no colo enquanto ela se
alimenta do que sai do meu peito. Enquanto isso, o tal do colhão quase mata um
homem de dor quando recebe um chute. Ou seja. Ne? Se é para comparar força,
vamos combinar que... Bom, mas a verdade é que órgão sexual não mede a força
nem o poder de ninguém. Então vamos parar com essa palhaçada de “botar o pau na
mesa” e vamos colocar nossa vaginas na mesa também. Queria dizer, inclusive,
que admiro muito as vaginas colocadas na mesa em uma sociedade onde tantos paus
já estão sobre ela.
Segundamente,
peitos. Parou com isso de ter medo de peito. Peito de mulher é igual a peito de
homem, só que é mais cheinho – ou não, aliás. Queridos seres humanos da face da
terra inteira, queridos maravilhosos mamíferos, o primeiro alimento da vida de
vocês vem de peitos femininos. Sem peitos, não há vida. Somos todos MAMíferos,
passamos um tempo recebendo vida de mamas, então vamos parar de proibir a mama
da mulher, vamos? Vamos parar de deletar fotos de moças com peitos de fora das redes
sociais? Vamos aceitar que a mulher pode pegar um solzinho nos seios pra dar
uma bronzeada, se ela quiser? Vamos todo mundo que quiser andar sem camisa pela
praia? Essa pressão absurda que as mulheres sofrem para ter o “peito perfeito”,
que as faz se submeter a agulhas e implantes e sofrer quando elas se olham no
espelho e não veem dois amigos redondos e grandes, vem por causa desse medinho
de vocês de peito. Se nós convivêssemos com os lindos peitos das moças que nos
cercam, tenho CERTEZA de que seríamos mais desapegadas quanto à estética deles.
Tanto que não vejo homens julgando uns os mamilos dos outros. Moral da
história, vamos parar de não querer ver mamilo de mulher. Tanta coisa nesse
mundo pra se preocupar e a família tradicional brasileira perdendo tempo com mamilo.
Terceiramente,
família tradicional brasileira. Amores, quem são vocês? Uma família que não tem
nenhum membro que já tenha traído, feito coisas erradas, falado palavrão,
beijado alguém do mesmo sexo, usado algum tipo de drogas? Nada disso, nadinha
mesmo? Desculpa, não conheço. Alguém me explica que tradição toda é essa,
porque to por fora. Mais uma vez, tanta coisa pra se preocupar no mundo e
nossos ilustres políticos tradicionalíssimos decidindo o que é família. Kiridos,
vão dar um jantar pra sua família tradicional, rezem pelas almas de quem julgam
errados e não se metam nas famílias que não são as de vocês. Vocês não são
ninguém pra dizer quem é a família de ninguém. QUALQUER família merece ser
feliz sem uma merda de uma lei ou coisa que o valha. Daqui a pouco vocês vão
querer definir o que? Conceito de amigo? Quer ser tradicional, seja lá o que isso
quer dizer, seja. Só não enche o saco de quem quer ser feliz sem a opinião de
vocês.
Quartamente,
Eduardo Cunha e os migo tudo dele. Mais uma vez, queridos ilustríssimos e
tradicionalíssimos seres políticos desse Brasil, vão cuidar de outra coisa. Vai
lavar um prato e comer uma pipoca. Vai varrer uma sala. Vai ali dar uma dormidinha,
vai se jogar de um penhasco, tudo menos: 1. Se meter na sexualidade dos outros.
2. Se meter na família dos outros. 3. Se meter na religião dos outros. 4. Se meter
no útero das outras. Vamos então falar do projeto de lei. Vamos falar de aborto.
O PL 5069, criado pelo Du e mais dois migo (tudo homem), quer dificultar ainda
mais o aborto. Vou copiar alguns trechos da matéria que saiu no G1.
No caso do estupro, para que um
médico possa fazer o aborto, o projeto de lei passa a exigir exame de corpo
de delito e comunicação à autoridade policial.
Atualmente, não há necessidade de
comprovação ou comunicação à autoridade policial – basta a palavra da gestante.
"Nenhum profissional de saúde ou
instituição, em nenhum caso, poderá ser obrigado a aconselhar, receitar ou
administrar procedimento ou medicamento que considere abortivo",
diz o texto do projeto.
De acordo com o relator, deputado
Evandro Gussi (PV-SP), o farmacêutico pode deixar de fornecer pílula do dia
seguinte, por exemplo, se considerar que isso viola a sua consciência.
Nos
trechos citados acima, o que podemos ver, caro leitor? Um show de machismo e
conservadorismo. Não sei se os senhores criadores desta porra sabem, mas ser
mulher nesse país é difícil para cacete. E um dos maiores problemas é o fato
das pessoas não acreditarem na nossa palavra. Então, se relatamos um assédio,
seja moral ou sexual, um abuso sexual, um estupro ou uma descriminalização por
gênero, nós somos histéricas, exageradas, feminazis, malucas, mentirosas,
ridículas. A palavra da mulher, muitas vezes, não é validada nem pelas próprias
mulheres. E o primeiro trecho que destaquei mostra bem isso. Pelo projeto de
lei, a mulher vai ter que sair de um ESTUPRO pra ir fazer EXAME e depois
conversar com um policial, se for homem, PIOR AINDA, porque ela ainda pode ter
que ouvir “ué, mas também, com esse corpo” e coisas do gênero. O estupro, essa
experiência completamente TRAUMÁTICA na vida de um ser humano, deve ser
investigado até o fim, com os mínimos detalhes, e tudo isso para impedir que
haja um aborto. E por último, eu estou cagando para a consciência dO
farmacêuticO, que não tem a merda de um útero e não é ele que não vai parir e
cuidar da criança que a grávida carrega. E mesmo se for farmacêutica. Miga,
entenda, mulher tem que apoiar mulher. Não é seu útero, não acabe com a vida da
outra por causa da SUA consciência e deixa que ela se vira com a DELA. Eu já
falei sobre minha opinião a respeito do aborto em outro texto, por isso não vou
me estender. Mas eu só quero dizer que gostaria que esse projeto de lei fosse
parar em um buraco negro junto com o Cunha e toda a sua trupe reacionária,
conservadora, machista, racista e homofóbica. Vocês, que são a família
tradicional brasileira, enfiem essa tradição em outro lugar, que não seja nos
úteros das mulheres. Não as façam parir frutos de seu machismo.
Por
último, não posso deixar de falar sobre feminismo. Volta e meia, tento me
lembrar de algum marco que me tenha feito parar e falar: eu sou feminista. Não
consigo. Não sei como nem porque, mas sempre soube que feminismo não era oposto
de machismo e sempre expliquei isso às pessoas. O que me lembro de mais remoto
foi um chute no piru de um menino que me desrespeitava frequentemente na escola
e ninguém fazia nada. Eu devia ter uns 4 anos. Depois, uma festinha onde eu
devia ter uns 6 me irritei com o animador que brincou que os homens eram mais
fortes do que as mulheres, por isso iam ganhar no cabo de guerra. Eu nunca
entendi isso e sempre contestei. Aos 8, fiz uma dupla com uma amiga que
arranjei em uma pousada e jogamos totó com dois meninos. Eles disseram que
íamos perder porque éramos meninas. Fiquei com raiva dele. Nós ganhamos. Fui crescendo
assim. Nunca aceitei o lugar de submissa e inferior que a sociedade gosta de
enquadrar a mulher. E meus pais me ensinaram que isso não é assim. Hoje, vejo
que muitas pessoas ao meu redor já mudaram suas opiniões pelo que digo a elas. Meu
namorado, por exemplo. Outro dia, um amigo meu disse até que eu era uma
referência, para ele, no assunto. Uma amiga contou que eu abri o olho dela
quando falei sobre o direito da mulher de se vestir como quiser, andar na rua
como quiser, e não estar pedindo para nenhum cara mexer com ela. E meu peito
feminista se enche de orgulho quando vejo que já mudei e que ainda posso mudar
a visão de muita gente. Mais uma vez eu quero falar que feminismo é a luta
pelos direitos iguais dos homens e das mulheres. NÃO É mimimi. NÃO É opressão
(NÃO!!!). NÃO É anti-homem. É só a noção de que somos todos iguais. Todo ser
humano é igual. E nossa luta continua porque tem gente que continua sendo
machista. Por causa de várias coisas que falei sobre ali em cima. O seu
machismo NUNCA vai calar meu feminismo, mas meu feminismo vai sim calar seu
machismo. O importante é que nós, que lutamos pelos direitos BÁSICOS das
mulheres, não fiquemos calados. Não sei como devo terminar esse texto, talvez
porque ele não tenha fim. Talvez porque seja tão incerto como a luta diária que
a mulher leva, que ela é. Se isso um dia tiver fim, quem sabe eu não concluo
tudo isso sem interrogações?
Marina N. Martins
Aproveito para dizer: assistam a esse vídeo maravilhoso da JoutJout.
Eu gostaria de me lembrar perfeitamente de como foi
minha experiência de assistir “As Bicicletas de Belleville”. Pelo que vi no
Google, o filme foi lançado no Brasil em abril de 2004, mês em que completei 9 anos.
Fui ao cinema com minha avó e meu avô – e não consigo lembrar direito se meu
primo Henrique estava também. Se ele foi, tinha 3 anos. Estou cismada de que
ele foi, mas pode ser só uma memória que exista por conta dos vários filmes que
vimos juntos na companhia de nossos avós. Ir ao cinema com vovó e vovô era
sinônimo de vovô dormir e eu e vovó assistirmos atentamente ao filme. Quando
ele roncava, nós ríamos e ela dava um tapinha nele: “Joaquim!”.
Como falei, não me lembro bem do dia em que assistimos
“Belleville”, apenas de algumas coisas. A primeira, foi que achei
esquisita a falta de diálogos, quase inexistentes, do filme. E lembro de
ficarmos no cinema nos indagando “ué, será que não tem fala?”. Não consigo
lembrar se vimos dublado ou legendado, mas talvez isso nem tenha tanta
importância, já que podemos compreender o filme sem nenhuma fala, de fato. Acho
que minha avó saiu da sala apreensiva quanto à minha opinião, pois a animação
não é de todo infantil, ela traz até um cenário meio sombrio e situações um
tanto estranhas. No entanto, eu lembro de ter adorado o filme e de isso ter
surpreendido a minha avó. Desde 2004, recordo com carinho essa experiência,
mesmo não lembrando de praticamente nada do filme.
Ontem, o assisti novamente em um cinema aberto na Casa
Daros, local por tantos anos dirigido pela minha mãe e onde a vejo em cada
canto. Depois que ela saiu de lá, ir à Daros não é uma tarefa tão simples pra
mim, já que sinto muito a sua não-presença e que sinto aquele local até mesmo como uma
parte de mim, e como nosso. Ver “As Bicicletas de Belleville” por lá
foi uma experiência emocionante pra mim, pois tudo se embolou na minha cabeça.
O lugar, o filme, a primeira vez que o assisti... “Belleville” é, acima de
tudo, uma história de uma avó que tenta deixar seu melancólico neto feliz. A
felicidade dele aumenta quando ganha uma bicicleta. Os anos se passam e,
graças à avó, ele vira um ciclista. Um dia, pedalando no Tour de France, é
capturado por mafiosos, junto a outros dois ciclistas que não aguentam o tranco
da competição, assim como ele. Dessa forma, sua avó e seu cachorro vão atrás para salvá-lo dessa situação.
SPOILER
ALERT! Agora vou dar uma contada mais
profunda no filme; se não quiser saber, pule para o próximo parágrafo. “Belleville”
se inicia com uma transmissão de televisão onde se apresentam as “Triplettes de
Belleville”, que dão o nome original do filme. Elas são um trio de meninas que fazem shows em tradicionais cabarés franceses. Em sua busca pelo neto, a avó
acaba encontrando o trio, que agora é formado por elas velhinhas, e são as três
que a ajudam nessa situação. Voltando ao início do filme, a transmissão de TV é
interrompida e o primeiro diálogo é a avó perguntando ao neto “O filme acabou?
Você não quer responder à vovó?” e o menino não responde. Ao final do filme, o
próprio filme acaba dentro da televisão, que está no mesmo local, dentro da
cozinha da casa da avó. A imagem ainda está se afastando quando a mesma
pergunta do início é feita “O filme acabou? Você não quer responder à vovó?”.
Vemos, então, o neto já velho, que se vira para onde a avó estava sentada no
início, mas já não tem mais ninguém. Ele responde “Sim vovó, acabou.”. E assim
termina “As Bicicletas de Belleville”.
Quando eu saí da sala com meus avós, me lembro de
alguém dizer - não sei se foi ela ou meu primo, ou até mesmo eu - que o
filme era, principalmente, sobre uma avó que salvava um neto. E ela achou isso
lindo. E eu também. E ontem, mais de dez anos depois, eu assisti ao filme no
pátio da Casa Daros, sem a minha avó do lado. Vovó, o filme acabou. Nós duas
assistindo a filmes acabou. Mas quero te dizer que você foi tão importante na
minha vida como a vovó de “Belleville”. Você foi uma das pessoas que me
introduziu nesse mundo de sonhos que é o cinema, mundo do qual escolhi fazer
parte como espectadora e como profissional. Cada sessão que assistimos juntas
ficou na minha memória para sempre, mesmo que não de forma perfeita. Afinal, o
tempo passa. E, aliás, foi você, junto da minha mãe, que me fez andar de
bicicleta, com e sem rodinhas. Você nunca teve um apito para que eu andasse mais
rápido, como no filme, mas posso dizer que você foi um dos apitos que me fez
crescer e que me fez ser quem eu sou. O meu filme, vovó, não acabou. E falta
muito para acabar. Um dia te conto como foi o fim.
Marina N. Martins
Música-tema (maravilhosa) de "Triplettes de Belleville"
“Na PUC só tem cuzão”; “desprezo”; “PUC vai se foder”;
“toda puquiana dá o cú e mama e senta no piru”. Algumas das coisas que eu soube
e li que foram ditas nos JUCS (Jogos Universitários de Comunicação Social).
Não, eu não fui ao evento, pelo simples motivo de que não é o tipo de evento
que me atrai. Mas quando fiquei sabendo que houve denúncias de ESTUPRO, outros
tipos de violência, além dos tristemente óbvios machismo, racismo e homofobia,
decidi entrar na página “Spotted: JUCS”. Eu estou enjoada, com dor de cabeça e
com choro preso. Alguns podem achar que sou sensível demais, chata, ridícula e
eu não me importo. Eu só fico assim porque sei que esse tipo de coisa que
acontece nesses JOGOS é errado, feio, triste ou até crime. Então a minha reação
não me assusta. O que me assusta são as pessoas que tomam as atitudes que me
machucam, mesmo eu não estando perto. Aliás, isso é o que mais vem acontecido
ultimamente. Praticamente todos os dias eu fico triste por atos que não
presencio, mas são como se me dessem um tapa na cara. Ou um soco no estômago.
Enfim, nessa página, alguém reclamou, anonimamente,
de uma torcida que chamava as jogadoras adversárias de “puta feia”, “piranha”.
A pessoa citou uma torcida, mas imagino que isso não ocorra só em uma. E depois
falou de outra que se proclamava “só moleque estuprador”. No post, comentários
como “se não gostou, vai pra igreja”, “gritei o jogo inteiro ‘gay’, ‘dá cu’”, “vai
pra JMJ”, “não fode feminista chata do caralho”. Tais comentários feitos por
homens e, pasmem, mulheres. Ah sim! E uma hashtag “turma do estupro”,
acompanhada de um comentário “ano que vem vai ser pior”.
Vamos lá, por partes. Eu sou estudante da PUC com muito
orgulho. Conheço muita gente bacana lá que está longe de ser “cuzão”. Generalizar
os estudantes da PUC como ricos, segregacionistas, patricinhas e playboys preconceituosos
está errado. Isso é preconceito. Eu adoro a minha faculdade e não me sinto
representada por esse tipo de pessoas. E tenho certeza de que muita gente
partilha da mesma opinião. Desculpa se eu estudo na PUC. Desculpa se eu não
passei pra UFRJ e nem pra UFF. Desculpa se, se eu tivesse passado para a UFRJ,
faculdade que acho incrível, eu não iria porque não tem curso de cinema (coisa
que sempre quis que tivesse para eu poder tentar estudar lá). Desculpa se, se
eu tivesse passado pra UFF, eu continuaria em dúvida entre ela e a PUC porque
sempre tive um carinho enorme pela minha faculdade. Desculpa por estudar em uma
faculdade particular e não me enquadrar num elitismo escroto. Desculpa por
gostar muito do campus da PUC e dxs amigxs e colegas que fiz lá. Desculpa por
dizer que gente escrota existe em qualquer faculdade. Que sorte a minha de
poder estudar numa faculdade tão bonita, com tantos eventos legais e que, como
todas, tem seus problemas. E que pena que ela seja representada nos Jogos por uma minoria preconceituosa que canta alto músicas racistas e elitistas. Universidades, faculdades e escolas superiores
existem, se superam em alguns cursos, outros não, às vezes todos, têm mais e menos
problemas, são públicas e particulares, são diferentes. E que bom que existem
para – espera-se – formar bons intelectuais e profissionais. Que triste essa
guerrinha entre faculdades. Que triste luta de classes. Que triste a desunião
dos jovens universitários. Isso não é uma competição.
Mais cedo ou mais tarde, quem xinga e quem é xingado
se cruzará no mercado de trabalho, nas agências, redações e produtoras da vida.
Fico pensando que, se em jogos se tratam assim, como será que vai ser no trabalho?
Acho que o jovem que hoje exalta o estupro e se orgulha de – ai que nojo de
escrever isso – ser um estuprador, será o chefe que vai escolher as
funcionárias pelo corpo e tentar comer elas (sim, com esse linguajar) através
de chantagens ou ofertas melhores no emprego. Ou ‘pelo menos’ o chefe que vai
dar cantadas diariamente nas funcionárias. Ou pior: estuprá-las. O jovem de
hoje que ‘xinga’ alguém de gay – “xingar” e “gay” não cabem numa mesma frase
para mim – será aquele que, na hora de contratar, não vai gostar da voz
afeminada daquele profissional incrível e vai discriminar o outro porque é
casado com um homem. O jovem de hoje que faz uso de xingamentos racistas vai
ser aquele que vai preferir contratar o branco sem nenhuma experiência do que o
negro com um currículo incrível. Que vai preferir alguém só porque é rico do
que alguém que é pobre. Que tristeza.
Que tipo de juventude é essa que acha que orientação
sexual, gênero, cor e tipo físico é xingamento? Que tipo de juventude é essa
que não consegue participar de competições sem que haja troca de agressões
verbais e físicas, violências psicológicas, físicas e sexuais? Que juventude é
essa que vive em constante troca de ofensas, em constante luta de classes,
generalização, pré-conceitos, preconceitos e desunião? São alguns desses os
futuros geradores de mídias, entretenimentos. Fora os futuros advogados e
médicos que também gostam de ofender nos Jogos Júridicos e nos de Medicina. Que
juventude é essa? Nossa, estamos em 2015, e eu querendo voltar no tempo para
ser jovem nos anos 60, 70, 80, até 90! Basta ver os protestos das Diretas Já! e dos
Cara Pintada. Várias pessoas de diversas idades unidas, lutando todas pelo bem
delas e de seu povo, pensando no melhor para sua sociedade. E aqui estamos
hoje, repito, em 2015, tendo que ouvir XINGAMENTOS como preto, pobre, sapata,
viado, puta, piranha e por aí vai. Será que os jovens se tornam mais conservadores à medida que o tempo passa? Qual o sentido disso? Que juventude é essa que ainda xinga com
essas palavras? Na boa, quem são vocês? Quem somos nós? Quem é a maioria? Quem nos
representa? Quem é quem?
Diante disso tudo, fui pegar o metrô hoje e coloquei
meu iPod, para tentar me desligar do mundo. Coincidência ou não, apertei no
shuffle e começou a tocar a música “Don’t let it bring you down” (Não deixe isso
te deprimir), do Neil Young. Poderia ser uma cena de filme com a trilha sonora
perfeita, mas foi real. Eu acabei de ler a tradução da música e me assustei com
a coincidência. Deve ter sido o mundo, tão louco, me passando uma mensagem. Essa
não é a juventude, futuros adultos profissionais, que quero trabalhar e
conviver na minha vida. Esses xingamentos não me representam. Então, para quem
sente a minha dor e tristeza diante de tudo isso, e até mais, repasso a
mensagem que me foi enviada por uma energia maior, ou por uma incrível
coincidência dada pelo meu iPod: “não deixa que isso te deprima, são apenas
castelos queimando, encontre alguém que está mudando, que você dará a volta por
cima”. Não deixemos que isso nos deprima. Algum dia –ah! ALGUM DIA! – nós daremos
a volta por cima.