terça-feira, 7 de novembro de 2017

Quando as solidões se buscam e não se encontram

"Porque eu estava sozinho. Talvez só porque eu estava sozinho"
Filme Her (Spike Jonze, 2013)

To carente. Preciso dar uns beijos. Não tem ninguém. Ah vou baixar o Tinder. Vai o Happn também. Vai que. Like like like like meu deus por que não ta dando match? Por que não ta dando crush? Nope nope nope nope nossa só gente péssima. Que descrição é essa? Aff foto sem camisa no espelho não dá. Opa! Crush! Match! Ai que bom, sou bonita. Ai graças a deus, tava começando a achar que tinha algo de errado comigo. Gente, como não deu match com esse? Nossa, quantos matchs e crushs. Ninguém vai puxar assunto não? Vou falar com uns aqui.
Uns, nada.
Outros, um papinho meia boca.
Cansei.
Vou deletar essas merdas.
...
...
...
Nossa, mó carência ne.
...
...
Ah vou baixar de novo aqui o Tinder e o Happn, vai que.


Eu sei que vai ter muita gente se reconhecendo nisso, muito mais do que eu gostaria, porque eu sei que todo esse roteiro é um saco. Como uma amiga disse outro dia, quando ficou tão difícil beijar na boca? Ao que outra respondeu, "é culpa dos apps". E olha, eu vou falar, é verdade. Não vou ficar aqui de a crucificadora dos apps de paquera, como se tivesse repulsa a eles ou nunca tivesse usado, mas ta na hora de falar sobre eles. Ta na hora de refletir sobre o uso e tudo o que ele já me causou, e sei que causa em muitas pessoas. Sei que eles já facilitaram muito a vida de muita gente, já trouxeram muita alegria, até eu já recebi felicidade por causa deles (pelo menos uma ne, obrigada vida). Mas a dinâmica que eles estão causando nas relações ta ficando estranha. A gente desaprendeu a flertar. Não que antes a gente manjasse muito do assunto, mas agora a gente tem muito mais medo de manjar.

Por que quando a gente baixa os apps, fica tão feliz e, depois de algum tempo, sente preguiça e raiva daquilo tudo?

Primeiro tem o deslumbramento da descoberta, a esperança de que aquilo adiante de alguma coisa na nossa vida afetiva, o levantamento de autoestima com cada match/crush, e depois vem aquela sensação de vazio. Aquele enorme vazio causado por combinações sem trocas de olhares, que não dão em absolutamente nada. Não saem daquele universo de sentimentos digitalizados. É muito raro um papo realmente bom. É raríssima uma verdadeira conexão. Com o vazio, vem a desilusão, o não suprimento de uma solidão e a volta de uma carência, uma desesperança em relação a tudo. Ficar passando gente como se fosse num cardápio cansa.

E fiquei refletindo por que a gente faz isso com a gente. E por que ficamos com tanta preguiça disso tudo. E acabamos concluindo de que é ainda pior baixar esses apps quando estamos carentes. E por que nos submetemos mais e mais vezes a isso, até sentir novamente a preguiça e o vazio. E parecemos estar viciados nesse ciclo... vicioso. Viciante.

De chegar ao ponto de marcar de sair com alguém e querer desistir no caminho, e desabafar pra uma amiga: "por que eu me presto a esse papel?". E não é por nada, gente. É legítimo a gente querer conhecer gente nova, a gente querer suprir nossas faltas e desejos. Mas ficamos com preguiça do esforço para que aquela relação saia do celular. E não por preconceito. Porque tem uma diferença enorme entre falar com a pessoa online antes de vê-la ao vivo e conhecer alguém ao vivo para depois conversar online. O começo online não tem flerte, não tem sedução, raramente tem uma conexão, não tem toque, não tem cheiro. Convenhamos. A gente vai encontrar alguém e não sabe se ela fede, se ela tem bafo, se ela tem dente sujo, se aquele início de conexão que tivemos no app é mesmo real ou se é fantasia, tanto quanto o que vendemos de nós mesmos.

Pensando aqui, eu acho que o que falta mesmo nesses apps é o quesito encantamento. Se ele acontece ali, é um encantamento puramente físico, aliás, nem físico, imagético. E se, por vezes for intelectual, é tão superficial. Não tem aquele encantamento físico de olhar praquela pessoa e pensar "caraaaai só me beija" ou o que vai acontecendo aos poucos, conforme a gente conversa com alguém e vai se conectando àquela pessoa.

Eu acho que, no final, os apps acabam fazendo o caminho inverso ao que se propõem. Em vez de darem uma esperança de que podemos sair da fossa e satisfazer um ou outro desejo, acabamos achando que nunca vai rolar nada. Ficamos com aquele pensamento "não é possível, tanta gente aqui e não dou certo com nenhuma?". Talvez. Mas a culpa não é sua. E nem da pessoa que está do outro lado do celular. Ou na verdade a culpa é de todos nós em nosso caminho de tornar as relações humanas superficiais e digitais, com conversinhas banais que quase nunca mostram ao que vieram, que quase nunca colocam um sentimento sincero naquelas palavras digitadas.

Resumindo tudo de forma bem cruel. Sinto que esses apps nos tornam cada vez mais dependentes de um afeto que cada vez menos sabemos dar.

Marina N. Martins

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Vocês também são machistas quando acham que não são.

Ou quando acham que não estão sendo.

O que, para muita gente, parece óbvio, mas para outras tantas não é. Tem muita coisa por aí que ninguém acha que é machismo, mas é. E se a gente reclama, vão nos chamar de exageradas. O machismo não está “só” nos gigantescos problemas estruturais, como acesso diferenciado à educação, desigualdade salarial, falta de liberdade e propriedade com o próprio corpo, direito vetado de ir e vir, violência moral, física e sexual... O buraco é ainda mais profundo do que parece. E só sai dele quem se permite escavar.

Pelo momento, eu peço: sem essa de “ah mas mulher também é machista”. Gente, todo mundo está na mesma sociedade patriarcal, é claro que também haverá mulheres que vão reproduzir esse discurso e, na maior parte das vezes, sem nem perceber. Mas esse não é um texto para as mulheres, e sim para os homens. E quando eu digo os homens, não estou falando de um em específico, mas de vários. “Ai, mas aí é generalização”. Sim, a generalização é necessária quando o problema está na maioria. Se você é exceção, meus parabéns, não faz mais do que sua obrigação. Estou me baseando em diversas experiências de vida, que não acontecem só comigo, mas com amigas e, com toda certeza, com muitas mulheres que eu conheço ou nem conheço.

Então você, pode ser um puta cara bacana. Puta filho, puta amigo. Pode ser aquele cara que todo mundo gosta de estar perto, de trocar uma ideia. Pode até ser tudo isso e ainda ser bonito, charmoso, ter estilo, ser cheiroso, engraçado, educado. Tem um papo bom. Moleque família. Moleque caseiro. Mas também não perde a chance de uma cervejinha. Cheio das amigas e dos amigos. Sem preconceitos. Desconstuidão. Pró feminista pra caramba. Curte tudo de feminismo que as minas postam. Apoia o movimento pra caralho. Mas você, esse puta cara bacana, continua sendo machista. E me desculpa por ser a bruxa que te diz isso.

Você também é machista quando transa com a mina numa noite e fala pra ela assim: “ó, vê se não some”. Mas aí ela vai puxar uns assuntos com você e quem some é você. E a moça fica sem entender, querendo ir atrás de você, mas aí começa a falar pras amigas “meu deus, eu pareço desesperada?”. Quando, na verdade, ela só queria mais uma(s)zinhas(s) com você, porque foi gostoso. Porque cê deu prazer pra ela e todo mundo gosta de prazer. E ela tem direito de querer de novo sem sentir vergonha disso. Mas ela não tem coragem de te dizer isso, porque seria ousado demais, na cabeça dela.

Você também é machista quando fica ostentando mulher pra mina com quem você está saindo. Você se paga de legalzão, falando que não quer nada sério, e faz questão que essa mina saiba que você ta aí cheio dos esquemas e dos contatinhos. Mesmo que você não queira nada sério, você também faz questão de marcar presença pra essa mina. Ta sempre ali puxando um assunto no whatsapp. Mesmo sabendo que ela pode se envolver com você, mas ah! Aí não é culpa sua ne? Desde o início você disse que não queria nada sério, ninguém mandou ela se iludir.

Você também é machista quando está saindo com duas minas ao mesmo tempo, mas nenhuma delas sabe da outra. Ah, e elas se conhecem. E você fica administrando isso enquanto paga pra todo mundo de cara maneiro, mas, por trás delas, fica as colocando no lugar de meninas apaixonadas que estão confundindo as coisas. Como se 1. Fosse verdade e 2. Elas não tivessem motivo pra isso, caso fosse verdade.

Você é machista quando ta mantendo as duas debaixo das suas asinhas, mandando mensagenzinha e áudio grande. Dizendo “vamo marcar” e, toda vez que marcam, cê dá bolo.

Você também é machista quando diz pra uma delas “eu não sou um cara que gosta de estar com duas meninas ao mesmo tempo”. E quando você continua nessa pose de cara legal, mas se faz de coitadinho “ai, parem de achar que eu só legal, eu não mereço isso”. Ai querido, se você quer punheta, vai se resolver com isso sozinho, não fica alugando ouvido de mulher com punhetagem emocional, porque a gente tem mais o que fazer, ok?

Você também é machista quando acha que a mina ta apaixonada e morrendo de amores por você, quando na verdade ela só ta te curtindo. E fica falando isso pras pessoas, mas pra ela você diz “eu não costumo falar pra ninguém das meninas com quem eu fico”.

Você também é machista quando pede pra fazer sexo sem camisinha.

Você também é machista quando sai enfiando seu membro inferior na cara de uma mina pra ela fazer sexo oral, quando você poderia ter perguntado antes a ela se ela queria fazer, já que não foi uma iniciativa dela.

Você também é machista quando não faz sexo oral em uma mulher.

Ou não se esforça para fazer direito.

(Se tem nojo de vaginas, porque transa com mulheres? Reveja suas preferências.)

Você também é machista quando acha que sexo é só penetração.

Você também é machista quando não se esforça para encontrar o clitóris. E talvez um pouco limitado, porque meu deus. É tão simples.

Você também é machista quando goza, mas não se esforça pra fazer mulher gozar.

Você também é machista quando força uma barra pra mulher transar com você, ou pra ela ir até o final, mesmo percebendo que tem alguma coisa errada. E também é machista se não percebe quando tem uma coisa muito errada no meio do sexo.

Você também é machista quando pede para duas mulheres se beijarem na sua frente, porque isso te excita. Duas amigas juntas e, ainda mais, duas namoradas, não são fetiche pra ficar realizando fantasia de macho.

Você também é machista quando acha que as mulheres precisam ser cuidadas e protegidas.

Você também é machista quando diz que uma mulher é sentimental demais, excessiva, quando ela está sendo apenas sincera com você. Sobretudo se vocês tiveram uma relação de muito tempo. Como se ela não tivesse o direito de sentir. Como se ela não pudesse compartilhar isso com você. Como se ela fosse fraca demais pra enfrentar. Porque você... você é forte ne? Sentimentalismos são demais pr'um cara como você.

Você também é machista ao achar que, por uma mulher sentir saudades suas, isso é sinônimo de que a única coisa que ela anda fazendo é sentindo sua falta, por isso ela anda pelos cantos sofrendo. Sentir falta não é fazer voto de castidade, ok?

Você também é machista – ta, aí já não sei se machista ou só babaca – quando dá condição pra uma mina e depois 1. Fica fazendo joguinho com ela ou 2. Ignora ela ou 3. Não fode e nem sai de cima. Arroz a gente gosta no prato com feijão, ou então um bem molhadinho num risoto. Se quer ou se não quer, não custa nada ser sincero.

Você também é machista quando não enfrenta conflitos e evita conversas. Porque nessa sociedade, normalmente uma mulher vai resolver seus problemas pra você. Sua mãe, sua namorada, sua esposa, sua secretária, sua assistente, sua babá, sua empregada doméstica... aí quando é você quem precisa encarar, prefere deixar a mulher lá, perdida, sem resposta, do que mandar a real.

Sabe aquela velha expressão “ele pensa com a cabeça debaixo”? Então. Vocês, mesmo quando pensam com a cabeça de cima, tão pensando com a de baixo. Porque nossa sociedade é falocêntrica pra caralho (taí um exemplo: por que tudo é “pra caralho” quando é demais?). O conceito de falos é um conceito de poder que está atribuído ao pênis. Freud explica. Inclusive toda sua teoria parte daí. Do pênis. Assim como a nossa sociedade. Assim como a nossa criação. Assim como tudo o que vocês pensam e fazem. Cada vez que cês colocam a mulher na postura de desesperada, louca, sentimental, cada piadinha “sem maldade” deslegitimando a mulher de alguma forma, cada gemido que vocês podiam arrancar da gente, mas não se esforçam pra isso... cês tão com a cabeça na cabeça debaixo. Mas querem uma notícia? O mundo não gira em torno do falos de vocês (inclusive saibam que, muitas vezes, ele – ou como vocês o utilizam – deixam a desejar, ok?). O problema dessa sociedade é realmente associar o poder ao pênis, porque cês já nascem sendo criados para serem os donos do mundo. E para devorá-lo. Porque enquanto a mulher dá, o homem come. Percebem? Pois é. A gente se dando e vocês se comendo. Ops. Comendo.

Que um dia vocês pensem mais com os sentimentos, como algumas dessas loucas e histéricas e sentimentais e excessivas e exageradas e desesperadas mulheres, e menos com os pênis de vocês. Se é pra usar o falos, usem direito. E com respeito. Quem sabe pensando com a cabeça de cima pra usar e não usar a cabeça debaixo, cês param de ser machistas mesmo quando acham que não estão sendo. Não adianta nada ser gente boa, se quando fazem uma mulher chorar, acham que o problema é dela, nunca de vocês. Porque o problema nunca é de vocês. Mas a bruxa aqui dá outra má notícia: muitas vezes, o problema não é de vocês. O problema são vocês.

Obs: esse texto não fala especificamente de nenhum homem. Quem dera que fossem problemas pontuais. Se você leu e se sentiu ofendido, eu só lamento que a carapuça tenha servido. Reveja seus conceitos. Se a carapuça não serviu, ajude os seus amigos encarapuçados a reverem os conceitos deles. Como diz a grande Lumilla, "se não gosta, senta e chora, hoje eu to a fim de incomodar". Paz.

Marina N. Martins

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Meu avô


Meu avô nunca temeu a morte. Pelo menos ele dizia isso. Mas sempre a driblou muito bem. Há uns dez Natais que eu ouço dele “esse pode ser o meu último Natal”. Não, acho que mais de dez. Minha avó já faleceu há nove anos e eu escuto ele falando que vai morrer desde antes dela ir. Ele sempre quis ser a pessoa que não liga para morrer, mas sei o quanto sempre amou viver. E batalhou por isso. Por mais que ele falasse, eu sei que não queria partir. Mas tudo bem. Isso é só uma de suas milhões de contradições.

Sim. Meu avô é a pessoa mais contraditória que eu conheço. E apesar disso ter me tirado do sério muitas vezes, eu amo demais esse maluquinho. A nossa relação sempre foi muito próxima e intensa. Ainda criança, lembro das inúmeras vezes em que ele disse o quanto temia o dia em que eu ficasse mais velha e parasse de ter tempo para ele. “Eu sei que é normal, Marininha, é a vida. Você tem seus amigos, vai ter seus namorados. Mas não esquece do vovô”. O tempo para ele realmente diminuiu, mas eu nunca o esqueci, claro que não. Por mais difícil que fosse encontrá-lo às vezes, por conta de minha falta de tempo e de seu comportamento explosivo. Conforme eu fui crescendo, fui encontrando a maneira de lidar com as bobagens que ele dizia, chegando ao ponto de mandá-lo calar a boca. “Fica quieto agora, senão eu vou embora. Não quero ouvir sua voz pelos próximos minutos”. E ele? Respeitou. Calou a boca e não ousou falar mais merda. Pediu até desculpas: “Não vai Marininha, vovô não vai falar mais nada”. Ai dele. Ele sabe. Sabe bem.

Um dia, me criticou. Ele gosta das críticas. Mas nesse dia, disse que eu era muito radical. Agradeci pelo elogio. Sou neta de Joaquim, meu amor. Foi você mesmo quem me ensinou a ler e escrever as palavras, achou que eu não ia beber nem um pouquinho da sua fonte de radicalidade ao usá-las? Pelo menos eu não uso minha radicalidade para o bem e não pra falar bobagem, né seu Joaquim? Além de me ensinar a não ficar quieta, foi ele quem me ensinou a ler e escrever aos três anos, em passeios pelo Jardim Botânico onde levávamos um kit de giz e um pequeno quadro-negro.

Quando eu menstruei, ele demorou uns meses até me aparecer com uma carta e um buquê de flores. É que a primeira menstruação veio quando vovó estava mal, já no final de sua vida, ele não teve condições de pensar nisso. Mas não esqueceu. Pai de quatro mulheres, vô de quatro netas (e um neto!) e bisavô de uma bisneta, que viria mais tarde, ele celebrou, mesmo que alguns meses depois, minha mudança de menina para mulher.

Foi ele um dos responsáveis por me ensinar a ter menos pudor em relação ao corpo. Na minha família, ninguém tem vergonha de ficar pelado na frente de ninguém e ele, sempre mostrando a bunda em meio a reuniões de família, ajudou nisso. Talvez por nosso sangue indígena? Quem sabe.

Quando comecei a namorar, uns meses depois ele veio falar comigo “Marininha, quando quiser uma privacidade com ele, liga pro vovô. Você sabe que aqui em casa tem um quarto, pode usar. Me liga que eu saio de casa e deixo ela pra vocês. Eu não tenho frescura, não. Nem falo nada com a sua mãe. Só quero que você se cuide, porque agora ainda não ta na hora de engravidar. Sabe que quando isso acontecer, vou ficar muito feliz, mas agora vocês não precisam disso.”

Vovô sempre foi muito meu amigo, muito meu parceiro. Por mais que a gente discorde em tantas coisas. Por mais que eu já tenha passado dias sem nem querer ouvir a sua voz, porque perdia a paciência para certas colocações preconceituosas. Quanta coisa eu podia ensinar a ele, se ele ouvisse. Mas por outro lado... ah... por outro lado... Quanta coisa ele me ensinou. Se hoje eu amo escrever, e se na verdade eu sempre gostei, ele tem grande parte da responsabilidade nisso. Afinal, como já disse, foi com ele que eu conheci melhor as palavras.

Vovô me levava pra dar volta de ônibus, metrô, barca e catamarã. Não foi só uma vez que fomos até Niterói porque eu estava a fim de dar um rolê de barca. Ele me apresentou o MAC também. Eu também amava quando ele me deixava alta me colocando em sua garupa ou me fazia voar, quando me jogava para o alto na piscina. Suas mãos que, como ele diz, são como alicates, já abriram muitos potes e muitas garrafas. E também já me esquentaram para as cólicas passarem, sejam as de bebê, sejam as de mocinha. Ele sempre quis ouvir minhas histórias e me contar as dele. Eu digo a ele que, um dia, ele vai se transformar em personagem de filme meu, mesmo que ele não esteja aqui para assistir.

É muito louco isso, sabe. Muito louco isso tudo. É muito louco a gente morrer de raiva das coisas que uma pessoa fala e faz, mas ao mesmo tempo morrer de amor. É muito louco também ver, nas pessoas que a gente ama, que o tempo passa. Porque um dia elas estão ali, andando de bicicleta, passando perfume, deixando o cheiro em você quando te beijam, fazendo hidroginástica, vendo show do Gil e do Caetano. No outro, elas estão numa cama de hospital e a música que toca é um insistente tique-taque de relógio. E algumas mais gostosas que sua mãe e suas tias colocam para ele escutar.

Um dia, você tem três anos, está andando de mãos dadas pelo Jardim Botânico e aprendendo a decifrar as palavras. No outro, você as utiliza para tirar de você o que você não aguenta que fique dentro, enquanto o relógio azucrina o seu ouvido e o ouvido das pessoas que estão em camas de hospitais. E o tempo passa. Mesmo assim o tempo passa. Tem gente nascendo e gente morrendo. Tem gente fazendo aniversário. Mais um segundo, mais um ano. Você já não cabe mais na garupa e não é leve ao ponto de ser jogada para cima. Pelo contrário, você sente o peso do mundo nas costas e na garganta. E o peso do mundo machuca. Mas machuca ainda mais as pessoas em camas de hospitais. E as pessoas que você ama ficam frágeis, mais frágeis que você, ficam leves com tanto peso da vida. Elas precisam do cafuné que já tanto te deram. Você já não cabe mais esticada no sofá, com a cabeça no colo do seu avô e os pés no colo da sua avó – ela dizia que eu sempre fazia essa escolha e reclamava comigo. Eu não lembro de sempre fazer essa escolha. Aí eu revezava. Cada hora com a cabeça e os pés em um colo. No sofá, há tempos que só deita o seu avô ouvindo aquela televisão insuportavelmente alta. E ele lá, reclamando da porra da televisão brasileira que só passa merda. A vovó não está mais lá para vocês três rirem das bobagens de Zorra Total. Vovô também não está lá há um tempo, porque está sem rir numa cama de hospital. E mesmo assim o tempo passa. E as pessoas fazem anos. Ou são os anos que fazem as pessoas? Você teme pelo dia em que passará a falar delas no passado e não mais no presente. Não é à toa que presente chama presente. Viver é um presente. Ou não? Depende. Às vezes não. Não mais. E ainda assim... ainda assim, o tempo passa. Os anos caem sobre as pessoas e os ponteiros dos relógios não param. O colo que te carregou não consegue mais te segurar e você teme por nem você conseguir te segurar. Será que você cabe no seu colo?

Daqui a pouco ele vai estar longe daqui. Daqui a pouco você também. Mas em longes diferentes. E afinal, você já sabe, a gente é só. A gente tem que saber se segurar e aguentar todos os anos nas nossas costas. Todos os alívios e as dores e os alívios de quando passam as dores. Alívios que também pesam, porque, às vezes, para uma dor passar, ela precisa ir embora. De vez. Com as pessoas. O tempo passa em volta de nós e ele não sente dó, não dá nenhuma respirada. Então a gente tem que aprender a respirar. E deixar voar.

Marina N. Martins, para o aniversário de 76 anos do meu avô (dia 01/08)

terça-feira, 6 de junho de 2017

sem título

(dos sentimentos intensos que se transformam, daqueles textos que demoramos meses a publicar e dos sentimentos que precisam se transformar para serem publicados)

Você não tem noção de quantas coisas diárias me vêm à cabeça a respeito de você. Coisas noturnas também. Passei meses sonhando com você todas as noites. Agora melhorou: são quase todas. Nem eu tinha noção de que seria assim. Eu fico imersa em uma bolha de angústia que só infla e não estoura, porque guardo dentro de mim palavras que quero tanto te dizer. E não, nem é nada demais, não fica achando que é algo grave, são simplesmente sentimentos que me afogam se não os transbordo. São sinceridades simples que tenho vontade de compartilhar com você, mas olhando nos seus olhos - e desviando de vez em quando por perder a compostura um pouquinho. Assim como já compartilhamos tantas simplicidades e até profundidades. Nada, nada demais mesmo. Eu acho. Mas o pouco já me queima por dentro. E eu não sei o que faço, nem comigo e nem com você. Por que não poderia ser tão simples quanto as coisas simples que quero dividir com você? Eu poderia dar isso tudo pra você ler, você leria do meu lado e a gente conversaria depois. Mas nem isso eu tenho coragem. E por que?, eu me pergunto. O que me preocupa tanto, se a vida que eu tenho é só essa? Por que eu não posso chegar simplesmente e dizer "por favor, para de me fazer querer desistir de você. Vamos sair, vamos conversar, eu gosto de você, eu sinto sua falta. Eu não quero me casar, nem te namorar, só quero te encontrar pra gente trocar carinho e sinceridade"? Eu vivo na vontade e na castração de te mandar uma coisa dessas. Quero ver suas fotos e saber da sua vida, sua conversa é boa. Quero te falar que a minha vontade é de dar na sua cara e depois te abraçar, porque é assim que me sinto em relação a você. E por falar em abraço... Penso em todos os nossos abraços incompletos ou loooongos, que se estendem desde o encontro da cabeça com o peito até as pontas dos dedos das mãos que vão soltando os braços aos poucos. Braços que não queriam desenlaçar. Nos abraços terminados não por vontade própria, porque tudo o que eu queria era estar ali com a cabeça no seu peito, simplesmente porque seu abraço sempre me fez sentir bem. E também penso em cada toque em público que não tocou ou cada um que tocou e me fez formigar involuntariamente. Você me confunde, quer me deixar mais louca do que já sou, fico achando que não quer falar comigo nunca mais, fico com medo de ser mala, de ser otária - quando tudo isso, vamos combinar, poderia ser resolvido com uma conversa. Mas aí eu te encontro e vejo a sua alegria, porque a gente se gosta pra caralho, e sinto aquela tensão entre a gente, aquele desejo por abraços maiores que podem se estender até que um termine em cima do outro. Ou deitado do lado do outro. Provavelmente eu só estou escrevendo isso para eu ler na posteridade e me arrepender - ou não - de nunca ter te mostrado. Mesmo que eu esteja escrevendo isso, imaginando você lendo e rindo, exatamente nesse momento em que estou dizendo que você lê e ri, ta vendo? Duvido que não esteja pelo menos sorrindo. Não sei quando vou te falar tudo, ou pelo menos um pouco. Não sei se. Mas sei que quero. Mesmo que você nunca escute e que isso me deixe louca de vez. Mesmo que eu esteja escrevendo essa carta sem destinatário. Aliás. Com destinatário, mas endereço errado, já que ela não chega ao destino e acaba voltando para mim. E então se torna igual aos nossos abraços em público, aos nossos quase encontros: incomple

Marina N. Martins

terça-feira, 9 de maio de 2017

Draminha

Quando eu pensava na nossa história como um draminha adolescente daqueles com os quais muita gente se identifica, eu não conseguia visualizar o fim. E era óbvio, porque até então o fim do nosso draminha ainda não tinha chegado. Quando eu estava pensando sobre o que era tudo isso e o que éramos nós dois, quando você me deixou suspensa no seu não-lugar do entre, eu não pensava no fim. Eu pensava "será que, quando eu transformar nossa realidade em ficção, vou dar um final feliz ou menos feliz?", porque na minha cabeça, o feliz era o casal terminar junto, mas ainda bem que tudo passa e tudo muda. Hoje eu dou um final pro draminha. E bem feliz. O casal não termina como casal, eles terminam como amigos, mas de um jeito que ela fica tão bem, tão livre. Ela olha pra ele e pensa o quanto não daria certo. Ela olha pra ele, acha ele bonito, eles sorriem, se enxergam um no olhar do outro, sem ressentimentos, sem machucados. Ela dança. E ela gosta dele como gosta de tantos amigos. Toca uma música maravilhosa. Ele continua a olhá-la, mas ela já não olha mais. Ela dança ao lado de uma amiga, chega outra, e mais outras, e viram várias. Porque afinal, vai ser sempre esse o fim. Os caras ficam no entre, no não, e as amigas no sim. Agora eu me vejo cada dia mais sem você e cada dia mais feliz. E no final não toca Marisa Monte, querido. Toca Anitta e Ludmilla. Porque eu passei do "não vai embora" e do "beija eu", eu to é muito bem na "dança do solidão". Porque eu "cheguei pra bagunçar a zorra toda", pra te esquecer e ficar loka e porque pra mim é "sim ou não".

Marina N. Martins

Palavrinha

Oi, gente. Só queria dar uma palavrinha aqui rapidinho.
(Mentira, quando eu falo, nunca é só uma palavrinha, cês já entenderam que eu falo pra carai ne, mas enfim. Eu JURO que tentarei ser sucinta)
Ontem eu escrevi um texto, sentada na minha cadeirinha, enquanto algumas lágrimas escorriam dos meus olhos. Pensei se esse texto deveria ser enviado a uma pessoa ou tornado público.
Isso é uma dúvida que bate algumas vezes, porque a gente se preocupa demais com o que vão pensar, será que vão ler, e por aí vai.
Mas eu publiquei, senti que tinha que fazer isso.
E aí pensei "aff, mó textão, ninguém nem vai ler"
Corta para
Estou na mesma cadeirinha onde sentei para escrever o texto, com as mãos trêmulas, um nó quentinho no peito e o coração acelerado. Eu não imaginava a quantidade de pessoas que o leriam. Muito menos que comentariam. E aqui estou eu, diante de comentários das mais diferentes pessoas, incluindo pessoas com quem nem tenho muito ou quase nenhum contato.
Cês vão desculpar o palavreado, nem sempre eu sou fofinha
Mas eu to é emocionada pra caralho
Porque uma curtida numa selfie é legal
Porque um "você é linda" é maravilhoso
Mas toda vez que elogiam um texto,
Um projeto,
Um filme,
Um trabalho,
Algo que produzi colocando minha alma, como tudo que faço nessa vida,
Vocês me fazem subir uma emoção inexplicável.
Porque quando vocês me dizem que se enxergam nas minhas linhas, palavras, sentimentos, vocês fazem eu ter orgulho de mim. Vocês fazem eu acreditar em mim. Vocês fazem cafuné na minha cabeça e interrompem os socos no meu estômago por existirem tantos sentimentos entranhados.
Quando vocês se enxergam em mim, vocês me completam.
Quando eu exponho meu corpo, é uma luta bizarra
Mas quando eu exponho a alma, é tão bizarro quanto
Eu to tremendo. Eu quero chorar.
Eu não imaginava que esse texto seria tão enorme.
Eu não imaginava
Eu nunca imagino
Que seria
Que sou
Capaz de fazer as pessoas se enxergarem no que eu digo,
Faço
Mas o amor
O amor é mesmo a linguagem universal
Todo mundo sente, todo mundo vai sentir
E tudo o que eu faço nessa fucking vida, eu faço com amor
É por isso que sinto tudo tão intensamente, que me apego, que sofro pra cacete, que rio até chorar, que choro até secar.
E quando vocês dizem que se identificam com meus sentimentos,
Minha luta,
Minha dor,
Meu amor,
Vocês não tem noção do sol que abre dentro de mim para secar minha chuva.

Marina N. Martins

355 - alguém

alguém

é gostoso ouvir
que você é bonita
mas quando dizem
que você é incrível
que você é foda
que você é verdade
que você é arte
que você inspira
que sua alma é linda
que o mundo precisa de você
isso é muito mais
do que falarem do seu corpo
é bom ouvir bem do corpo
é muito bom
mis ouvir bem da alma
é sentir que é alguém
alguém no mundo
porque somente existir
não é necessariamente ser alguém
ser alguém é existir
fazendo minimamente uma diferença
e o simples fato de pensar no outro
pensar o outro
já é fazer alguma diferença
eu
eu faço isso até demais
e quando vejo isso reconhecido
me sinto sendo diferença
me sinto alguém
mais que alguém no mundo

alguém pro mundo


Marina N. Martins

354 - inbox

inbox

o nosso relacionamento
ele é tão lindo
que até quando ele acabou
ele deixa os outros felizes
e eu to chorando agora
porque isso ta me deixando muito emocionada
porque você faz surgir o que tem de mais bonito em mim
não importa se eu te chame de namorado, ex, amigo
a sua existência me faz mais bonita
eu vivo tudo com tanto amor
mas o amor que você me ensinou ninguém mais vai me ensinar
eu to aqui digitando enquanto vou pensando então desculpa se ta tudo saindo meio assim
ta indo junto com meu fluxo de pensamento
e eu preciso te falar tudo isso agora
porque a saudade que ta me batendo agora ta sendo muito intensa
porque eu só queria muito te abraçar
e não importa
nessa vida
se nossos caminhos forem diferentes
e um dia você tiver com uma esposa que não seja eu e filhos que não sejam os meus
eu vou te encontrar
e só vou querer te abraçar
agradecendo por tudo o que a gente é e já foi
e pronto, acabei de escrever um texto num chate
chat*
obrigada por nos fazer ter um amor que faz os outros agradecerem


Marina N. Martins

353 - muda

muda

a vida é assim
num dia,
ele vai te deixar muda
da melhor maneira possível
vai te fazer tremer
do jeito mais gostoso possível
no outro,
vai te deixar muda
da pior maneira possível
vai te fazer tremer
do jeito mais desconfortável possível
mas aí chega um dia
que ele vai vir falar
e você não vai ficar muda
porque você muda
não vai tremer
vai responder
com a maior indiferença possível
e vai pensar
“caralho
eu sou foda”


Marina N. Martins