quarta-feira, 26 de abril de 2017

O corpo

     
Ilustração: James R. Eads


Ontem, durante um encontro com um grupo do qual faço parte, fizemos diversos exercícios corporais. Mais uma vez, fiquei pensando sobre as definições do que é um corpo. É um assunto que está sempre na minha cabeça, já que eu estudo a questão, seja em discussões de gênero, raça, seja na arte, sejam nos dois ao mesmo tempo. E no meu projeto fotográfico chamado Corpo Cru, eu peço para quem participa definir o que significa “Corpo” e “Cru” ou “Corpo Cru”, então essas definições volta e meia martelam em minha mente. Ontem, algumas coisas passaram por ela. Primeiro, eu queria dizer que acho CORPO uma palavra linda. COR PO.

Depois, pensei que o meu corpo só está cru quando estou debaixo do chuveiro de olhos fechados com a água escorrendo e percorrendo-o. Porque quando eu abro o olho e olho para os pelos na perna que me incomodam, para a barriga que poderia estar menor, as espinhas que são feias, os peitos que aff, o esmalte descascado, bla bla bla, ele já não está mais cru. Eu boto mais a mente do que sinto o corpo. Então eu só me sinto crua quando apenas a água encosta nele, pois a água apenas encosta. Ela não olha, ela não fala, ela não julga. E ainda faz bem. O meu corpo no banho é meu corpo mais cru. Não tem roupa, não tem olhar, não tem adjetivos. Ele também é um pouco cru quando eu danço, mas sem ligar para quem está olhando e o que estão achando. Quando eu só danço, fecho os olhos, solto tudo, sejam as partes dele, seja toda a energia que está armazenada ali naquele território.

Então, pensei no corpo como contradição. Outro dia, escrevi um texto falando sobre como o meu corpo não é meu. Mas ao mesmo tempo, ele é muito meu, só meu, meu todinho. O corpo são várias contradições, que vão desde o fato de, por exemplo, a nudez feminina ser bem vista quando faz parte de um padrão e é colocada à venda, enquanto que a nudez natural é proibida, até tudo o que a nossa boca fala e o corpo faz diferente. Dizer que está tudo bem, mas a mão tremer, dizer que está bem disposta, mas bocejar, dizer que não quer comer, mas salivar, dizer que não liga, mas não para de olhar, dizer que odeia quando quer abraçar, e por aí vai.

Por fim, me veio novamente a ideia do corpo como tempo. Essa definição chegou a mim no dia em que uma conhecida da minha idade faleceu. Ela queria fazer parte do meu projeto, mas não deu. Não tivemos tempo. (Escrevi sobre isso também) E ontem eu estava naquele encontro, após exaustivos e deliciosos exercícios corporais, pensando na efemeridade de nós mesmos. Sobre o quão somos bobos por não nos darmos conta de que somos todos temporários. Podemos definir o corpo de qualquer forma, mas ele é, talvez acima e antes de tudo, tempo. Ele carrega o tempo que vivemos e, com o tempo, vai acabar. Vai sumir. Aí a ligação da nossa cabeça com nosso corpo faz com que a gente se preocupe muito com o que os outros vão achar de como ele está agindo. Nos bloqueamos de nossa própria liberdade e propriedade, sim, propriedade nossa sobre o nosso corpo. Porque nenhum ser humano pertence a nenhum outro ser humano, mas o nosso corpo pertence a nós. Ele pode estar pertencendo temporariamente a alguém com quem eu decida compartilhá-lo, mas isso passa, é bem mais efêmero do que a efemeridade de nós mesmos. Eu que sempre continuarei com ele e nele.

Esquecemos que corpo é tempo, então andamos encarando o chão, nos censuramos de nossa nudez, bloqueamos beijos, abraços e até palavras. A mente sabota o que nosso corpo é quando cru: livre. Por exemplo, a minha mente muitas vezes faz com que meu corpo doa, trave e me machuque, porque a gente se bloqueia de sentir. E do sentir, faz parte o sorrir, o chorar, o falar, o gritar. Transformamos nossos corpos em gaiolas de nós mesmos por medo ou vergonha do que os outros corpos pensantes acharão de nós. E pra que isso tudo?

Então eu vejo uma pessoa com câncer, vejo o quanto o corpo dela começa a limitá-la, porém não por desejo dela, vejo o tempo pesando em seu corpo, seja tudo o que já passou por ele ou o curto tempo que há pela frente. Vejo que esse corpo vai sumir, como todo corpo de tudo o vive. E cada não toque, não beijo, não abraço, não palavra, não lágrima, não sorriso, não dança, não nudez, não transa, não prazer, não liberdade, por puro bloqueio, é um não-uso desse corpo-tempo. Um desperdício. E eu fico aqui escrevendo, escrevendo, mas de nada adianta se eu só escrever. Porque vomitar as palavras faz bem para minha mente e meu corpo, mas às vezes eu só quero sentir outro(s) corpo(s) perto de mim. Soltar e compartilhar o meu com o mundo. Mas não sinto. Eu não faço. Eu me paro. Me censuro. Sinto vergonha. Sinto medo. Só que um dia isso tudo passa, sabe. E eu não vou ter feito muita coisa. E vou me arrepender de todo tempo que perdi ao usar mais mente do que corpo. Eu quero poder chegar perto do meu fim, sentindo todo tempo gasto pesar sobre meu corpo, e não lamentando sobre o que foi perdido por pura bobagem. Porque um dia o corpo morre. Um dia ele some. Um dia, nosso corpo acaba.

Marina N. Martins

sábado, 22 de abril de 2017

Cebola

(encontrei a imagem no pinterest)

Adormeceu quando o dia já raiava e amanheceu quando já estava pela metade. Espreguiçou-se e permaneceu uns minutinhos em sua preguiça. Levantou, foi até a cozinha e colocou uma música para acompanhá-la ao fazer o almoço. Colocou a água para ferver, separou o macarrão, o alho, a cebola, os ingredientes do molho de tomate. A música tocava e a cabeça pulsava como o coração em ritmo intenso, embalados pelas músicas. Muita coisa e muita gente fazia com que eles pulsassem em (des)harmonia. Muita coisa, muita gente, muita coisa, pouca gente, muita coisa, essa gente. Como de costume, começou a chorar. As lágrimas escorriam de seu rosto enquanto preparava tudo. Nostalgia, saudade, ansiedade, incerteza, sentimentos. Tanta coisa, tanta gente, tanta coisa, pouca gente, tanta coisaaaaaaaaaaaaa –

Nheeeeé

Alguém abriu a porta da cozinha.

Recompõe-se. Engole o choro. Funga. Passa a mão com cheiro de alho pelo nariz e embaixo dos olhos. Respira num sorriso. Vira-se.

- Oi!
- Oi... ei! Que houve, você ta chorando?
- Nãaao, não. É só a cebola.

É só a cebola.

Marina N. Martins

segunda-feira, 10 de abril de 2017

É o meu corpo, mas não é meu

Ilustração: Layse Almada

O meu corpo não é meu. Só do fato de eu precisar pensar várias vezes o quão sou dona do meu corpo, já mostra que isso não é tão natural quanto deveria ser. E isso é tão louco. A gente banaliza o anormal e se choca com o natural. Eu não pertenço a ninguém, mas a sociedade ainda não entendeu isso. Então entender que eu sou minha é uma batalha. Cada olhar e cada fala que escuto sobre as minhas “imperfeições” ou o que eu posso fazer para “melhorá-las” ou escondê-las, eu me sinto menos minha. Cada olhar de julgamento me tira um pouco de mim. As estatísticas de violência sexual e doméstica contra mulheres mostram que muita gente ainda faz o que quer do corpo das outras. Se meu corpo fosse meu, eu não arrancaria meus pelos quando eles ficam grandes. Ou pelo menos não me incomodaria com os olhares que eles recebem. Eu não ia me submeter à dor de uma cera arrancando meus pelos, ou de uma pinça puxando-os e por vezes machucando minha pele. Não ia me submeter a uma cama numa sala de depilação, em que fico literalmente aberta e sentindo dor. E o pior, não ia me sentir melhor e mais bonita após a dor dos pelos arrancados. Eu não ia me preocupar com a barriga um pouco maior, os cinco quilos que ganhei em um ano, as espinhas que apareceram em mim depois que eu abdiquei dos hormônios da pílula anticoncepcional, as celulites que resolveram aparecer, umas estrias que aumentaram, os meus peitos não seriam um eterno problema para mim. Se meu corpo fosse meu, o espelho seria um reflexo de um sorriso, não um momento de procura do que poderia ser melhor. Eu não me preocuparia com as opiniões diárias das pessoas sobre o que eu poderia fazer com meu corpo. “Passa uma base”, “toma esse remédio”, “troca de roupa”, “por que cortou o cabelo?”, “ta peludinha, heim?”.

Agora, a minha nudez, essa é só minha. Porque minha nudez só é dos outros quando ela se enquadra no que eles gostam. Minha nudez é dos outros quando não traz marcas, gorduras ou pelos. Quando o que é mostrado agrada. Mas quando quero tirar a camisa por calor, minha nudez é minha. Minha nudez não é minha quando vende. Mas aquela nudez que recebe a água do chuveiro, essa só pode ser minha. E ai de mim se quero mostrá-la. E o meu corpo é tão não meu, que eu nem tenho coragem de mostrar essa nudez. Porque minha nudez é tão minha, que quando é para os outros, fico achando que é errada, que podia ser melhor, que não vão aceitá-la. Ela nunca me deixou satisfeita.

Quando ando na rua e ouço comentários, sinto olhares e às vezes até toques, meu corpo não é meu. Porque ele só é meu quando eu deixo tocar, quando eu gosto do olhar, quando eu quero escutar o que têm a dizer sobre ele. Meu corpo, minhas regras? Talvez no dia em que eu parar de tentar me adequar às normas sociais e ao que elas esperam de mim. Por enquanto, eu dito algumas regras e cumpro algumas outras. Minha regra é um corpo livre (um corpo cru, em homenagem ao meu projeto). Um corpo feliz que signifique liberdade e não opressão. Não é só sobre quem vai olhá-lo e tocá-lo. É sobre a minha relação com ele. É sobre diminuir a minha exigência em relação ao que eu enxergo no espelho. Meu corpo não é meu, mas ai de você querer arrancá-lo de mim. Posso até sair de mim, mas do meu corpo, desse eu não saio.

Marina N. Martins

Radical

"Linguagem Sexista"
(achei a imagem no Pinterest)

E aí vocês vêm e me dizem que eu sou muito radical. Dizem com uma serenidade no olhar e uma cara de pau que só conheço em homens, mas calma, a culpa não é de vocês. A culpa é de toda uma estrutura que deixa vocês completamente serenos e donos de si, até quando o assunto não é sobre vocês. Vocês podem e devem ser seguros, confiantes, e dizerem o que quiserem, quando quiserem. Não é isso? Sempre foi isso. A culpa é de um sistema que não dá limite pra vocês, pra toda essa significância que lhes foi dada e que vocês mesmos se dão; que sempre vai dar razão ao que vocês disserem e fizerem. Então por que guardar para si, se o que estão falando é certo, não é mesmo? Quando se tem todo o privilégio, é realmente muito complicado se calar para ouvir quem sofre na pele e jogar tudo o que é dito em um discurso de que “vocês feministas odeiam os homens”. Em vez de falar uma palhaçada dessas, por que não tentar entender de onde vêm isso que vocês interpretam como “ódio”, pelo fato de que vocês simplesmente não conseguem não serem protagonistas de algo nessa sociedade onde vocês protagonizam tudo o tempo inteiro? Calma, calma. Mais uma vez, não se sintam culpados por isso. Vou ter que ficar repetindo isso só para vocês pararem de achar que o lance é pessoal. Tem que fazer igual criança. Repetir, repetir, repetir... quem sabe um dia minha voz acaba e vocês entendem, né? Mas bom. Em vez de achar que o grande problema do feminismo é o “ódio aos homens”, vocês podiam fazer o exercício da escuta. Se não conhecem, não me impressiona, já que quem foi ensinada a escutar sempre fomos nós. Eu posso explicar o que eu entendo como machismo estrutural, mas só vou explicar se vocês estiverem dispostos a se calar. E não precisam ler teorias feministas, textos e mais textos, apenas se vocês escutassem já bastaria. Se vocês parassem para nos escutar, e mais, SE escutar, vocês entenderiam. Entenderiam que a questão é es-tru-tu-ral e não pessoal. Eu tenho todo o tempo do mundo de explicar, se quiserem entender. Mas se não quiserem entender, nem me perguntem, porque o meu tempo é precioso para me esgoelar para alguém que apenas finge o interesse, quando na verdade só quer falar. Continuar falando. Sempre e sempre. Não vou dizer que não é difícil se calar; é sim. A gente tem que fazer isso a vida toda, então eu digo com propriedade. Se calar é ruim. Mas às vezes não custa nada. Mais do que isso, às vezes é necessário. E mais, às vezes é fundamental. Então, caros homens, não adianta querer ser chamado de feminista se você não entende o movimento, não entende que feminista não é tudo igual, qual é o “inimigo maior” do feminismo, o que é privilégio, o que é lugar de fala, não assume suas atitudes machistas e não percebe tudo o que você fala e faz para que a misoginia se mantenha. Alguns não conseguem nem dizer que apoiam o feminismo, porque na verdade não entendem nada dele e parecem que não querem entender, quem dirá SER feminista. Calem-se e entendam: essa luta não é contra vocês. E muito menos sobre vocês. Quem chama uma mulher de louca quando ela se sente ofendida, nunca viu um homem se sentir ofendido pelo movimento feminista. E vem me dizer que minha luta é radical? Radical é teu machismo, parceiro. Desde o que ri da piadinha boba até o que estupra. Cansei de ouvir sem ser escutada.

Marina N. Martins

quinta-feira, 9 de março de 2017

Dia Internacional da Mulher



I - Das nossas mulheres

Eu quero falar da minha avó. Que tinha nome de flor, Margarida. Que era apaixonada pela vida, pelas pessoas, pelos livros, pelas flores, pelos filmes, pelos animais. Nordestina que chamava a madrinha de Mãe – e com quem queria se encontrar pouco tempo antes de partir. Que dançava como ninguém. Quase foi bailarina do Theatro Municipal, mas não foi, pois, assim como muitas mulheres, teve o sonho interrompido por outras pessoas. Foi casada a vida toda com o mesmo homem, aproveitando tudo de lindo nisso, mas tendo que aguentar tudo de complicado também. Produzia roupas lindas. Pariu quatro outras mulheres. E dessas três mulheres, vieram mais quatro mulheres. E uma dessas pariu mais outra. Minha avó foi guerreira até o fim de sua vida, até quando já não tinha mais forças para falar, escrever, andar, dançar, cantar, sorrir. Minha avó que voltou a dirigir, depois de ter parado desde o início do câncer, quando eu estava junto, pois precisou tirar o carro de um lugar enquanto esperávamos o vovô voltar. E logo depois disso, tirou o lenço da cabeça sem cabelos para mostrar à minha prima, na época com quatro anos, o seu “cabelinho”. Que se emocionou quando minha prima passou as mãozinhas em sua carequinha e viu quando me emocionei também. Sorrimos uma para a outra e choramos juntas. Era eu também que estava no carro na primeira vez que ela de fato dirigiu durante a doença, porque eu não nunca tive medo dela no volante, apesar de dizerem que ela era barbeira. Eu nunca achei. Ela lutou e me ensinou a lutar. Ela me passou o amor pela escrita, pelas línguas, pela fotografia, pela arte e me ensinou amor. Quero falar também das mulheres que vieram a partir da Vovó. Quero falar da minha mãe. Um exemplo de mulher guerreira, forte, ética, profissional, que transborda em amor e sentimentos. Que me carregou por nove meses, me deu à luz de parto normal, foi de maca me ver no berçário. E que me carregou tanto no colo. Hoje já não carrega porque eu já estou maior do que ela. Mas carrega, sim, sabe. Ela me carrega e carrega o peso do mundo e de si mesma. Por vezes me ensina a não ser que nem ela. Mas certas coisas eu vou fazer igual. Umas conscientemente, outras não. Umas boas, outras nem tanto. Fazer o que, mãe? Eu vim de ti. Quero falar das minhas três tias cheias de atitude que sempre me demonstraram nossa força e sempre me inspiraram em algum nível. Das minhas três primas que são como irmãs, com quem compartilho dores, amores, alegrias, vivências. Sigo exemplos e sou seguida. Quero falar da minha sobrima, tão pequena, que está tão longe, mas já mostra sua força e que não veio ao mundo para brincar. E que reconhece minha voz num áudio de celular. Quero falar da minha irmã, que já tinha 21 anos – minha atual idade – quando passei a existir e que fica em dúvida se teve alguma influência na minha carreira. Sou cineasta, ela é atriz. O que vocês acham? Ela que sempre vi nos palcos, por quem fico nervosa antes do sinal tocar três vezes. Minha irmã que corre atrás dos sonhos e é uma guerreira incansável. Quero falar da minha sobrinha, que me fez tia aos 5 anos e se parece comigo em tanta coisa. Ela que pensa em ser – adivinhem? – cineasta. Que me impressiona toda vez que a encontro e vejo que ela já é maior que eu. E que me encheu de orgulho ontem, quando a vi na Marcha do Dia Internacional da Mulher. Mas encheu de orgulho demais. Quero falar da minha avó Antonieta, que não conheci, mas tenho certeza que somos parecidas e que a sinto forte, seja dentro de mim, seja pela casa do meu pai. Quero falar da minha Tia Rita, mulher forte, guerreira, bagunceira, cheia de energia, livre, que partiu cedo, mas cedo demais. E às vezes sinto até agonia em certas fotos que me pareço aflitivamente com ela. Quero falar também de uma tataravó, escrava liberta pela Lei dos Sexagenários, e de uma bisavó, que veio da Itália para o Brasil nos anos... olha, nem sei. Também quero falar da minha terapeuta, que ouve minhas angústias e medos, muitos deles causados por apenas ser mulher. E que já falou para os meus que sou uma pessoa maravilhosa (ouvir isso da terapeuta, gente?). Quero falar das outras mulheres de minha família. Quero falar das minhas amigas, que me ajudam a ser melhor e que vi mudar também para melhor. Das que vi crescer como irmãs e que vão me acompanhar pelo resto da vida. Das que não tenho muito contato, mas tenho carinho. Das mais recentes que já amo. Quero falar das pessoas incríveis que participaram do meu projeto Corpo Cru e da equipe feminina maravilhosa do meu curta-metragem. Equipe que prova a mentira de que trabalhar com mulher é difícil. Muitas pessoas que conheci através do projeto e só enriquecem minha vida. Eu quero falar das mulheres com quem dividi as ruas do Centro da Cidade ontem, enquanto marchávamos por nossas vidas, nossos direitos e nossas liberdades. Das tantas mães que foram carregando as crianças que já crescerão respeitando e lutando. Quero falar de mulher. E vou falar de mulher, não vou me cansar, preciso falar delas, preciso falar de nós. Preciso falar o quanto somos fortes e guerreiras e o quanto aguentamos diariamente. Obrigada às mulheres da minha vida, às que já fizeram parte dela e às que ainda vão fazer. Cada uma de um jeito, vocês me ajudam a crescer.

II - Dos desejos

Que sejamos vivência e não sobrevivência.


Que nossas vidas sejam respeitadas e valorizadas. Que não existam padrões para nos pressionar, oprimir e nos fazer sentir erradas. Que nossos corpos sejam de fato nossos e que não precisemos estipular regras para que sejam respeitados. Que parem de nos obedecer e passem a nos respeitar. Que não nos violem ou violentem. Que nossos abortos não nos prendam nem nos matem. Que nossos beijos e nosso sexo não sejam regulados. Que a gente goze de nossos direitos básicos. Que nossa felicidade seja permitida quando estamos com uma pessoa pelo resto da vida ou com várias em uma só noite. Que possamos escolher o que fazer das nossas vidas. Que nossa nudez não seja castigada, objetificada, hipersexualizada. Que amemos nossos corpos, nossa assimetria, nossas barrigas grandes, pernas grossas, bumbuns estriados, peitos desiguais. Que sejamos aceitas por nós mesmas e pelos outros. Que punam os homens que nos invadem e assediam. Que parem de premiar os que nos abusam. Que parem de contratar os que nos matam, esquartejam e terminam por nos transformar em comida de cachorro. Que parem, parem, PA-REM de nos desrespeitar, rebaixar, ameaçar, assediar, abusar, estuprar, estrangular, esquartejar, que parem de nos matar. Que nos queiram vivas e nunca uma a menos, sempre uma a mais. Que sejamos vivência e não sobrevivência. Que existamos. Que não ganhemos flores, mas que elas brotem dentro de nós e se espalhem para fora. Que existamos. Que sejamos ouvidas. Que berrar por respeito, liberdade e equidade não seja mais necessário. Que existamos. Como é possível ter de implorar para existir?

III - Dos parabéns

Mas não parabéns porque esse dia te foi dado de presente. Não porque você mereça ser paparicada e colocada num pedestal por um dia, aquele em que o mundo lembra de sua existência.
Parabéns pela sua existência. Sua insistência. Sua persistência. Pela sua luta. Por você ter que acordar todo dia sabendo que ele não será fácil, mas mesmo assim enfrentar. Por você muitas vezes ter que cuidar da sua família, sua casa e do que acontece fora dela. Por carregar um ser na barriga e pari-lo. Por ser criticada quando decide que não quer isso na sua vida. Parabéns por conseguir engolir cada assédio moral e sexual que sofre. Parabéns também por vomitá-los na cara de quem merece. Parabéns por seu controle e pela falta dele também. Parabéns por ser livre ou tentar buscar sua liberdade. Parabéns também por não ser. Parabéns por amar o corpo que te olha no espelho e parabéns por não gostar dele, mas luta para aceitá-lo. Parabéns por enfrentar o medo da violência que te cerca, dos abusos que te perseguem, de ser diminuída pelo simples fato de ter vindo ao mundo uma mulher. Parabéns por ter fôlego numa sociedade que te sufoca. Parabéns por conseguir dormir, levantar da cama, estudar, trabalhar, cuidar da sua vida e muitas vezes da de outras pessoas também. Parabéns por sua força e sua incansável necessidade de prová-la.
Esses parabéns não são aplausos. Não são um "felicidades". Eles são um "obrigada". Eles são um "força".
Que nesse dia dedicado à nossa luta, a gente lembre que estamos, sim, de parabéns pelo simples e insuportavelmente difícil fato de (sobre)viver sendo mulher em um planeta que precisa ser lembrado de nossa força e nossa existência. Parabéns para nós.




Marina N. Martins

sábado, 14 de janeiro de 2017

Formei!


A hora sempre chega. De tudo. Agora, por exemplo, chegou a hora de chorar o que eu ainda não tinha chorado e chegou a hora de escrever este texto que está há meses na minha cabeça, mas não saía. Provavelmente porque estava esperando o momento exato do dia seguinte da cerimônia de formatura. Olha, não vou mentir não, é emoção para cacete. Vem tudo junto e misturado na cabeça, eu não sei por onde começar. E já vou avisando que um dos meus problemas enquanto bacharel em comunicação é não conseguir escrever textos sucintos com facilidade. Porque estou desde pequena em um relacionamento sério com a palavra e ela me acompanha quando preciso colocar tudo para fora. A escrita tem sido minha melhor amiga por anos. E hoje, em que tudo é tão corrido, fico apreensiva que não leiam o que eu escrevo por ser “longo demais”. Talvez se eu fizesse um vídeo, fazendo jus à minha habilitação de cinema, seria mais fácil que me acompanhassem. Um dia eu chego lá. Mas a palavra escrita vem antes sempre. O número limite de páginas quase sempre foi um problema para mim nos trabalhos e redações. E vamos combinar, escrever quatro anos em poucas linhas é sacanagem, ne? Bem, espero que leiam. Queria marcar todo mundo que eu queria muito que lesse isso, mas tenho medo de esquecer alguém. Porque encho o peito para falar que é muita gente.

Vou fazer cinema. Só quem já disse isso às pessoas sabe as reações que podem vir depois. Tem gente que sente pena porque você vai ser pobre, por você ser uma inocente e iludida sonhadora. Tem gente que fica nervosa, com medo do seu futuro. Tem gente que te coloca no pedestal da arte (aquela coisa da gente achar que artista é uma parada muito elevada, sabe?). Mas... tem gente que te apoia. Obrigada, vida, por ter me feito filha de Isabella e Chico. Na minha casa, eu nunca ouvi um “não” ao falar sobre as faculdades que eu poderia fazer. Moda, artes cênicas, história, psicologia... cinema. Aqui, meus pais nunca me fizeram sentir medo de viver de arte. Minha irmã, atriz, sempre batalhadora, sempre correndo atrás dos seus projetos, passando por poucas e boas, nunca me fez sentir medo de viver de arte. Minhas tias artistas também não. Minha avó, que infelizmente partiu cedo demais, antes de me ver decida por escolher o cinema, também não. Nem o meu avô, por mais contraditório que essa peste maravilhosa seja. Minha família apoia sonhos. Meus pais não só apoiam, eles me seguram para que eu nunca desista deles. À minha mãe e ao meu pai, agradecer é pouco. Agradecer por tudo o que eles já fizeram por mim, como fazer isso? Como retribuir? Nunca vou conseguir. Se sou o que sou, eles são dois dos maiores responsáveis por isso e eu agradeço diariamente por aprender com seus acertos e erros. E também por ensiná-los com os meus.

A verdade é que artista é gente normal. Ta vai, não tão normal. Mas quem é de fato normal? O que é normal? Se eu escolhi viver da arte, não é porque sou a pessoa mais culta do mundo, que sei te dizer os filmes que você precisa ver antes de morrer, que sei o ano de todos os clássicos, que conheço o cinema mundial inteiro. Se escolhi viver da arte, é porque eu não caibo em mim e preciso me transbordar de alguma forma. Se escolhi viver da arte é porque, na minha vida, ela já me fez sentir de tudo. É porque ela me completa. É porque eu tenho vontade de mudar o mundo e as pessoas, assim como ela me mudou e muda. É porque quero fazer rir, chorar, pensar. É porque quero ser vista. É claro. Se não quisesse, nem compartilhava esse texto, por exemplo. É porque eu acredito no poder de mudança da arte. E estar na faculdade me fez acreditar cada vez mais nisso. As coisas que li, as pessoas que conheci. Minhas professoras, meus professores, minhas amigas, meus amigos, gente que eu nunca falei ao vivo, ou que não tenho tanto contato, mas sei que faz a diferença.

Nesses quatro anos de faculdade, eu tive professoras e professores que marcaram a minha vida. Que me passaram aprendizados muito além da sala de aula. E uns que ainda passam e continuarão. E tiveram alguns muito queridos. Ou também aqueles que não são queridos, mas que te fazem aprender e amadurecer, exatamente por não serem queridos. Tem uns que surpreendem, para o bem ou para o mal. E tem quem te ajuda em cada dica que você pede, cada crise que você passa, que te fazem acreditar em você. E eu preciso destacar os nomes de Flavio e Sergio nesse caso. Não foram só eles que mudaram a minha vida. Mas esses dois são tipo dois pais que arranjei na faculdade e eu não tenho palavras para agradecer tudo o que eles fizeram por mim, tudo o que me passaram. Eu estou órfã deles. E de tantos outros também, que foram me deixando órfã ao longo dos períodos.

Nesses quatro anos de faculdade, eu passei por muitas crises e desesperos. Por que eu faço cinema? Por que isso é útil? O que vai ser de mim? Será que eu vou ser desempregada sempre? Preciso de um estágio. E em maio de 2015 eu consegui. Fui parar na TvZero. E aí tem a minha historinha com a TvZero. Conheci o Robertinho, o Roberto Berliner, quando tinha menos de 10 anos, eu acho. Éramos sócios do mesmo clube. Corta para. No meu primeiro período (2013.1), entrevistei-o para um trabalho da PUC. Fui na TvZero e saí de lá dizendo para minha mãe: vou estagiar nesse lugar. Voltei lá um ano depois para entrevistar o outro sócio, Rodrigo, para um novo trabalho. Deixei meu currículo. Mandei por e-mail. Nada. No final de 2014, uma senhora com quem fazia francês me disse que a sobrinha dela trabalhava numa produtora. Qual? TvZero. Ela nos colocou em contato, mandei currículo de novo, nada. Só em março de 2015, fui parar lá de novo. A Anna Júlia, sobrinha da Tereza com quem fazia francês, e o Leo me entrevistaram. Mas viram que minha cabeça não era muito para a área deles, então chamaram o Vitor. Foi aí que conheci quem seria meu futuro chefe. Vitor me levou até o Roberto. “Caramba, Marina. Como você cresceu”. Pouco mais de um mês depois, eu era a nova estagiária da TvZero. Hoje, mais de um ano e meio depois, sou a nova contratada. AAAAAAAH! Essa produtora trouxe muita gente maravilhosa na minha vida e eu tenho muito a agradecer pelo que já passei lá e pelo que vou começar a passar a partir de segunda (Robertinho, Vitor, meu estômago ta meio embrulhado escrevendo isso, pode ser que eu morra de ansiedade, se eu não aparecer lá na segunda, é por isso).

Nesses quatro anos de faculdade, eu fiz amigas e amigos incríveis. Eu conheci gente que está lutando por uma sociedade mais igualitária e justa. Eu colei com mulheres que me fizeram ver que não estou sozinha e que me dão a esperança de um mundo menos misógino. No primeiro período, no primeiro trabalho, eu já achei minha melhor amiga de faculdade, minha parceira, minha sei lá o que. Eu amo demais essa menina e ela sabe disso. Não vou nem escrever o nome porque eu quero ter certeza de que ela leu isso daqui e ela vai se reconhecer nesse momento. E, olhando para meu primeiro período e depois para o último, eu vejo o quanto as coisas mudaram e o quanto eu mudei. A quantidade de gente que veio para ficar desde cedo e as que foram chegando aos poucos. Teve gente que chegou só no último período, até. Muito louco. A gente passa quase quatro anos no mesmo lugar e tem gente que só aparece no final, mas que chega com uma intensidade de como se nos conhecêssemos desde o início. Gente que vem para mudar. Para ajeitar sua vida ou bagunçar de um jeito estranhamente bom. Mas sei lá, sabe. Eu sou adepta de que tudo tem seu momento e a vida cada vez mais me mostra isso. A essa galera toda que eu estou colecionando no meu álbum de figurinhas queridas da vida, só um pedido: não me abandonem. Já vai ser difícil demais para mim abandonar o pilotis, o cabeção do Kennedy, o vento frio que bate lá, as conversas de cinco minutos ou de horas, as aulas para as quais chegamos atrasados porque a conversa estava boa demais, as provas para as quais estudamos porque o desespero batia forte. Por favor, mas por favor mesmo, fiquem na minha vida. Vamos nos ver. Por mais que o tempo seja corrido, por mais louca que a vida seja, por mais enrolados que nós sejamos. Vocês sabem que minha casa está sempre aberta.

O texto já está gigante e finalizar textos é sempre uma questão para mim. Acho que isso diz bastante sobre mim, na verdade. Mas enfim. Obrigada a todo mundo que fez parte desses quatro anos da minha vida, obrigada por terem seguido ao meu lado, me fazendo acreditar em mim, me fazendo sentir orgulho de mim mesma, mesmo quando eu me sentia inferior por algum motivo ou inútil para o mundo. Além de quem eu já citei aqui, tem muito mais gente importante nessa fase. As minhas-amigas irmãs, meus amigos-irmãos, minhas professoras e meus professores da escola, as minhas primas e meu primo, a minha sobrinha, os meus tios. Nossa, é muita gente. Mas preciso destacar também a família do meu namorado e, é claro, ele mesmo. Ele, que me deu sogra, sogro, cunhada, cunhado, tias e duas avós que fala sério! Se eu tivesse pedido, não seriam tão maravilhosas. Ele que esteve me acompanhando por esse tempo todo, e até antes disso tudo, que viveu comigo meus altos e baixos e sempre esteve do meu lado. Ele que hoje está longe, vivendo uma fase maravilhosa da vida dele, mas que estamos juntos do nosso jeito e lidando bem com isso. Obrigada, meu amor. Nosso amor sempre me fortaleceu. Obrigada mesmo a todas e todos.

Marina N. Martins

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Troco um de silêncio por um de barulho

I.

- Oi, tudo bem?
- Tudo, e você?
- Tudo bem.

Mentira. Tudo péssimo. Acordei com mais uma porrada. Mas que dia é hoje? Qual o dia em que escrevo isso, em que você lê isso? Não sei. Não importa. Todo dia é uma porrada. Falamos que está tudo bem, talvez por não ter como tirar um tempo para dizer que: não. Nada vai bem. Está tudo na merda. Vivemos em um mundo destrutivo, que não se auto-destrói, mas tenta sobreviver à destruição causada pela humanidade, assim como nós. A própria humanidade. O que estamos fazendo com o mundo? O que houve com a humanidade para nos fazer viver em um pesadelo, aquele que sempre temi nas aulas de história? Eu aprendia sobre tempos sombrios e agradecia por estar em um mundo, de certa forma, melhor. Amarga ilusão. Hoje, o dia em que escrevo, o Rio amanheceu quente, azul e solar, mas só enxergo sombras e sinto um calor sufocante. Tão sufocante quanto o nó na minha garganta, que permaneceu mesmo depois das lágrimas que soltei logo ao acordar. Tão sufocante quanto os gritos também presos na garganta, que se espalham por todo o corpo. Eles saem, até saem. Mas para que? De que adianta? Mesmo que saiam, continuam me sufocando, porque são à toa. Gritamos até perder a voz, voz que é constantemente tão silenciada. Luto. Um minuto de silêncio. Luta. Um minuto de barulho.

II.

Estou sentada no chão, como de costume. Ao lado de amigas e amigos, como de costume. Como de costume, pegamos vento. As pessoas passam com seus grupos de amigas e amigos. Conversam andando, conversam paradas. Tudo normal. Tudo parece confortavelmente ou insuportavelmente natural. Eu comento com uma amiga: “olha, parece até que está tudo normal. Mas não está”. E isso vira nosso assunto. O mundo não vai bem e só piora. Nossos amigos acabaram de discutir em voz bem alta sobre tudo isso enquanto nós estávamos encolhidas, confusas e tristes demais para pensar. O mundo só piora e parece que tudo continua normal. Tem alguém se afetando? Três amigos abraçam uma pilastra. Olha aí, nem tudo é tão normal. Em meio a tantas pessoas vivendo sua rotina, eles abraçam a pilastra. Hoje é um daqueles dias para se abraçar pilastras mesmo.

III.


A nossa sociedade visualiza e não responde, até mesmo quando somos ou tentamos ser legais. E quiséramos nós que eu estivesse me referindo apenas a mensagens virtuais.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

348



à luz



memórias nadam na minha cabeça

confusa, fico tonta

de mim, sai uma lágrima espessa

que me acalma e amedronta



dentro de meu quarto

a música penetra os ouvidos

deito-me, faço um parto

dos sentimentos que são sofridos



pensamentos fecundados

roubam-me a sanidade

sofrimentos abortados

escorrem minha liberdade



sou o parto e o aborto

daquilo que me faz ser minha

durmo, então, feito um morto

já que toda gente é sozinha

Marina N. Martins

347



perten-ser

empresto-me
pois sou só minha
dou-me a quem quiser
mas devolvo-me
não entrego-me

quem pensa que me tem
que aproveite enquanto tem
pois é finito

pertenço-me por inteira
cada parte de mim é minha
cada acerto, cada erro
cada confusão
cada espinha, cada pelo
cada imperfeição

gente não pertence à gente
a propriedade
é pura ilusão

Marina N. Martins