sábado, 9 de junho de 2018

Coletor/Copinho Menstrual



Já faz uns meses que uso o coletor menstrual e to pra escrever há um tempo sobre minha experiência. Das primeiras vezes em que ouvir falar sobre ele, tive um super preconceito, achando que era nojento, que ia me incomodar, que era impossível ficar andando com um treco daqueles dentro de mim. Mas aí o tempo foi passando, eu fui começando a olhar o absorvente tradicional de outra forma e a vontade de usar o copinho surgiu mesmo num dia em que assisti a um videozinho falando da quantidade de lixo que produzimos usando absorvente externo e interno. Ah, vale falar também que um dos meus medos de usar o coletor era porque eu nunca me dei bem com OB, e isso porque eu só usava em casos de extrema necessidade como ir a algum lugar onde eu fosse ficar de biquíni. Então eu pensava “se o coletor é ainda maior, como vai dar certo?”. Acontece que a gente aprende que são duas coisas totalmente diferentes e que entram em lugares diferentes! Aproveito a deixa do absorvente interno para dizer o quanto eu sempre detestei isso e, desde muito nova, sou a maior defensora de seu uso apenas em casos extremamente necessários. Desde os meus 13 anos, quando tive minha primeira menstruação, aprendi que usar OB direto faz mal, então, pessoas com vagina, parem de usar esse troço! Real! Parem, porque não faz bem! E eis que, com essa onda toda de métodos alternativos para nossas menstruações, aprendo que o absorvente externo também não é bom para nossas vaginas, é cheio de química.

Bem, dito isso, uma das mudanças que passei desde que me mudei para Paris foi começar a usar o coletor menstrual. Um dia, num impulso, acompanhada e apoiada por um amigo, entrei na farmácia e comprei meu copinho. No começo, eu morria de medo de testar. Achava que ia sofrer um monte colocando aquele troço dentro de mim e já estava até me arrependendo de ter gastado dinheiro com isso. Depois de postar nas redes sociais e mandar mensagens para amigas pedindo dicas, conselhos e força, eu criei coragem para tentar usar meu copinho. Vou começar explicando porque eu amo tanto ele hoje em dia e depois falo de questões práticas – como uma amiga me pediu e como eu pedi também antes de usá-lo.


Hoje em dia, agradeço imensamente por ter vencido o medo e o preconceito do copinho. Por causa dele, aprendi:
11. A não ter mais nenhum nojo de menstruação.
22. Que sangue de menstruação não tem cheiro ruim, o que fica com esse cheiro é o sangue em contato com o absorvente externo (que eu usava).
33.  Que eu menstruo menos do que eu imaginava.
44.  Sobre o formato e a profundidade da minha vagina.
55.  Que óleo de coco lubrifica.

Usando o coletor, eu sinto como se me cuidasse ainda melhor:
11. Por não colocar química nenhuma dentro de mim ou em contato com minha vagina.
22. Temos que passar por um processo de higienização com o copinho que, para mim, é quase como se eu passasse por um pequeno ritual.
33. Me conheço mais internamente (literalmente)
44. Conheço melhor o meu ciclo e o meu sangue. A quantidade, a cor. Inclusive, aprendi que o meu sangue é lindo e ele caindo na privada, ou no chão do box do chuveiro, parece tinta misturada com água. Arte pura.



Hoje, estou completamente adaptada ao coletor. Na minha última menstruação, eu estava viajando e esqueci de levá-lo, então tive que usar absorvente. Foi sofrível. Eu descobri o quanto absorvente (sobretudo daquele estilo “seco”, que é o único que vende na França) me incomoda. Como meu fluxo não é muito intenso, eu posso ficar de boa até 12h com o coletor, o que é ótimo. Eu nem sinto ele dentro de mim. Posso fazer o que for: dormir, dançar, nadar, andar, que não sinto.



Então agora, vamos às questões práticas:

I)                Colocação



Para colocar o coletor pela primeira vez, ouvi dicas de várias pessoas – tiveram duas amigas em específico que foram incríveis, a Vivi e a Vanessa (essa me deu uma aula) – e assisti a alguns vídeos no YouTube. Eles falam sobre os diferentes tipos de dobras, as posições, o cabinho, os tamanhos dos copinhos, enfim, sobre tudinho.
A minha primeira vez foi deitada em uma banheira com as pernas completamente escancaradas, vibes ginecologista, e uma quantidade significativa de lubrificante. Para minha surpresa, não foi tão difícil e deu tudo certo de primeira. Mas no dia seguinte, fui usar e ele me incomodou um pouco, acabei tirando. É tudo uma questão de adaptação. Conforme os meses foram passando, tudo foi melhorando.
Para colocar, cada pessoa vai preferir uma dobra, uma posição. Eu sempre faço a dobra em U, ela dá certo para mim. Sobre a posição, no início eu só conseguia colocar deitada, mas hoje eu já coloco sentada no vaso de boa. E sempre lubrifico um pouco antes! A diferença é que, no início, eu usava lubrificante normal e agora adotei o óleo de coco. Esse oleozinho danado de versátil, natural, cheiroso e que ainda faz bem para nossa vagina (bem mesmo! Ele serve até para passar quando temos candidíase, por exemplo). Então, toda vez antes de colocar o copinho, passo um pouco dele antes. Mas tem que ser pouquinho mesmo, senão fica coisa demais e acaba ficando meio escorregadio.



II)               Cabinho
Todo coletor tem um cabinho, que pode ou não ficar para fora da vagina. Tudo uma questão de tamanho, da vagina e do cabinho. Ele está ali para guiar nossos dedinhos quando formos retirar o copinho (não para puxá-lo! Já explico!). Tem gente que corta um pouco dele, tem gente que corta tudo, tem gente que não corta. É isso, vai variar muito. Eu não precisei cortar nada do meu por exemplo, porque ele fica bem guardadinho aqui dentro. Talvez não seja tão longo, diferente do meu canal vaginal, que acabei descobrindo de uma vez por todas que é.

III)             Retirada
Vou descrever como eu faço. Prefiro tirar o coletor sentada mesmo, ou na privada, ou agachada no box. Com o tempo, a gente vai aprendendo a fazer uma força específica que vai expelindo o bichinho aos poucos. Aí com o indicador e o dedão, eu pego o cabinho, que me guia até o início do coletor. Dou uma apertadinha no copinho, o vácuo que se instala dentro dele sai – fica tranks, que você vai saber quando ele sai, a gente sente um “pf”. É por isso que a gente não pode arrancar o copinho pelo cabo, porque é preciso tirar esse vácuo pra não machucar! Uma vez que eu sinto o “pf”, tiro o copinho e acabou. Sempre achei bem tranquilo de tirar.

IV)             Higiene
Toda vez que eu tiro, lavo com água e sabonete – se possível, um líquido íntimo. Quando o ciclo acaba, faço essa lavagem normal mesmo e o guardo em seu saquinho de algodão, que vem com ele. A cada início de ciclo, é preciso mergulhar o copinho em água fervente. Para isso, eu comprei uma cumbuquinha vermelha só dele. Assim, eu fervo a água, jogo na cumbuca e deixo ele mergulhado lá 3-4 minutos. Depois tiro, seco e deixo esfriar antes de sair colocando (porque não quero queimar a ppk ne).

É basicamente isso. Quis compartilhar a minha experiência, deixando bem claro que é a minha, principalmente pelo fato de que cada pessoa tem uma vagina totalmente diferente. Então umas vão se adaptar, outras não. E a gente vai se descobrindo dia a dia, mês a mês. Além do coletor, hoje também uso a calcinha absorvente (a minha é da Panty’s). Aproveito para usá-la quando a menstruarão já está no final, em vez de usar mini absorvente interno Carefree, por exemplo. Ela é ótima. A única coisa é que custa caro, então eu só tenho uma, aí não dá para usar durante todo o ciclo.


Também queria dizer que nem tudo são flores com o coletor. Porém, a gente acaba se acostumando e se adaptando com o tempo. Por que estou dizendo isso:
11. Precisar tirar e colocar o coletor num banheiro público, por exemplo, é meio chato. Porque isso significa lavar as mãos antes, entrar na cabine, tirar, sair da cabine (cheia de papel higiênico dentro da calcinha), lavar o coletor na pia, voltar para a cabine e colocá-lo de volta. Meio perrengue, ne? Principalmente em banheiro cheio. Principalmente, ainda, se for um banheiro não tão limpinho. Por exemplo, quando fui pegar avião menstruada, usando copinho há só dois meses, preferi usar absorvente, porque morri de medo de ter que tirá-lo naquele banheiro mínimo e, ainda por cima, vai que bate uma turbulência? Cruz credo, ia parecer banheiro de filme de terror.
22. Vamos passar para uma intimidade agora, mas é importante compartilhar (até porque ninguém tinha me falado disso antes!). Nos primeiros meses, quando eu ia no banheiro para fazer  nº2 (que fofa), com a força natural que fazemos para tal, o copinho meio que dava uma saída e não voltava mais. Aí tinha que tirar, botar, aquela coisa toda. Mas acho que isso rolou porque 1) talvez eu ainda não estivesse totalmente adaptada, 2) talvez ele não estivesse ainda perfeitamente encaixado. E hoje, já consigo diferenciar melhor as forças diferentes que fazemos no banheiro (rs), xixi, cocô, expelir copinho. Com o tempo, a gente aprende.

Fora isso, hoje sou uma enorme defensora do coletor menstrual. Ele me faz um bem enorme, já estou bem adaptada. Mesmo se às vezes coloco mal, eu tiro sem problemas, boto de novo, já está tudo super natural. Eu amo ter esse contato maior com meu fluxo menstrual, meu ciclo, sinto que entendo meu corpo melhor. Ah sim! E mesmo o preço, que de cara parece meio alto (uns 80 reais), vale super a pena, porque o coletor dura muito, então vai compensar os pacotes de absorventes!

Aproveitando o assunto, queria indicar o app Clue, que eu uso para acompanhar meu ciclo. Ele é mara. Além da gente colocar sobre fluxo de sangue, tem muitas outras opções que você pode botar dia por dia. Dores, acne, sexo, vontades, humor... é ótimo!



Pra fechar:
Menstruação não é feio.
Menstruação não é sujo.
Menstruação é lindo, é saúde (ou sinal de ausência de), é vida.

Amemos nossos corpos e respeitemos nossos sangues. <3 o:p="">





Marina N. Martins

quarta-feira, 21 de março de 2018

Leiam aqui, moços (e moças)

@yogiyoni via @tiny_clementine_art

Esse é um texto dedicado às mulheres que transam com homens e adereçado aos homens que transam com mulheres. Ou enfim, dedicado e inspirado em relatos de pessoas com vaginas que têm experiências sexuais com homens heterossexuais. Um texto que, quem sabe, um dia vira vídeo. Um texto que venho há muito querendo fazer, mas acabo me bloqueando, porque sexo é tabu. Mesmo eu, uma pessoa normalmente tranquila pra falar de sexo e sexualidade, que sempre teve um super espaço para diálogo em casa, ainda me vejo bloqueada em certos aspectos quando o assunto é esse. Por mais de boas que a gente seja, não é com todo mundo que a gente fala sobre isso ne?

Mas depois de tanto e tanto (e tanto!) conversar com amigas, ler e ouvir histórias, a necessidade de botar tudo para fora e tornar essa questão - esse PROBLEMA - pública(o), falou mais alto do que uma possível vergonha. E vergonha nem sei de quê, porque vamos lá, eu não estou me guardando para o casamento e as pessoas sabem disso. Galera, eu transo. Galera, mas quero transar melhor e as miga também quer.

Eu não sou a pessoa mais experiente do mundo, mas eu sou uma pessoa que escuta moças mais e menos experientes no assunto. E que quer ajudar as futuras ex-virgens a se abrirem e serem felizes e saberem que O PRAZER DELAS IMPORTA.


Então, resolvi escrever isso aqui, baseada no famoso “entendeu ou quer que eu desenhe?”. Não fui eu que desenhei, mas peguei lindas ilustrações – foi até difícil selecionar. No final do texto, vou indicar uns instagram massa pra vocês vasculharem.

Então, senhoras e senhores, eu vim aqui falar de prazer feminino (e vaginal). Mais especificamente de um sexo heterossexual que anda decepcionando muita mina por aí. A verdade é que é ASSUSTADORA a quantidade de mulheres que compartilha da mesma dor: a de não sair satisfeita do sexo. Motivos? Vários. Tantos que estão nos fazendo perder a paciência e sentir preguiça de ter uma relação sexual com um cara. Vou ser bem professoral e apontar questões que tanto escuto.




1.     O pênis. Não, não to falando de formato nem de tamanho. Quero dizer que, galera, SEXO NÃO É SÓ PENETRAÇÃO. A maioria das pessoas têm mãos e lábios e língua e tantas outras partes do corpo pra usar e explorar.





2.     Você gozou antes de rolar penetração, TA TUDO BEM. Acontece! Mas imagina que maneiro se esse mulherão da porra que ta aí do seu lado também alcançasse o prazer que nem você? Bora se esforçar? Para isso existem diversas maneiras. No basicão, uma mão e uma boca dão conta do recado. Se joga migo. Do seu lado, tem uma pessoa com um corpo inteiro para ser explorado COM CONSENTIMENTO (óbvio, sempre ne). E se não sabe muito bem o que fazer, PERGUNTA. Não tem problema perguntar, muito pelo contrário.


@juliet_allen

3.     O clitóris. Aí, na moral. Perdemos a paciência pra macho que NÃO SABE ONDE FICA. PORRA GALERA. NÃO TEM COMO DEFENDER. Google imagens. Livro de biologia. Até em vídeo pornô (mas cuidado com eles porque... bem, vou chegar lá). E se não sabe mesmo, mas sabe que ELE EXISTE, pergunta pra mina. Melhor passar vergonha perguntando do que passando a mão num lugar que CLARAMENTE cê nem sabe o que ta fazendo. Nesse caso, a mina – principalmente a que é mais tímida pra falar – vai ficar com uma cara de “que porra é essa”. Poupa essa cara e dá uma perguntada, vai por mim.



@clubclitoris

4.     A falta do olhar. Olho no olho é massa, gente. Isso serve para a vida. Falar olhando no olho, ouvir olhando no olho. No sexo não é diferente, é bom rolar uma troca de olhares. É bom estar atento ao que a pessoa do teu lado ta sentindo, e ela vai mostrar muito isso com as expressões. Bora se tocar, mas bora se olhar também.





5.     O sexo oral. Primeiramente, sem nojinho, né? A maioria das ppk é bem limpinha, assim como a maioria dos seus miguxos deveria ser também. Segundamente, FAÇAM. Até hoje, nunca ouvi uma mina dizer que não curte. Inclusive, MUITO PELO CONTRÁRIO. Se não sabe o que fazer, mais uma vez, PERGUNTA. Aliás, fica a dica, fazer é a melhor forma de treinar. E sobre o sexo oral em vocês: nunca, jamais, EM HIPÓTESE ALGUMA, force uma mina a fazer. Isso serve para QUALQUER COISA NO MUNDO, mas é muito comum acontecer no oral. Ta errado isso aí que vocês aprendem em vídeo pornô. Ta errado enfiar o piru na cara de uma moça, ta errado empurrar a cabeça dela, isso tudo costuma ser bem abusivo (cada pessoa curte um troço, eu não tenho nada a ver com isso, mas de início, vamos NÃO fazer?).







uma musiquinha procês se inspirá

6.     Pelos. Este item é só para dizer que nem toda mulher se depila e cada uma deixa os pelinhos d’um jeito. E isso não deveria ser um problema e a gente espera que não seja. E isso não serve só para a virilha, mas pro corpo todo. Beijos.



@yogiyoni via @tsurufoto

7.     O vídeo pornô. Cheguei nele! A maioria de nossos meninos aprende a transar vendo pornografia. Porque a maior parte não tem um espaço para dialogar sobre isso. Aí vocês ficam assistindo esses vídeos, em sua ESMAGADORA maioria feito por e para homens heterossexuais, em que o prazer do homem é sempre o que mais importa. Vocês crescem achando que é assim, que o que reina no sexo é o pênis e o auge de tudo é a ejaculação masculina. Nada disso. Por exemplo. Existe uma categoria de pornô, que aprendi num documentário*, em que homens forçam mulheres a fazer sexo oral até vomitarem. Sim, isso existe e existe nesses grandes sites que vocês com certeza já visitaram. É um estupro filmado e, muitas vezes, é real. Aquela atriz está realmente sendo obrigada àquilo. E outra. Saibam que a indústria pornô é bem opressiva em relação às atrizes. Aproveito para indicar o documentário* Hot Girls Wanted, da Netflix.

8.     O diálogo. Um grande problema nosso é morrer de medo de falar. Não falar o que gosta quando sente vontade, o que não gosta quando o negócio não ta bom e nem perguntar para a outra pessoa quando bate a dúvida. A nossa vergonha acaba atrapalhando muita coisa que poderia ser resolvida. Bora falar, povo! Não gostou de um troço, fala. Ta vendo que o mano não ta sabendo muito o que ou como fazer, explica. Ta se amarrando ali no troço, diz também (ou mostra ne). Tudo não seria bem mais simples? Vamos se esforçar e encorajar as manas!





Então é basicamente isso.
Mujeres, se quiserem adicionar algo, me mandem, o prazer será todo meu (risos).
Hombres, vamos se esforçar, vamos? Se se esforçar direitinho, todo mundo goza 😉
E MUITO importante:
CAMISINHA É TOP! Se proteger direitinho, todo mundo se diverte, sem pegar doença e sem ter neném fora de hora. Massa.
Pessoas, mulheres transam e mulheres gozam e o nosso prazer importa. Espero não chocar a família tradicional brasileira e seu eu chocar, caguei, ninguém paga minhas contas.




Você pode substituir sua pornografia por (conversar com suas amigas e crushs e parar de pensar só com a cabeça de baixo, mas também):
@regards_coupables – essas imagens eróticas incríveis em fundo branco que compartilhei aqui
@petitesluxures – também ilustrações eróticas e uns trocadilhos
@nudegrafia – mais ilustrações eróticas
(todos esses trazem sexo hetero, homo e bissexual)<3 o:p="">
@stephanie_sarley – essa mina genial transformou comida em pornografia
@thenakedbeauties – altas imagens lindas do universo feminino/feminista
@the.vulva.gallery – procês verem como existem tantos tipos de ppks
@yogiyoni – altas ppks pra vocês também
@clubclitoris – mais ppks
@tsurufoto – artista
@laysealmadaart – artista brasileira que faz ilustrações, tatuagens... e tem uma série de desenhos chamada “me deixa gozar”
(pelamor, não to comparando nada deles com pornografia, e sim indicando por serem maravilhosos, criativos poéticos, artísticos)


Marina N. Martins

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Quando as solidões se buscam e não se encontram

"Porque eu estava sozinho. Talvez só porque eu estava sozinho"
Filme Her (Spike Jonze, 2013)

To carente. Preciso dar uns beijos. Não tem ninguém. Ah vou baixar o Tinder. Vai o Happn também. Vai que. Like like like like meu deus por que não ta dando match? Por que não ta dando crush? Nope nope nope nope nossa só gente péssima. Que descrição é essa? Aff foto sem camisa no espelho não dá. Opa! Crush! Match! Ai que bom, sou bonita. Ai graças a deus, tava começando a achar que tinha algo de errado comigo. Gente, como não deu match com esse? Nossa, quantos matchs e crushs. Ninguém vai puxar assunto não? Vou falar com uns aqui.
Uns, nada.
Outros, um papinho meia boca.
Cansei.
Vou deletar essas merdas.
...
...
...
Nossa, mó carência ne.
...
...
Ah vou baixar de novo aqui o Tinder e o Happn, vai que.


Eu sei que vai ter muita gente se reconhecendo nisso, muito mais do que eu gostaria, porque eu sei que todo esse roteiro é um saco. Como uma amiga disse outro dia, quando ficou tão difícil beijar na boca? Ao que outra respondeu, "é culpa dos apps". E olha, eu vou falar, é verdade. Não vou ficar aqui de a crucificadora dos apps de paquera, como se tivesse repulsa a eles ou nunca tivesse usado, mas ta na hora de falar sobre eles. Ta na hora de refletir sobre o uso e tudo o que ele já me causou, e sei que causa em muitas pessoas. Sei que eles já facilitaram muito a vida de muita gente, já trouxeram muita alegria, até eu já recebi felicidade por causa deles (pelo menos uma ne, obrigada vida). Mas a dinâmica que eles estão causando nas relações ta ficando estranha. A gente desaprendeu a flertar. Não que antes a gente manjasse muito do assunto, mas agora a gente tem muito mais medo de manjar.

Por que quando a gente baixa os apps, fica tão feliz e, depois de algum tempo, sente preguiça e raiva daquilo tudo?

Primeiro tem o deslumbramento da descoberta, a esperança de que aquilo adiante de alguma coisa na nossa vida afetiva, o levantamento de autoestima com cada match/crush, e depois vem aquela sensação de vazio. Aquele enorme vazio causado por combinações sem trocas de olhares, que não dão em absolutamente nada. Não saem daquele universo de sentimentos digitalizados. É muito raro um papo realmente bom. É raríssima uma verdadeira conexão. Com o vazio, vem a desilusão, o não suprimento de uma solidão e a volta de uma carência, uma desesperança em relação a tudo. Ficar passando gente como se fosse num cardápio cansa.

E fiquei refletindo por que a gente faz isso com a gente. E por que ficamos com tanta preguiça disso tudo. E acabamos concluindo de que é ainda pior baixar esses apps quando estamos carentes. E por que nos submetemos mais e mais vezes a isso, até sentir novamente a preguiça e o vazio. E parecemos estar viciados nesse ciclo... vicioso. Viciante.

De chegar ao ponto de marcar de sair com alguém e querer desistir no caminho, e desabafar pra uma amiga: "por que eu me presto a esse papel?". E não é por nada, gente. É legítimo a gente querer conhecer gente nova, a gente querer suprir nossas faltas e desejos. Mas ficamos com preguiça do esforço para que aquela relação saia do celular. E não por preconceito. Porque tem uma diferença enorme entre falar com a pessoa online antes de vê-la ao vivo e conhecer alguém ao vivo para depois conversar online. O começo online não tem flerte, não tem sedução, raramente tem uma conexão, não tem toque, não tem cheiro. Convenhamos. A gente vai encontrar alguém e não sabe se ela fede, se ela tem bafo, se ela tem dente sujo, se aquele início de conexão que tivemos no app é mesmo real ou se é fantasia, tanto quanto o que vendemos de nós mesmos.

Pensando aqui, eu acho que o que falta mesmo nesses apps é o quesito encantamento. Se ele acontece ali, é um encantamento puramente físico, aliás, nem físico, imagético. E se, por vezes for intelectual, é tão superficial. Não tem aquele encantamento físico de olhar praquela pessoa e pensar "caraaaai só me beija" ou o que vai acontecendo aos poucos, conforme a gente conversa com alguém e vai se conectando àquela pessoa.

Eu acho que, no final, os apps acabam fazendo o caminho inverso ao que se propõem. Em vez de darem uma esperança de que podemos sair da fossa e satisfazer um ou outro desejo, acabamos achando que nunca vai rolar nada. Ficamos com aquele pensamento "não é possível, tanta gente aqui e não dou certo com nenhuma?". Talvez. Mas a culpa não é sua. E nem da pessoa que está do outro lado do celular. Ou na verdade a culpa é de todos nós em nosso caminho de tornar as relações humanas superficiais e digitais, com conversinhas banais que quase nunca mostram ao que vieram, que quase nunca colocam um sentimento sincero naquelas palavras digitadas.

Resumindo tudo de forma bem cruel. Sinto que esses apps nos tornam cada vez mais dependentes de um afeto que cada vez menos sabemos dar.

Marina N. Martins

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Vocês também são machistas quando acham que não são.

Ou quando acham que não estão sendo.

O que, para muita gente, parece óbvio, mas para outras tantas não é. Tem muita coisa por aí que ninguém acha que é machismo, mas é. E se a gente reclama, vão nos chamar de exageradas. O machismo não está “só” nos gigantescos problemas estruturais, como acesso diferenciado à educação, desigualdade salarial, falta de liberdade e propriedade com o próprio corpo, direito vetado de ir e vir, violência moral, física e sexual... O buraco é ainda mais profundo do que parece. E só sai dele quem se permite escavar.

Pelo momento, eu peço: sem essa de “ah mas mulher também é machista”. Gente, todo mundo está na mesma sociedade patriarcal, é claro que também haverá mulheres que vão reproduzir esse discurso e, na maior parte das vezes, sem nem perceber. Mas esse não é um texto para as mulheres, e sim para os homens. E quando eu digo os homens, não estou falando de um em específico, mas de vários. “Ai, mas aí é generalização”. Sim, a generalização é necessária quando o problema está na maioria. Se você é exceção, meus parabéns, não faz mais do que sua obrigação. Estou me baseando em diversas experiências de vida, que não acontecem só comigo, mas com amigas e, com toda certeza, com muitas mulheres que eu conheço ou nem conheço.

Então você, pode ser um puta cara bacana. Puta filho, puta amigo. Pode ser aquele cara que todo mundo gosta de estar perto, de trocar uma ideia. Pode até ser tudo isso e ainda ser bonito, charmoso, ter estilo, ser cheiroso, engraçado, educado. Tem um papo bom. Moleque família. Moleque caseiro. Mas também não perde a chance de uma cervejinha. Cheio das amigas e dos amigos. Sem preconceitos. Desconstuidão. Pró feminista pra caramba. Curte tudo de feminismo que as minas postam. Apoia o movimento pra caralho. Mas você, esse puta cara bacana, continua sendo machista. E me desculpa por ser a bruxa que te diz isso.

Você também é machista quando transa com a mina numa noite e fala pra ela assim: “ó, vê se não some”. Mas aí ela vai puxar uns assuntos com você e quem some é você. E a moça fica sem entender, querendo ir atrás de você, mas aí começa a falar pras amigas “meu deus, eu pareço desesperada?”. Quando, na verdade, ela só queria mais uma(s)zinhas(s) com você, porque foi gostoso. Porque cê deu prazer pra ela e todo mundo gosta de prazer. E ela tem direito de querer de novo sem sentir vergonha disso. Mas ela não tem coragem de te dizer isso, porque seria ousado demais, na cabeça dela.

Você também é machista quando fica ostentando mulher pra mina com quem você está saindo. Você se paga de legalzão, falando que não quer nada sério, e faz questão que essa mina saiba que você ta aí cheio dos esquemas e dos contatinhos. Mesmo que você não queira nada sério, você também faz questão de marcar presença pra essa mina. Ta sempre ali puxando um assunto no whatsapp. Mesmo sabendo que ela pode se envolver com você, mas ah! Aí não é culpa sua ne? Desde o início você disse que não queria nada sério, ninguém mandou ela se iludir.

Você também é machista quando está saindo com duas minas ao mesmo tempo, mas nenhuma delas sabe da outra. Ah, e elas se conhecem. E você fica administrando isso enquanto paga pra todo mundo de cara maneiro, mas, por trás delas, fica as colocando no lugar de meninas apaixonadas que estão confundindo as coisas. Como se 1. Fosse verdade e 2. Elas não tivessem motivo pra isso, caso fosse verdade.

Você é machista quando ta mantendo as duas debaixo das suas asinhas, mandando mensagenzinha e áudio grande. Dizendo “vamo marcar” e, toda vez que marcam, cê dá bolo.

Você também é machista quando diz pra uma delas “eu não sou um cara que gosta de estar com duas meninas ao mesmo tempo”. E quando você continua nessa pose de cara legal, mas se faz de coitadinho “ai, parem de achar que eu só legal, eu não mereço isso”. Ai querido, se você quer punheta, vai se resolver com isso sozinho, não fica alugando ouvido de mulher com punhetagem emocional, porque a gente tem mais o que fazer, ok?

Você também é machista quando acha que a mina ta apaixonada e morrendo de amores por você, quando na verdade ela só ta te curtindo. E fica falando isso pras pessoas, mas pra ela você diz “eu não costumo falar pra ninguém das meninas com quem eu fico”.

Você também é machista quando pede pra fazer sexo sem camisinha.

Você também é machista quando sai enfiando seu membro inferior na cara de uma mina pra ela fazer sexo oral, quando você poderia ter perguntado antes a ela se ela queria fazer, já que não foi uma iniciativa dela.

Você também é machista quando não faz sexo oral em uma mulher.

Ou não se esforça para fazer direito.

(Se tem nojo de vaginas, porque transa com mulheres? Reveja suas preferências.)

Você também é machista quando acha que sexo é só penetração.

Você também é machista quando não se esforça para encontrar o clitóris. E talvez um pouco limitado, porque meu deus. É tão simples.

Você também é machista quando goza, mas não se esforça pra fazer mulher gozar.

Você também é machista quando força uma barra pra mulher transar com você, ou pra ela ir até o final, mesmo percebendo que tem alguma coisa errada. E também é machista se não percebe quando tem uma coisa muito errada no meio do sexo.

Você também é machista quando pede para duas mulheres se beijarem na sua frente, porque isso te excita. Duas amigas juntas e, ainda mais, duas namoradas, não são fetiche pra ficar realizando fantasia de macho.

Você também é machista quando acha que as mulheres precisam ser cuidadas e protegidas.

Você também é machista quando diz que uma mulher é sentimental demais, excessiva, quando ela está sendo apenas sincera com você. Sobretudo se vocês tiveram uma relação de muito tempo. Como se ela não tivesse o direito de sentir. Como se ela não pudesse compartilhar isso com você. Como se ela fosse fraca demais pra enfrentar. Porque você... você é forte ne? Sentimentalismos são demais pr'um cara como você.

Você também é machista ao achar que, por uma mulher sentir saudades suas, isso é sinônimo de que a única coisa que ela anda fazendo é sentindo sua falta, por isso ela anda pelos cantos sofrendo. Sentir falta não é fazer voto de castidade, ok?

Você também é machista – ta, aí já não sei se machista ou só babaca – quando dá condição pra uma mina e depois 1. Fica fazendo joguinho com ela ou 2. Ignora ela ou 3. Não fode e nem sai de cima. Arroz a gente gosta no prato com feijão, ou então um bem molhadinho num risoto. Se quer ou se não quer, não custa nada ser sincero.

Você também é machista quando não enfrenta conflitos e evita conversas. Porque nessa sociedade, normalmente uma mulher vai resolver seus problemas pra você. Sua mãe, sua namorada, sua esposa, sua secretária, sua assistente, sua babá, sua empregada doméstica... aí quando é você quem precisa encarar, prefere deixar a mulher lá, perdida, sem resposta, do que mandar a real.

Sabe aquela velha expressão “ele pensa com a cabeça debaixo”? Então. Vocês, mesmo quando pensam com a cabeça de cima, tão pensando com a de baixo. Porque nossa sociedade é falocêntrica pra caralho (taí um exemplo: por que tudo é “pra caralho” quando é demais?). O conceito de falos é um conceito de poder que está atribuído ao pênis. Freud explica. Inclusive toda sua teoria parte daí. Do pênis. Assim como a nossa sociedade. Assim como a nossa criação. Assim como tudo o que vocês pensam e fazem. Cada vez que cês colocam a mulher na postura de desesperada, louca, sentimental, cada piadinha “sem maldade” deslegitimando a mulher de alguma forma, cada gemido que vocês podiam arrancar da gente, mas não se esforçam pra isso... cês tão com a cabeça na cabeça debaixo. Mas querem uma notícia? O mundo não gira em torno do falos de vocês (inclusive saibam que, muitas vezes, ele – ou como vocês o utilizam – deixam a desejar, ok?). O problema dessa sociedade é realmente associar o poder ao pênis, porque cês já nascem sendo criados para serem os donos do mundo. E para devorá-lo. Porque enquanto a mulher dá, o homem come. Percebem? Pois é. A gente se dando e vocês se comendo. Ops. Comendo.

Que um dia vocês pensem mais com os sentimentos, como algumas dessas loucas e histéricas e sentimentais e excessivas e exageradas e desesperadas mulheres, e menos com os pênis de vocês. Se é pra usar o falos, usem direito. E com respeito. Quem sabe pensando com a cabeça de cima pra usar e não usar a cabeça debaixo, cês param de ser machistas mesmo quando acham que não estão sendo. Não adianta nada ser gente boa, se quando fazem uma mulher chorar, acham que o problema é dela, nunca de vocês. Porque o problema nunca é de vocês. Mas a bruxa aqui dá outra má notícia: muitas vezes, o problema não é de vocês. O problema são vocês.

Obs: esse texto não fala especificamente de nenhum homem. Quem dera que fossem problemas pontuais. Se você leu e se sentiu ofendido, eu só lamento que a carapuça tenha servido. Reveja seus conceitos. Se a carapuça não serviu, ajude os seus amigos encarapuçados a reverem os conceitos deles. Como diz a grande Lumilla, "se não gosta, senta e chora, hoje eu to a fim de incomodar". Paz.

Marina N. Martins