quinta-feira, 9 de março de 2017

Dia Internacional da Mulher



I - Das nossas mulheres

Eu quero falar da minha avó. Que tinha nome de flor, Margarida. Que era apaixonada pela vida, pelas pessoas, pelos livros, pelas flores, pelos filmes, pelos animais. Nordestina que chamava a madrinha de Mãe – e com quem queria se encontrar pouco tempo antes de partir. Que dançava como ninguém. Quase foi bailarina do Theatro Municipal, mas não foi, pois, assim como muitas mulheres, teve o sonho interrompido por outras pessoas. Foi casada a vida toda com o mesmo homem, aproveitando tudo de lindo nisso, mas tendo que aguentar tudo de complicado também. Produzia roupas lindas. Pariu quatro outras mulheres. E dessas três mulheres, vieram mais quatro mulheres. E uma dessas pariu mais outra. Minha avó foi guerreira até o fim de sua vida, até quando já não tinha mais forças para falar, escrever, andar, dançar, cantar, sorrir. Minha avó que voltou a dirigir, depois de ter parado desde o início do câncer, quando eu estava junto, pois precisou tirar o carro de um lugar enquanto esperávamos o vovô voltar. E logo depois disso, tirou o lenço da cabeça sem cabelos para mostrar à minha prima, na época com quatro anos, o seu “cabelinho”. Que se emocionou quando minha prima passou as mãozinhas em sua carequinha e viu quando me emocionei também. Sorrimos uma para a outra e choramos juntas. Era eu também que estava no carro na primeira vez que ela de fato dirigiu durante a doença, porque eu não nunca tive medo dela no volante, apesar de dizerem que ela era barbeira. Eu nunca achei. Ela lutou e me ensinou a lutar. Ela me passou o amor pela escrita, pelas línguas, pela fotografia, pela arte e me ensinou amor. Quero falar também das mulheres que vieram a partir da Vovó. Quero falar da minha mãe. Um exemplo de mulher guerreira, forte, ética, profissional, que transborda em amor e sentimentos. Que me carregou por nove meses, me deu à luz de parto normal, foi de maca me ver no berçário. E que me carregou tanto no colo. Hoje já não carrega porque eu já estou maior do que ela. Mas carrega, sim, sabe. Ela me carrega e carrega o peso do mundo e de si mesma. Por vezes me ensina a não ser que nem ela. Mas certas coisas eu vou fazer igual. Umas conscientemente, outras não. Umas boas, outras nem tanto. Fazer o que, mãe? Eu vim de ti. Quero falar das minhas três tias cheias de atitude que sempre me demonstraram nossa força e sempre me inspiraram em algum nível. Das minhas três primas que são como irmãs, com quem compartilho dores, amores, alegrias, vivências. Sigo exemplos e sou seguida. Quero falar da minha sobrima, tão pequena, que está tão longe, mas já mostra sua força e que não veio ao mundo para brincar. E que reconhece minha voz num áudio de celular. Quero falar da minha irmã, que já tinha 21 anos – minha atual idade – quando passei a existir e que fica em dúvida se teve alguma influência na minha carreira. Sou cineasta, ela é atriz. O que vocês acham? Ela que sempre vi nos palcos, por quem fico nervosa antes do sinal tocar três vezes. Minha irmã que corre atrás dos sonhos e é uma guerreira incansável. Quero falar da minha sobrinha, que me fez tia aos 5 anos e se parece comigo em tanta coisa. Ela que pensa em ser – adivinhem? – cineasta. Que me impressiona toda vez que a encontro e vejo que ela já é maior que eu. E que me encheu de orgulho ontem, quando a vi na Marcha do Dia Internacional da Mulher. Mas encheu de orgulho demais. Quero falar da minha avó Antonieta, que não conheci, mas tenho certeza que somos parecidas e que a sinto forte, seja dentro de mim, seja pela casa do meu pai. Quero falar da minha Tia Rita, mulher forte, guerreira, bagunceira, cheia de energia, livre, que partiu cedo, mas cedo demais. E às vezes sinto até agonia em certas fotos que me pareço aflitivamente com ela. Quero falar também de uma tataravó, escrava liberta pela Lei dos Sexagenários, e de uma bisavó, que veio da Itália para o Brasil nos anos... olha, nem sei. Também quero falar da minha terapeuta, que ouve minhas angústias e medos, muitos deles causados por apenas ser mulher. E que já falou para os meus que sou uma pessoa maravilhosa (ouvir isso da terapeuta, gente?). Quero falar das outras mulheres de minha família. Quero falar das minhas amigas, que me ajudam a ser melhor e que vi mudar também para melhor. Das que vi crescer como irmãs e que vão me acompanhar pelo resto da vida. Das que não tenho muito contato, mas tenho carinho. Das mais recentes que já amo. Quero falar das pessoas incríveis que participaram do meu projeto Corpo Cru e da equipe feminina maravilhosa do meu curta-metragem. Equipe que prova a mentira de que trabalhar com mulher é difícil. Muitas pessoas que conheci através do projeto e só enriquecem minha vida. Eu quero falar das mulheres com quem dividi as ruas do Centro da Cidade ontem, enquanto marchávamos por nossas vidas, nossos direitos e nossas liberdades. Das tantas mães que foram carregando as crianças que já crescerão respeitando e lutando. Quero falar de mulher. E vou falar de mulher, não vou me cansar, preciso falar delas, preciso falar de nós. Preciso falar o quanto somos fortes e guerreiras e o quanto aguentamos diariamente. Obrigada às mulheres da minha vida, às que já fizeram parte dela e às que ainda vão fazer. Cada uma de um jeito, vocês me ajudam a crescer.

II - Dos desejos

Que sejamos vivência e não sobrevivência.


Que nossas vidas sejam respeitadas e valorizadas. Que não existam padrões para nos pressionar, oprimir e nos fazer sentir erradas. Que nossos corpos sejam de fato nossos e que não precisemos estipular regras para que sejam respeitados. Que parem de nos obedecer e passem a nos respeitar. Que não nos violem ou violentem. Que nossos abortos não nos prendam nem nos matem. Que nossos beijos e nosso sexo não sejam regulados. Que a gente goze de nossos direitos básicos. Que nossa felicidade seja permitida quando estamos com uma pessoa pelo resto da vida ou com várias em uma só noite. Que possamos escolher o que fazer das nossas vidas. Que nossa nudez não seja castigada, objetificada, hipersexualizada. Que amemos nossos corpos, nossa assimetria, nossas barrigas grandes, pernas grossas, bumbuns estriados, peitos desiguais. Que sejamos aceitas por nós mesmas e pelos outros. Que punam os homens que nos invadem e assediam. Que parem de premiar os que nos abusam. Que parem de contratar os que nos matam, esquartejam e terminam por nos transformar em comida de cachorro. Que parem, parem, PA-REM de nos desrespeitar, rebaixar, ameaçar, assediar, abusar, estuprar, estrangular, esquartejar, que parem de nos matar. Que nos queiram vivas e nunca uma a menos, sempre uma a mais. Que sejamos vivência e não sobrevivência. Que existamos. Que não ganhemos flores, mas que elas brotem dentro de nós e se espalhem para fora. Que existamos. Que sejamos ouvidas. Que berrar por respeito, liberdade e equidade não seja mais necessário. Que existamos. Como é possível ter de implorar para existir?

III - Dos parabéns

Mas não parabéns porque esse dia te foi dado de presente. Não porque você mereça ser paparicada e colocada num pedestal por um dia, aquele em que o mundo lembra de sua existência.
Parabéns pela sua existência. Sua insistência. Sua persistência. Pela sua luta. Por você ter que acordar todo dia sabendo que ele não será fácil, mas mesmo assim enfrentar. Por você muitas vezes ter que cuidar da sua família, sua casa e do que acontece fora dela. Por carregar um ser na barriga e pari-lo. Por ser criticada quando decide que não quer isso na sua vida. Parabéns por conseguir engolir cada assédio moral e sexual que sofre. Parabéns também por vomitá-los na cara de quem merece. Parabéns por seu controle e pela falta dele também. Parabéns por ser livre ou tentar buscar sua liberdade. Parabéns também por não ser. Parabéns por amar o corpo que te olha no espelho e parabéns por não gostar dele, mas luta para aceitá-lo. Parabéns por enfrentar o medo da violência que te cerca, dos abusos que te perseguem, de ser diminuída pelo simples fato de ter vindo ao mundo uma mulher. Parabéns por ter fôlego numa sociedade que te sufoca. Parabéns por conseguir dormir, levantar da cama, estudar, trabalhar, cuidar da sua vida e muitas vezes da de outras pessoas também. Parabéns por sua força e sua incansável necessidade de prová-la.
Esses parabéns não são aplausos. Não são um "felicidades". Eles são um "obrigada". Eles são um "força".
Que nesse dia dedicado à nossa luta, a gente lembre que estamos, sim, de parabéns pelo simples e insuportavelmente difícil fato de (sobre)viver sendo mulher em um planeta que precisa ser lembrado de nossa força e nossa existência. Parabéns para nós.




Marina N. Martins

sábado, 14 de janeiro de 2017

Formei!


A hora sempre chega. De tudo. Agora, por exemplo, chegou a hora de chorar o que eu ainda não tinha chorado e chegou a hora de escrever este texto que está há meses na minha cabeça, mas não saía. Provavelmente porque estava esperando o momento exato do dia seguinte da cerimônia de formatura. Olha, não vou mentir não, é emoção para cacete. Vem tudo junto e misturado na cabeça, eu não sei por onde começar. E já vou avisando que um dos meus problemas enquanto bacharel em comunicação é não conseguir escrever textos sucintos com facilidade. Porque estou desde pequena em um relacionamento sério com a palavra e ela me acompanha quando preciso colocar tudo para fora. A escrita tem sido minha melhor amiga por anos. E hoje, em que tudo é tão corrido, fico apreensiva que não leiam o que eu escrevo por ser “longo demais”. Talvez se eu fizesse um vídeo, fazendo jus à minha habilitação de cinema, seria mais fácil que me acompanhassem. Um dia eu chego lá. Mas a palavra escrita vem antes sempre. O número limite de páginas quase sempre foi um problema para mim nos trabalhos e redações. E vamos combinar, escrever quatro anos em poucas linhas é sacanagem, ne? Bem, espero que leiam. Queria marcar todo mundo que eu queria muito que lesse isso, mas tenho medo de esquecer alguém. Porque encho o peito para falar que é muita gente.

Vou fazer cinema. Só quem já disse isso às pessoas sabe as reações que podem vir depois. Tem gente que sente pena porque você vai ser pobre, por você ser uma inocente e iludida sonhadora. Tem gente que fica nervosa, com medo do seu futuro. Tem gente que te coloca no pedestal da arte (aquela coisa da gente achar que artista é uma parada muito elevada, sabe?). Mas... tem gente que te apoia. Obrigada, vida, por ter me feito filha de Isabella e Chico. Na minha casa, eu nunca ouvi um “não” ao falar sobre as faculdades que eu poderia fazer. Moda, artes cênicas, história, psicologia... cinema. Aqui, meus pais nunca me fizeram sentir medo de viver de arte. Minha irmã, atriz, sempre batalhadora, sempre correndo atrás dos seus projetos, passando por poucas e boas, nunca me fez sentir medo de viver de arte. Minhas tias artistas também não. Minha avó, que infelizmente partiu cedo demais, antes de me ver decida por escolher o cinema, também não. Nem o meu avô, por mais contraditório que essa peste maravilhosa seja. Minha família apoia sonhos. Meus pais não só apoiam, eles me seguram para que eu nunca desista deles. À minha mãe e ao meu pai, agradecer é pouco. Agradecer por tudo o que eles já fizeram por mim, como fazer isso? Como retribuir? Nunca vou conseguir. Se sou o que sou, eles são dois dos maiores responsáveis por isso e eu agradeço diariamente por aprender com seus acertos e erros. E também por ensiná-los com os meus.

A verdade é que artista é gente normal. Ta vai, não tão normal. Mas quem é de fato normal? O que é normal? Se eu escolhi viver da arte, não é porque sou a pessoa mais culta do mundo, que sei te dizer os filmes que você precisa ver antes de morrer, que sei o ano de todos os clássicos, que conheço o cinema mundial inteiro. Se escolhi viver da arte, é porque eu não caibo em mim e preciso me transbordar de alguma forma. Se escolhi viver da arte é porque, na minha vida, ela já me fez sentir de tudo. É porque ela me completa. É porque eu tenho vontade de mudar o mundo e as pessoas, assim como ela me mudou e muda. É porque quero fazer rir, chorar, pensar. É porque quero ser vista. É claro. Se não quisesse, nem compartilhava esse texto, por exemplo. É porque eu acredito no poder de mudança da arte. E estar na faculdade me fez acreditar cada vez mais nisso. As coisas que li, as pessoas que conheci. Minhas professoras, meus professores, minhas amigas, meus amigos, gente que eu nunca falei ao vivo, ou que não tenho tanto contato, mas sei que faz a diferença.

Nesses quatro anos de faculdade, eu tive professoras e professores que marcaram a minha vida. Que me passaram aprendizados muito além da sala de aula. E uns que ainda passam e continuarão. E tiveram alguns muito queridos. Ou também aqueles que não são queridos, mas que te fazem aprender e amadurecer, exatamente por não serem queridos. Tem uns que surpreendem, para o bem ou para o mal. E tem quem te ajuda em cada dica que você pede, cada crise que você passa, que te fazem acreditar em você. E eu preciso destacar os nomes de Flavio e Sergio nesse caso. Não foram só eles que mudaram a minha vida. Mas esses dois são tipo dois pais que arranjei na faculdade e eu não tenho palavras para agradecer tudo o que eles fizeram por mim, tudo o que me passaram. Eu estou órfã deles. E de tantos outros também, que foram me deixando órfã ao longo dos períodos.

Nesses quatro anos de faculdade, eu passei por muitas crises e desesperos. Por que eu faço cinema? Por que isso é útil? O que vai ser de mim? Será que eu vou ser desempregada sempre? Preciso de um estágio. E em maio de 2015 eu consegui. Fui parar na TvZero. E aí tem a minha historinha com a TvZero. Conheci o Robertinho, o Roberto Berliner, quando tinha menos de 10 anos, eu acho. Éramos sócios do mesmo clube. Corta para. No meu primeiro período (2013.1), entrevistei-o para um trabalho da PUC. Fui na TvZero e saí de lá dizendo para minha mãe: vou estagiar nesse lugar. Voltei lá um ano depois para entrevistar o outro sócio, Rodrigo, para um novo trabalho. Deixei meu currículo. Mandei por e-mail. Nada. No final de 2014, uma senhora com quem fazia francês me disse que a sobrinha dela trabalhava numa produtora. Qual? TvZero. Ela nos colocou em contato, mandei currículo de novo, nada. Só em março de 2015, fui parar lá de novo. A Anna Júlia, sobrinha da Tereza com quem fazia francês, e o Leo me entrevistaram. Mas viram que minha cabeça não era muito para a área deles, então chamaram o Vitor. Foi aí que conheci quem seria meu futuro chefe. Vitor me levou até o Roberto. “Caramba, Marina. Como você cresceu”. Pouco mais de um mês depois, eu era a nova estagiária da TvZero. Hoje, mais de um ano e meio depois, sou a nova contratada. AAAAAAAH! Essa produtora trouxe muita gente maravilhosa na minha vida e eu tenho muito a agradecer pelo que já passei lá e pelo que vou começar a passar a partir de segunda (Robertinho, Vitor, meu estômago ta meio embrulhado escrevendo isso, pode ser que eu morra de ansiedade, se eu não aparecer lá na segunda, é por isso).

Nesses quatro anos de faculdade, eu fiz amigas e amigos incríveis. Eu conheci gente que está lutando por uma sociedade mais igualitária e justa. Eu colei com mulheres que me fizeram ver que não estou sozinha e que me dão a esperança de um mundo menos misógino. No primeiro período, no primeiro trabalho, eu já achei minha melhor amiga de faculdade, minha parceira, minha sei lá o que. Eu amo demais essa menina e ela sabe disso. Não vou nem escrever o nome porque eu quero ter certeza de que ela leu isso daqui e ela vai se reconhecer nesse momento. E, olhando para meu primeiro período e depois para o último, eu vejo o quanto as coisas mudaram e o quanto eu mudei. A quantidade de gente que veio para ficar desde cedo e as que foram chegando aos poucos. Teve gente que chegou só no último período, até. Muito louco. A gente passa quase quatro anos no mesmo lugar e tem gente que só aparece no final, mas que chega com uma intensidade de como se nos conhecêssemos desde o início. Gente que vem para mudar. Para ajeitar sua vida ou bagunçar de um jeito estranhamente bom. Mas sei lá, sabe. Eu sou adepta de que tudo tem seu momento e a vida cada vez mais me mostra isso. A essa galera toda que eu estou colecionando no meu álbum de figurinhas queridas da vida, só um pedido: não me abandonem. Já vai ser difícil demais para mim abandonar o pilotis, o cabeção do Kennedy, o vento frio que bate lá, as conversas de cinco minutos ou de horas, as aulas para as quais chegamos atrasados porque a conversa estava boa demais, as provas para as quais estudamos porque o desespero batia forte. Por favor, mas por favor mesmo, fiquem na minha vida. Vamos nos ver. Por mais que o tempo seja corrido, por mais louca que a vida seja, por mais enrolados que nós sejamos. Vocês sabem que minha casa está sempre aberta.

O texto já está gigante e finalizar textos é sempre uma questão para mim. Acho que isso diz bastante sobre mim, na verdade. Mas enfim. Obrigada a todo mundo que fez parte desses quatro anos da minha vida, obrigada por terem seguido ao meu lado, me fazendo acreditar em mim, me fazendo sentir orgulho de mim mesma, mesmo quando eu me sentia inferior por algum motivo ou inútil para o mundo. Além de quem eu já citei aqui, tem muito mais gente importante nessa fase. As minhas-amigas irmãs, meus amigos-irmãos, minhas professoras e meus professores da escola, as minhas primas e meu primo, a minha sobrinha, os meus tios. Nossa, é muita gente. Mas preciso destacar também a família do meu namorado e, é claro, ele mesmo. Ele, que me deu sogra, sogro, cunhada, cunhado, tias e duas avós que fala sério! Se eu tivesse pedido, não seriam tão maravilhosas. Ele que esteve me acompanhando por esse tempo todo, e até antes disso tudo, que viveu comigo meus altos e baixos e sempre esteve do meu lado. Ele que hoje está longe, vivendo uma fase maravilhosa da vida dele, mas que estamos juntos do nosso jeito e lidando bem com isso. Obrigada, meu amor. Nosso amor sempre me fortaleceu. Obrigada mesmo a todas e todos.

Marina N. Martins

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Troco um de silêncio por um de barulho

I.

- Oi, tudo bem?
- Tudo, e você?
- Tudo bem.

Mentira. Tudo péssimo. Acordei com mais uma porrada. Mas que dia é hoje? Qual o dia em que escrevo isso, em que você lê isso? Não sei. Não importa. Todo dia é uma porrada. Falamos que está tudo bem, talvez por não ter como tirar um tempo para dizer que: não. Nada vai bem. Está tudo na merda. Vivemos em um mundo destrutivo, que não se auto-destrói, mas tenta sobreviver à destruição causada pela humanidade, assim como nós. A própria humanidade. O que estamos fazendo com o mundo? O que houve com a humanidade para nos fazer viver em um pesadelo, aquele que sempre temi nas aulas de história? Eu aprendia sobre tempos sombrios e agradecia por estar em um mundo, de certa forma, melhor. Amarga ilusão. Hoje, o dia em que escrevo, o Rio amanheceu quente, azul e solar, mas só enxergo sombras e sinto um calor sufocante. Tão sufocante quanto o nó na minha garganta, que permaneceu mesmo depois das lágrimas que soltei logo ao acordar. Tão sufocante quanto os gritos também presos na garganta, que se espalham por todo o corpo. Eles saem, até saem. Mas para que? De que adianta? Mesmo que saiam, continuam me sufocando, porque são à toa. Gritamos até perder a voz, voz que é constantemente tão silenciada. Luto. Um minuto de silêncio. Luta. Um minuto de barulho.

II.

Estou sentada no chão, como de costume. Ao lado de amigas e amigos, como de costume. Como de costume, pegamos vento. As pessoas passam com seus grupos de amigas e amigos. Conversam andando, conversam paradas. Tudo normal. Tudo parece confortavelmente ou insuportavelmente natural. Eu comento com uma amiga: “olha, parece até que está tudo normal. Mas não está”. E isso vira nosso assunto. O mundo não vai bem e só piora. Nossos amigos acabaram de discutir em voz bem alta sobre tudo isso enquanto nós estávamos encolhidas, confusas e tristes demais para pensar. O mundo só piora e parece que tudo continua normal. Tem alguém se afetando? Três amigos abraçam uma pilastra. Olha aí, nem tudo é tão normal. Em meio a tantas pessoas vivendo sua rotina, eles abraçam a pilastra. Hoje é um daqueles dias para se abraçar pilastras mesmo.

III.


A nossa sociedade visualiza e não responde, até mesmo quando somos ou tentamos ser legais. E quiséramos nós que eu estivesse me referindo apenas a mensagens virtuais.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

348



à luz



memórias nadam na minha cabeça

confusa, fico tonta

de mim, sai uma lágrima espessa

que me acalma e amedronta



dentro de meu quarto

a música penetra os ouvidos

deito-me, faço um parto

dos sentimentos que são sofridos



pensamentos fecundados

roubam-me a sanidade

sofrimentos abortados

escorrem minha liberdade



sou o parto e o aborto

daquilo que me faz ser minha

durmo, então, feito um morto

já que toda gente é sozinha

Marina N. Martins

347



perten-ser

empresto-me
pois sou só minha
dou-me a quem quiser
mas devolvo-me
não entrego-me

quem pensa que me tem
que aproveite enquanto tem
pois é finito

pertenço-me por inteira
cada parte de mim é minha
cada acerto, cada erro
cada confusão
cada espinha, cada pelo
cada imperfeição

gente não pertence à gente
a propriedade
é pura ilusão

Marina N. Martins

346



(sem título)



estica tua mão

coloque-a sobre meu peito

perfure-o, alcance meu coração

estraçalhe-o do seu jeito



esmigalhe, amasse como preferir

deixa que escorra entre os dedos

toda gosma vermelho sangue

e eu boba, fico a rir:

fica mais, ainda é cedo

Marina N. Martins

sábado, 28 de maio de 2016

Dos gritos presos

Ilustração: Layse Almada


São tantas as coisas na minha mente, que parece que as palavras me fogem. Elas me vêm em forma de prosa, de poesia, de foto, de grito, de arte. Às vezes saem, às vezes se prendem. Prendendo-se a mim, me prendem. Mas tentarei soltá-las nesse texto, elas precisam sair de mim em forma de frases feitas, não apenas de lágrimas. As lágrimas doem. As palavras e os pensamentos também. Sobreviver, viver, às vezes dói. E ultimamente anda doendo.

1.      Do Corpo Cru

Final de semana passado, uma semana atrás, eu filmava meu primeiro curta. Foi tão lindo. 14 mulheres na equipe e um homem, o iluminador. Além da equipe, 11 mulheres e um homem trans participando à frente das câmeras. Nosso documentário é fruto de um projeto fotográfico meu. Os dois têm como objetivo desobjetificar e naturalizar o corpo da mulher. As palavras que escolhi para descrever o “Corpo Cru” são: “O corpo em alma. A alma nua. Nossa nudez não será castigada”, o que já deixa a entender a que veio o projeto. A filmagem foi linda. Foi libertadora, inspiradora. A cada dia, o projeto, seja por meio das fotos ou dos filmes, me faz crescer, aprender, me empoderar como mulher. Me faz amar, lutar e, acima de tudo, não desistir da luta. As mulheres confiam em mim, se despem para o projeto, de corpo e alma. De corpo em alma. A minha equipe de mulheres confiou no projeto do curta e quis fazer com que ele ficasse lindo, como ficará.

Em nossas vidas, nós, mulheres, crescemos ouvindo coisas horríveis a respeito de nós mesmas. Crescemos em uma louca competição entre nós, aprendemos a julgar umas às outras. Escutamos que trabalhar com mulher é ruim, pois mulher é louca, histérica, desequilibrada, fala muito, não é objetiva. Tudo mentira. Eu sempre tive muitas mulheres em minha vida, seja na família, sejam amigas. Quando mais nova, sentia a necessidade de ter mais amigos homens e ficava preocupada por não ter muitos deles. Hoje, eu sei bem o porquê disso. Porque convivi, na minha escola, com jovens machistas, racistas e elitistas que desrespeitavam quem não era semelhante a eles (homem branco hetero cis rico). Eu espero que eles tenham mudado. Mas era desesperador conviver com eles. Hoje, tenho poucos homens em minha vida, todos que me respeitam e me amam. E respeitam e amam as minhas companheiras. Poucos, mas não é a quantidade que me importa. Hoje, eu agradeço por ter tantas mulheres em minha vida. E cada vez mais. Senão, seria simplesmente insuportável de sobreviver em meio a tantas atrocidades que temos de ouvir e pelas quais temos de passar diariamente. É muita dor. Sem essas muitas mulheres, eu não seria nada. Passar um final de semana trabalhando com uma equipe quase que inteira feminina (e feminista!) foi muito bom. Fiquei muito feliz. Tudo deu muito certo. Todas se respeitavam, se ajudavam, trabalhavam. A mão de uma estava sempre estendida à outra. Então, queria terminar isso agradecendo a cada uma dessas mulheres da equipe Corpo Cru. E a cada uma e cada um que participou do documentário e teve total confiança em nós. Cada uma e cada um que ajudou e contribuiu com o projeto de alguma forma. E cada mulher que já participou ou quer participar do projeto. Vocês me dão forças. Vocês me dão asas. É graças a vocês que, um dia, sei que poderei voar.


2.      Do estupro

Um choro se materializa e se amarra em minha garganta. Fica preso em nó. Um nó que não sai e rasga minha alma inteira. Arde meu peito. Me dói. O nó goteja. As gotas se espalham por meu corpo, que se amolece, se adormece, sem me deixar dormir. Respiro fundo, bebo água. É como se uma faca me penetrasse a cada horror que vejo ou leio na internet ou, pior, que ouço no dia-a-dia. As falas me cortam aos poucos. Os cortes corroem meu corpo. Às vezes, é difícil levantar. É como se não houvesse forças. Não, não é como. Não há. Mas às vezes me surgem mãos, que pegam nas minhas e me ajudam a levantar. “Vamos lutar”, dizem umas. “Eu te seguro”, dizem outras. Delas, saem braços que me envolvem. Saem corpos, saem rostos com bocas que tem outras palavras para te dizer. Palavras que costuram os cortes recebidos, fazem com que se transformem em cicatrizes e estão lá para ajudar a curá-las. Sou cheia de cicatrizes. Minhas irmãs também são. A cada dia, uma nova facada em nossos corpos, vulneráveis, violados, violentados. A cada dia, uma nova sutura, uma nova gaze que tenta nos encher de curativos. Enquanto uns te fazem vomitar, outros estão lá para segurar o seu cabelo. Enquanto aqueles te baixam a pressão, esses te passam água no rosto. Enquanto aqueles passam suas mãos sem que você permita, esses a estendem para que você não desista.

Rio de Janeiro, maio de 2016. Uma menina é estuprada por mais de 30 homens. Brasil, 2016. Uma mulher é estuprada a cada onze minutos. Uma em cada quatro mulheres será estuprada até o fim de sua vida. Essa mulher pode ser eu, pode ser você, pode ser ela. Uma delas é cada uma de nós. Tentamos imaginar como deve estar a menina, vítima de um estupro coletivo. Queremos abraçá-la e dizer, bem baixinho, “não é culpa sua; estamos aqui”. Tentamos imaginar, mas nos dói, nos dói tanto. Não conseguimos. Não queremos. Apenas torcemos e lutamos para que ela consiga seguir a vida dela. Nós vamos às ruas, nós gritamos. Nos fazemos ser vistas. Vocês precisam nos ver. Abrir os olhos e nos ver. Olhar nos nossos. Pedir perdão por cada gesto diário de vocês que contribui a um estupro. Vocês acham que o estupro é um caso extremo de misoginia, mas vocês não percebem como contribuem com ele. Vocês não têm empatia. Vocês fogem de uma generalização, pois não querem admitir que, um dia, já contribuíram para casos extremos de misoginia. Cada piadinha que soltaram, uma mulher estuprada. Cada foto ou vídeo que compartilharam, uma mulher assassinada. Vocês acham que não provocaram isso, mas quero que saibam: enquanto vocês riem do “machismo bem humorado” de vocês, uma mulher está sendo violentada. Tem seu corpo, sua vagina, seu ânus, sua boca penetrada por algo pelo qual ela não pediu, ela não escolheu. Mas fiquem tranquilos, isso não acontece apenas quando vocês são machistas. Não. Enquanto vocês estão dormindo, comendo, tomando banho, acordando, falando, há uma mulher sendo espancada, outra sendo abusada, outra assediada, outra estuprada e outra assassinada. (Alguns de) vocês se compadecem em casos extremos. Vocês pensam: “poderia ser minha filha”, “poderia ser minha mãe”. Vocês já pensaram que poderia ser um ser humano? Aliás, que é um ser humano? Já pararam para pensar que estamos tratando de um ser humano? Ser humano esse que você, nessa sociedade machista e patriarcal, já destratou. Com seu buylling. Suas piadinhas. Suas brincadeiras entre amigos. As fotos e vídeos que vocês trocam em grupos de whatsapp. Suas chantagens emocionais em troca de beijos e sexo. Suas “inconveniências”. Seus toques não bem-vindos.

Se vocês se assustam com uma menina sendo violentada por mais de 30 homens, tenham a consciência da responsabilidade de vocês nessa sociedade que naturaliza o estupro. Uma sociedade com propagandas que objetificam o corpo da mulher. Com músicas que objetificam o corpo da mulher. Com mídias e objetos culturais que naturalizam atrocidades como estupro e pedofilia. Que amenizam isso usando eufemismos para descrever tais situações. Uma sociedade que apoia o opressor e desdenha do oprimido. Vocês nunca escutaram: “nunca estuprem uma mulher”. Nós sempre escutamos “não aceite bebida de estranhos”, “não converse com estranhos”, “não use roupas tão curtas”, “não ande sozinha a essa hora”, “não vá sozinha por ali”. Todas as frases poderiam ser substituídas por “cuidado para não ser estuprada”. Porque vivemos em uma sociedade que ensina à mulher a evitar um estupro, mas não ensina aos homens a não estuprar. “Ah, mas isso é óbvio”. Ah, é? Vamos repetir. Uma em cada quatro mulheres será estuprada até o fim de sua vida. Uma mulher é estuprada a cada onze minutos no Brasil. Cada vez que vocês expõem uma mulher, que ironizam sua luta ou sua dor, que fazem piadas machistas e que não chamam a atenção dos amigos misóginos de vocês, vocês contribuem para essa realidade. A cada sorriso que vocês pedem para uma mulher depois de ofendê-la, é como se a obrigassem a gemer quando ela não está sentindo prazer, mas vocês sim. Vocês contribuem, pois ajudam a naturalizar a inferiorização e objetificação da mulher. Acho que não preciso dizer porque esses termos se relacionam com o estupro. Parem de nos machucar, por favor. Parem. Parem. Parem. É muito doloroso ver vocês desdenhando da nossa luta ou dando menos importância a ela. Nossa luta é o que nos faz acordar e colocar os pés em uma rua que não nos respeita. Em nossas faculdades e locais de trabalho que nos oprimem. Muitas vezes, até mesmo em nossas próprias casas. É de mãos dadas que nós nos reerguemos a cada queda. É de mãos dadas que sobreviveremos a cada dia.

3.      Do mundo que está ficando chato

- O mundo está ficando chato – disse o opressor.
- Está ficando? Ele sempre foi. Nós só estamos tentando transformá-lo em menos insuportável para que possamos, ao menos, sobreviver – respondeu o(a) orpimido(a).

Marina N. Martins