Peitos.
Assim que começaram a aparecer, fui ensinada a escondê-los. Afinal, nossa
sociedade não está preparada para recebê-los, insistindo em recusá-los. Quando mais
nova, eu me obrigava não só a tapar meus peitos, como a esconder os sutiãs que
usava. Nada poderia ser mostrado, nem mesmo as alcinhas. Mas fui crescendo e
querendo que meus peitos fossem mais notáveis. Não os mamilos, claro. Esses jamais
podem aparecer. Eu queria meus peitos grandes, redondos, pontudos e iguais. Ah,
e juntos, para poder ficar bonito com um decote. Como eles não obedeciam às
minhas vontades, decidi falsificá-los e passei a usar sutiãs de enchimento. Eles
deixavam meus peitos lindos, redondos... e falsos. Mas, pelo menos, escondia a
diferença de tamanho que havia entre eles e forjava um tamanho considerado
aceitável por mim mesma. Os meus peitos e mamilos me incomodavam muito. Eles foram
um peso muito grande na minha adolescência. Eu estava decidida que colocaria
silicone no futuro, a dúvida estava apenas em quando: ao completar 18 anos ou
depois de amamentar meus futuros nenéns? Eu pensava no silicone como uma
solução para a anormalidade que eram meus peitos, na minha cabeça. Um dos meus
maiores medos de pré-adolescência era saber que um dia eu tiraria meu sutiã na
frente de um cara.
O
tempo passou. Arrumei um namorado. Fui amadurecendo. O enchimento dos sutiãs
foi diminuindo e virando bojo. Percebi que a ideia do silicone era uma loucura
para alguém que tem pavor de agulhas e cirurgias, como eu. E percebi que o
dinheiro que gastaria com isso era abusivo, sendo que ele seria gasto para que
eu me enquadrasse em um padrão imposto por uma sociedade patriarcal, machista,
consumista, capitalista e objetificante. Uma sociedade que quer igualar corpos
e mentes. Que rejeita a diferença. Uma sociedade que faz uma adolescente se
sentir um lixo por ter peitos pequenos, mamilos grandes e um peito maior do que
o outro. Que a faz se sentir feia, errada e desproporcional ao se olhar no
espelho. Uma sociedade que cria humanos que acham uma vulgaridade uma mulher
andar sem sutiã. Uma sociedade que prende e repreende uma mulher sem camisa,
quando deveria ser um direito dela, assim como é do homem. Não estou atacando
sutiãs e dizendo que eles são ruins, mas apenas defendendo a liberdade de uma
pessoa ao escolher se quer ou não colocar um sutiã, sem ser julgada e regulada.
Pois
bem. De uns tempos para cá, ando tentando ter uma relação melhor com meus
peitos. As mulheres de minha família (avó, tias, primas, irmã e mãe) me
ajudaram muito e sempre, tratando peitos como algo natural e belo. Assim como
meu pai. Minhas amigas me ajudaram. Meu namorado. A luta feminista. Até a
JoutJout, garota de 24 anos que faz vídeos no YouTube me ajudou. O Corpo Cru,
meu projeto fotográfico, me ajudou – e muito. Foi graças aos meus peitos que a
ideia dele me veio. E foi graças a ele que criei coragem de falar deles. É também
por ele que pude ouvir o que uma mulher sofre e ama por ser quem é, do jeito
que é. É por ele que posso dizer a cada mulher o quanto ela é bela por ser ela.
Por
conta de uma blusa mal cortada que fazia parte do figurino de uma peça, tive
que desistir do bojo e usar um sutiã normal, para que meus peitos não
aparecessem. Esse sutiã faz parte de uma coleção de sutiãs sem bojo herdados da
minha irmã quando eu era mais nova, e que decidi guardar por ter a esperança de
conseguir usá-los um dia. Desde a peça, comecei a tentar levar o figurino para
a vida real. Ontem, fui vestir uma regata. Quando peguei um sutiã de bojo,
olhei para ele, joguei na cama e peguei um sem. Consegui sair de casa assim. Hoje,
a mesma coisa. Outro dia, usei um vestido sem sutiã. Ele nunca precisou de
sutiã, na verdade. Mas na minha cabeça todos iam reparar se eu não estivesse de
sutiã. Quando saí na rua, vi o quão libertador era não estar com um tomara-que-caia
de bojo me apertando e escorregando.
O
desapego dos bojos não deveria ser tão difícil. E essa dificuldade é cruel. Meninas,
às vezes literalmente, se torturam e se matam em busca de uma perfeição que não
existe. Uma perfeição construída e ditada por um sistema. É muito triste ver
uma menina sofrendo por seus peitos, porque o que ela tem é diferente do que
ela vê na mídia. É cruel sentir vergonha dos seus peitos, sentir-se inferior
apenas por não preencher decotes. É muito chato ter o corpo regulado o tempo
todo. O sutiã, por exemplo, deveria ser uma escolha, não uma imposição. Não deveria
ser uma decisão tão intensa o ato de não usá-lo. Moças, vamos aceitar nossos
peitos. E moços também. Deveríamos ter a liberdade de tê-los livres quando
quiséssemos, assim como os homens têm. Uma historinha: fiquei com meu namorado,
pela primeira vez, aos 16 anos. Estávamos na praia, ou seja, eu estava de biquíni.
Eu fiquei feliz, pensando no quanto ele me aceitava, pois “me viu de biquíni,
viu que eu tenho peito pequeno e, ainda assim, quis ficar comigo”. Sim, eu
pensei nisso. Moças, vamos combinar, se algum dia um cara ou uma mulher recusar
vocês por seus peitos, agradeça por isso ter acontecido e joga a pessoa fora. Isso
aconteceu pra você nunca mais olhar na cara dela. Vocês não se merecem. Você
merece muito mais e a pessoa não merece você com seus lindos e únicos peitos.
Eu
nunca imaginei que fosse conseguir publicar um texto falando sobre peitos. Era um
assunto realmente delicado para mim, mas graças a muitas coisas e pessoas, isso
está mudando. Por último, quero dizer que é realmente muito difícil esperar
algo bom de uma sociedade que não consegue aceitar nem um peito. Não suporta
conviver com mamilos (femininos!), a não ser que o contexto deles seja sexual. Mulheres,
ainda temos muito a mostrar para esse mundo com nossos peitos enormes, mínimos,
redondos, desproporcionais, nossos mamilos que acendem faróis e marcam nas
roupas. É muito difícil se desprender do padrão, eu digo por mim, mas olhem...
é libertador. Quanto mais você se desprende, mais você se liberta, mais você
percebe o quão cruel é o que ele faz com você e o quão melhor é você se
aceitar. A luta é difícil, mas vamos em frente. E de peito aberto.
Ok,
vamos lá. Eu já escrevi textos dessa temática algumas vezes. E enquanto tiver
motivo, continuarei escrevendo. Sabem por quê? Porque a pior coisa a se fazer é
ficar calada frente a situações absurdas que PRECISAM ser mudadas. Então temos
que falar, falar e falar, porque o que incomoda não deve ser o ato de falar
sobre, mas sim o “sobre”. Sabem por que a redação do ENEM teve como tema a
violência contra a mulher? Porque ela existe. Tão óbvio, não é? E tão triste
ser óbvio. Sabe por que também? Porque uns pedófilos machistas fazem questão de
comentar sobre a beleza de uma criança de 12 anos de idade, comentários
abertamente sexuais, inclusive insinuando estupro. Porque existem Eduardos
Cunhas. Porque há pessoas (homens e, pasmem, mulheres) que chamam feminismo de
mimimi. Que acham que mulher tem que levar corretivo mesmo pra aprender. Que
acham que mulher é inferior. Que acham que qualquer tipo de abordagem na rua,
coisa que muitas nós chamamos pelo seu verdadeiro nome, ASSÉDIO, é elogio.
Cara,
eu vou ser sincera. Eu vou ser desbocada. Eu vou ser tudo o que eu bem entender
nesse texto porque eu to de saco cheio dessa merda toda. Aliás, de saco não, to
de peito cheio mesmo. E ainda vou misturar vários assuntos que têm a ver com um
só. Vamos por partes.
Primeiramente,
gostaria de avisar que vou botar a vagina na mesa nesse texto. Essa história de
botar o pau na mesa não cabe a mim, já que não tenho um. E parou de achar que,
quando uma pessoa é forte e tem atitude, ela tem colhão. Para quem não sabe, colhão
é testículo. Eu conheço muita gente sem colhão que “tem muito mais colhão” do
que gente com colhão. E parou também de achar que, quando alguém se mostra
poderosA em alguma situação, é porque “tem pau”. E parou de achar que pau é
sinônimo de força e poder. Inclusive, comparando aqui rapidinho: da minha
vagina, querido, sairá um futuro você, ou seja, um ser humano. Minha tão frágil
vagina tem o poder de parir uma cabeça e um corpinho inteiros de um bebê. E no
dia seguinte, eu já to andando segurando a criança no colo enquanto ela se
alimenta do que sai do meu peito. Enquanto isso, o tal do colhão quase mata um
homem de dor quando recebe um chute. Ou seja. Ne? Se é para comparar força,
vamos combinar que... Bom, mas a verdade é que órgão sexual não mede a força
nem o poder de ninguém. Então vamos parar com essa palhaçada de “botar o pau na
mesa” e vamos colocar nossa vaginas na mesa também. Queria dizer, inclusive,
que admiro muito as vaginas colocadas na mesa em uma sociedade onde tantos paus
já estão sobre ela.
Segundamente,
peitos. Parou com isso de ter medo de peito. Peito de mulher é igual a peito de
homem, só que é mais cheinho – ou não, aliás. Queridos seres humanos da face da
terra inteira, queridos maravilhosos mamíferos, o primeiro alimento da vida de
vocês vem de peitos femininos. Sem peitos, não há vida. Somos todos MAMíferos,
passamos um tempo recebendo vida de mamas, então vamos parar de proibir a mama
da mulher, vamos? Vamos parar de deletar fotos de moças com peitos de fora das redes
sociais? Vamos aceitar que a mulher pode pegar um solzinho nos seios pra dar
uma bronzeada, se ela quiser? Vamos todo mundo que quiser andar sem camisa pela
praia? Essa pressão absurda que as mulheres sofrem para ter o “peito perfeito”,
que as faz se submeter a agulhas e implantes e sofrer quando elas se olham no
espelho e não veem dois amigos redondos e grandes, vem por causa desse medinho
de vocês de peito. Se nós convivêssemos com os lindos peitos das moças que nos
cercam, tenho CERTEZA de que seríamos mais desapegadas quanto à estética deles.
Tanto que não vejo homens julgando uns os mamilos dos outros. Moral da
história, vamos parar de não querer ver mamilo de mulher. Tanta coisa nesse
mundo pra se preocupar e a família tradicional brasileira perdendo tempo com mamilo.
Terceiramente,
família tradicional brasileira. Amores, quem são vocês? Uma família que não tem
nenhum membro que já tenha traído, feito coisas erradas, falado palavrão,
beijado alguém do mesmo sexo, usado algum tipo de drogas? Nada disso, nadinha
mesmo? Desculpa, não conheço. Alguém me explica que tradição toda é essa,
porque to por fora. Mais uma vez, tanta coisa pra se preocupar no mundo e
nossos ilustres políticos tradicionalíssimos decidindo o que é família. Kiridos,
vão dar um jantar pra sua família tradicional, rezem pelas almas de quem julgam
errados e não se metam nas famílias que não são as de vocês. Vocês não são
ninguém pra dizer quem é a família de ninguém. QUALQUER família merece ser
feliz sem uma merda de uma lei ou coisa que o valha. Daqui a pouco vocês vão
querer definir o que? Conceito de amigo? Quer ser tradicional, seja lá o que isso
quer dizer, seja. Só não enche o saco de quem quer ser feliz sem a opinião de
vocês.
Quartamente,
Eduardo Cunha e os migo tudo dele. Mais uma vez, queridos ilustríssimos e
tradicionalíssimos seres políticos desse Brasil, vão cuidar de outra coisa. Vai
lavar um prato e comer uma pipoca. Vai varrer uma sala. Vai ali dar uma dormidinha,
vai se jogar de um penhasco, tudo menos: 1. Se meter na sexualidade dos outros.
2. Se meter na família dos outros. 3. Se meter na religião dos outros. 4. Se meter
no útero das outras. Vamos então falar do projeto de lei. Vamos falar de aborto.
O PL 5069, criado pelo Du e mais dois migo (tudo homem), quer dificultar ainda
mais o aborto. Vou copiar alguns trechos da matéria que saiu no G1.
No caso do estupro, para que um
médico possa fazer o aborto, o projeto de lei passa a exigir exame de corpo
de delito e comunicação à autoridade policial.
Atualmente, não há necessidade de
comprovação ou comunicação à autoridade policial – basta a palavra da gestante.
"Nenhum profissional de saúde ou
instituição, em nenhum caso, poderá ser obrigado a aconselhar, receitar ou
administrar procedimento ou medicamento que considere abortivo",
diz o texto do projeto.
De acordo com o relator, deputado
Evandro Gussi (PV-SP), o farmacêutico pode deixar de fornecer pílula do dia
seguinte, por exemplo, se considerar que isso viola a sua consciência.
Nos
trechos citados acima, o que podemos ver, caro leitor? Um show de machismo e
conservadorismo. Não sei se os senhores criadores desta porra sabem, mas ser
mulher nesse país é difícil para cacete. E um dos maiores problemas é o fato
das pessoas não acreditarem na nossa palavra. Então, se relatamos um assédio,
seja moral ou sexual, um abuso sexual, um estupro ou uma descriminalização por
gênero, nós somos histéricas, exageradas, feminazis, malucas, mentirosas,
ridículas. A palavra da mulher, muitas vezes, não é validada nem pelas próprias
mulheres. E o primeiro trecho que destaquei mostra bem isso. Pelo projeto de
lei, a mulher vai ter que sair de um ESTUPRO pra ir fazer EXAME e depois
conversar com um policial, se for homem, PIOR AINDA, porque ela ainda pode ter
que ouvir “ué, mas também, com esse corpo” e coisas do gênero. O estupro, essa
experiência completamente TRAUMÁTICA na vida de um ser humano, deve ser
investigado até o fim, com os mínimos detalhes, e tudo isso para impedir que
haja um aborto. E por último, eu estou cagando para a consciência dO
farmacêuticO, que não tem a merda de um útero e não é ele que não vai parir e
cuidar da criança que a grávida carrega. E mesmo se for farmacêutica. Miga,
entenda, mulher tem que apoiar mulher. Não é seu útero, não acabe com a vida da
outra por causa da SUA consciência e deixa que ela se vira com a DELA. Eu já
falei sobre minha opinião a respeito do aborto em outro texto, por isso não vou
me estender. Mas eu só quero dizer que gostaria que esse projeto de lei fosse
parar em um buraco negro junto com o Cunha e toda a sua trupe reacionária,
conservadora, machista, racista e homofóbica. Vocês, que são a família
tradicional brasileira, enfiem essa tradição em outro lugar, que não seja nos
úteros das mulheres. Não as façam parir frutos de seu machismo.
Por
último, não posso deixar de falar sobre feminismo. Volta e meia, tento me
lembrar de algum marco que me tenha feito parar e falar: eu sou feminista. Não
consigo. Não sei como nem porque, mas sempre soube que feminismo não era oposto
de machismo e sempre expliquei isso às pessoas. O que me lembro de mais remoto
foi um chute no piru de um menino que me desrespeitava frequentemente na escola
e ninguém fazia nada. Eu devia ter uns 4 anos. Depois, uma festinha onde eu
devia ter uns 6 me irritei com o animador que brincou que os homens eram mais
fortes do que as mulheres, por isso iam ganhar no cabo de guerra. Eu nunca
entendi isso e sempre contestei. Aos 8, fiz uma dupla com uma amiga que
arranjei em uma pousada e jogamos totó com dois meninos. Eles disseram que
íamos perder porque éramos meninas. Fiquei com raiva dele. Nós ganhamos. Fui crescendo
assim. Nunca aceitei o lugar de submissa e inferior que a sociedade gosta de
enquadrar a mulher. E meus pais me ensinaram que isso não é assim. Hoje, vejo
que muitas pessoas ao meu redor já mudaram suas opiniões pelo que digo a elas. Meu
namorado, por exemplo. Outro dia, um amigo meu disse até que eu era uma
referência, para ele, no assunto. Uma amiga contou que eu abri o olho dela
quando falei sobre o direito da mulher de se vestir como quiser, andar na rua
como quiser, e não estar pedindo para nenhum cara mexer com ela. E meu peito
feminista se enche de orgulho quando vejo que já mudei e que ainda posso mudar
a visão de muita gente. Mais uma vez eu quero falar que feminismo é a luta
pelos direitos iguais dos homens e das mulheres. NÃO É mimimi. NÃO É opressão
(NÃO!!!). NÃO É anti-homem. É só a noção de que somos todos iguais. Todo ser
humano é igual. E nossa luta continua porque tem gente que continua sendo
machista. Por causa de várias coisas que falei sobre ali em cima. O seu
machismo NUNCA vai calar meu feminismo, mas meu feminismo vai sim calar seu
machismo. O importante é que nós, que lutamos pelos direitos BÁSICOS das
mulheres, não fiquemos calados. Não sei como devo terminar esse texto, talvez
porque ele não tenha fim. Talvez porque seja tão incerto como a luta diária que
a mulher leva, que ela é. Se isso um dia tiver fim, quem sabe eu não concluo
tudo isso sem interrogações?
Marina N. Martins
Aproveito para dizer: assistam a esse vídeo maravilhoso da JoutJout.