quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Paixão Passageira

Já estava lá há dez minutos. “Filho da puta!” – o ônibus tinha passado direto do ponto. Ela teve que esperar mais quinze para vir outro, que quase não parou também, mas teve de parar quando ela praticamente se jogou na frente dele. Abriu a porta e ela entrou, atabalhoada.
- Assim ce é atropelada, menina, cuidado...
“Ah! Vai se foder!”
- É, moço, mas cê podia ter parado né! Se isso tivesse acontecido, eu não precisaria correr aquele risco.
Deu “bom-dia” ao trocador, que não tinha culpa da situação, e passou pela catraca, descabelada e desastrada. Levantou o olhar e gelou. “Meus deus, que lindo!”. Sentou estrategicamente no banco à diagonal dele, para poder vê-lo melhor. Ele olhou para trás, para ela, ela viu, ele disfarçou. Ela sorriu e o corpo já não era mais o mesmo. Lembrou que estava descabelada, ajeitou os cabelos, a roupa, a postura. Com a música no ouvido, começou a pensar no rosto dele, nos olhos, nos cabelos, nas roupas, na postura. Até no brinco, que ele não precisava ter, mas que nele dava um charme. “Será que tem tatuagens? Que as unhas são limpas? Ah, o pé é, e ele ta de chinelo! Ai, que pé bonito...”. Ficou olhando o mar, enquanto não parava de pensar nele “será que ainda está me olhando?”.

- Oi, posso sentar?
- Ah, oi, claro, claro. “Cacete, ele veio pra cá. Age naturalmente”.
Ele ainda está de pé.
- Ah! A mochila! Desculpa, deixa eu tirar ela daqui.
- Haha, brigada. E aí, como cê chama?
“Até o sotaque paulista caiu bem nele.”
- Laura.
- Eu sou Henrique.
“Droga! Esqueci de perguntar de volta!”
- Cê é do Rio mesmo?
- Aham. E você de São Paulo, né?
- Isso, mas moro aqui há um tempo.
- Por que?
“Ai meu deus, que pergunta mais direta.”
- Eu estudo aqui.
- O que?
“Laura, o que está acontecendo? Naturalmente!”
- Estudo Ciências Políticas e faço um curso de Artes Plásticas.
“Poderia ser mais perfeito?”
- Olha! Que maneiro!
- É... eu gosto! E você faz o que, Laura?
- Letras.
- Quer ser escritora?
- Diria que gosto de contar histórias, sim.
Eles conversam, dão gargalhadas, falam sobre eleições, concordam em quase tudo, aborto, legalização das drogas, em alguns minutos criam uma intimidade que Laura nunca tinha adquirido tão rápido com alguém. Pela primeira vez, Laura gosta do trânsito e reza mentalmente para que ele não acabe tão rápido. Ela observa cada detalhe de Henrique e não tem nada nele que a incomode. “Espero que ele também me veja assim também”.
- Laura, eu sei que o papo ta ótimo, mas eu desço no próximo ponto.
- Ah... ah.. ta bem, ta bem, vai lá.
Eles trocam celular, cada um tira uma foto divertida no celular do outro.
“Que clichê! Que fofo!”
- Tchau.
- Tchau.
Henrique dá um beijo em Laura, que se surpreende, mas reage rapidamente – e positivamente, claro.


“Nossa, mas o mar ta lindo...” O trânsito estava horrível, o ônibus ainda estava na praia. Laura virou a cabeça para o lado direito, olhou para o banco do menino, ele não estava mais lá. Levantou a cabeça, procurou nervosa pelo ônibus, nada. Olhou pela janela e lá estava ele, andando em direção oposta ao ônibus. “Merda”. Ela se arrependeu por, mais uma vez, não ter tomado uma atitude de conversar com o garoto. Ele, da rua, virou a cabeça e ela olhava para ele. Levantou rapidamente, puxou a cordinha do ônibus – Motorista, abre aqui pra mim! –, mas ele era um daqueles motoristas que faz o que quer. Quase passa de ponto, mas não abre fora dele. Laura só viu pelo espelho o gesto dele dizendo que não. Já era tarde demais e o menino tinha ficado para trás. “Filho da puta!”. Laura sentou novamente no banco e colocou de volta os fones de ouvido.

Marina Martins

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