sábado, 28 de maio de 2016

Dos gritos presos

Ilustração: Layse Almada


São tantas as coisas na minha mente, que parece que as palavras me fogem. Elas me vêm em forma de prosa, de poesia, de foto, de grito, de arte. Às vezes saem, às vezes se prendem. Prendendo-se a mim, me prendem. Mas tentarei soltá-las nesse texto, elas precisam sair de mim em forma de frases feitas, não apenas de lágrimas. As lágrimas doem. As palavras e os pensamentos também. Sobreviver, viver, às vezes dói. E ultimamente anda doendo.

1.      Do Corpo Cru

Final de semana passado, uma semana atrás, eu filmava meu primeiro curta. Foi tão lindo. 14 mulheres na equipe e um homem, o iluminador. Além da equipe, 11 mulheres e um homem trans participando à frente das câmeras. Nosso documentário é fruto de um projeto fotográfico meu. Os dois têm como objetivo desobjetificar e naturalizar o corpo da mulher. As palavras que escolhi para descrever o “Corpo Cru” são: “O corpo em alma. A alma nua. Nossa nudez não será castigada”, o que já deixa a entender a que veio o projeto. A filmagem foi linda. Foi libertadora, inspiradora. A cada dia, o projeto, seja por meio das fotos ou dos filmes, me faz crescer, aprender, me empoderar como mulher. Me faz amar, lutar e, acima de tudo, não desistir da luta. As mulheres confiam em mim, se despem para o projeto, de corpo e alma. De corpo em alma. A minha equipe de mulheres confiou no projeto do curta e quis fazer com que ele ficasse lindo, como ficará.

Em nossas vidas, nós, mulheres, crescemos ouvindo coisas horríveis a respeito de nós mesmas. Crescemos em uma louca competição entre nós, aprendemos a julgar umas às outras. Escutamos que trabalhar com mulher é ruim, pois mulher é louca, histérica, desequilibrada, fala muito, não é objetiva. Tudo mentira. Eu sempre tive muitas mulheres em minha vida, seja na família, sejam amigas. Quando mais nova, sentia a necessidade de ter mais amigos homens e ficava preocupada por não ter muitos deles. Hoje, eu sei bem o porquê disso. Porque convivi, na minha escola, com jovens machistas, racistas e elitistas que desrespeitavam quem não era semelhante a eles (homem branco hetero cis rico). Eu espero que eles tenham mudado. Mas era desesperador conviver com eles. Hoje, tenho poucos homens em minha vida, todos que me respeitam e me amam. E respeitam e amam as minhas companheiras. Poucos, mas não é a quantidade que me importa. Hoje, eu agradeço por ter tantas mulheres em minha vida. E cada vez mais. Senão, seria simplesmente insuportável de sobreviver em meio a tantas atrocidades que temos de ouvir e pelas quais temos de passar diariamente. É muita dor. Sem essas muitas mulheres, eu não seria nada. Passar um final de semana trabalhando com uma equipe quase que inteira feminina (e feminista!) foi muito bom. Fiquei muito feliz. Tudo deu muito certo. Todas se respeitavam, se ajudavam, trabalhavam. A mão de uma estava sempre estendida à outra. Então, queria terminar isso agradecendo a cada uma dessas mulheres da equipe Corpo Cru. E a cada uma e cada um que participou do documentário e teve total confiança em nós. Cada uma e cada um que ajudou e contribuiu com o projeto de alguma forma. E cada mulher que já participou ou quer participar do projeto. Vocês me dão forças. Vocês me dão asas. É graças a vocês que, um dia, sei que poderei voar.


2.      Do estupro

Um choro se materializa e se amarra em minha garganta. Fica preso em nó. Um nó que não sai e rasga minha alma inteira. Arde meu peito. Me dói. O nó goteja. As gotas se espalham por meu corpo, que se amolece, se adormece, sem me deixar dormir. Respiro fundo, bebo água. É como se uma faca me penetrasse a cada horror que vejo ou leio na internet ou, pior, que ouço no dia-a-dia. As falas me cortam aos poucos. Os cortes corroem meu corpo. Às vezes, é difícil levantar. É como se não houvesse forças. Não, não é como. Não há. Mas às vezes me surgem mãos, que pegam nas minhas e me ajudam a levantar. “Vamos lutar”, dizem umas. “Eu te seguro”, dizem outras. Delas, saem braços que me envolvem. Saem corpos, saem rostos com bocas que tem outras palavras para te dizer. Palavras que costuram os cortes recebidos, fazem com que se transformem em cicatrizes e estão lá para ajudar a curá-las. Sou cheia de cicatrizes. Minhas irmãs também são. A cada dia, uma nova facada em nossos corpos, vulneráveis, violados, violentados. A cada dia, uma nova sutura, uma nova gaze que tenta nos encher de curativos. Enquanto uns te fazem vomitar, outros estão lá para segurar o seu cabelo. Enquanto aqueles te baixam a pressão, esses te passam água no rosto. Enquanto aqueles passam suas mãos sem que você permita, esses a estendem para que você não desista.

Rio de Janeiro, maio de 2016. Uma menina é estuprada por mais de 30 homens. Brasil, 2016. Uma mulher é estuprada a cada onze minutos. Uma em cada quatro mulheres será estuprada até o fim de sua vida. Essa mulher pode ser eu, pode ser você, pode ser ela. Uma delas é cada uma de nós. Tentamos imaginar como deve estar a menina, vítima de um estupro coletivo. Queremos abraçá-la e dizer, bem baixinho, “não é culpa sua; estamos aqui”. Tentamos imaginar, mas nos dói, nos dói tanto. Não conseguimos. Não queremos. Apenas torcemos e lutamos para que ela consiga seguir a vida dela. Nós vamos às ruas, nós gritamos. Nos fazemos ser vistas. Vocês precisam nos ver. Abrir os olhos e nos ver. Olhar nos nossos. Pedir perdão por cada gesto diário de vocês que contribui a um estupro. Vocês acham que o estupro é um caso extremo de misoginia, mas vocês não percebem como contribuem com ele. Vocês não têm empatia. Vocês fogem de uma generalização, pois não querem admitir que, um dia, já contribuíram para casos extremos de misoginia. Cada piadinha que soltaram, uma mulher estuprada. Cada foto ou vídeo que compartilharam, uma mulher assassinada. Vocês acham que não provocaram isso, mas quero que saibam: enquanto vocês riem do “machismo bem humorado” de vocês, uma mulher está sendo violentada. Tem seu corpo, sua vagina, seu ânus, sua boca penetrada por algo pelo qual ela não pediu, ela não escolheu. Mas fiquem tranquilos, isso não acontece apenas quando vocês são machistas. Não. Enquanto vocês estão dormindo, comendo, tomando banho, acordando, falando, há uma mulher sendo espancada, outra sendo abusada, outra assediada, outra estuprada e outra assassinada. (Alguns de) vocês se compadecem em casos extremos. Vocês pensam: “poderia ser minha filha”, “poderia ser minha mãe”. Vocês já pensaram que poderia ser um ser humano? Aliás, que é um ser humano? Já pararam para pensar que estamos tratando de um ser humano? Ser humano esse que você, nessa sociedade machista e patriarcal, já destratou. Com seu buylling. Suas piadinhas. Suas brincadeiras entre amigos. As fotos e vídeos que vocês trocam em grupos de whatsapp. Suas chantagens emocionais em troca de beijos e sexo. Suas “inconveniências”. Seus toques não bem-vindos.

Se vocês se assustam com uma menina sendo violentada por mais de 30 homens, tenham a consciência da responsabilidade de vocês nessa sociedade que naturaliza o estupro. Uma sociedade com propagandas que objetificam o corpo da mulher. Com músicas que objetificam o corpo da mulher. Com mídias e objetos culturais que naturalizam atrocidades como estupro e pedofilia. Que amenizam isso usando eufemismos para descrever tais situações. Uma sociedade que apoia o opressor e desdenha do oprimido. Vocês nunca escutaram: “nunca estuprem uma mulher”. Nós sempre escutamos “não aceite bebida de estranhos”, “não converse com estranhos”, “não use roupas tão curtas”, “não ande sozinha a essa hora”, “não vá sozinha por ali”. Todas as frases poderiam ser substituídas por “cuidado para não ser estuprada”. Porque vivemos em uma sociedade que ensina à mulher a evitar um estupro, mas não ensina aos homens a não estuprar. “Ah, mas isso é óbvio”. Ah, é? Vamos repetir. Uma em cada quatro mulheres será estuprada até o fim de sua vida. Uma mulher é estuprada a cada onze minutos no Brasil. Cada vez que vocês expõem uma mulher, que ironizam sua luta ou sua dor, que fazem piadas machistas e que não chamam a atenção dos amigos misóginos de vocês, vocês contribuem para essa realidade. A cada sorriso que vocês pedem para uma mulher depois de ofendê-la, é como se a obrigassem a gemer quando ela não está sentindo prazer, mas vocês sim. Vocês contribuem, pois ajudam a naturalizar a inferiorização e objetificação da mulher. Acho que não preciso dizer porque esses termos se relacionam com o estupro. Parem de nos machucar, por favor. Parem. Parem. Parem. É muito doloroso ver vocês desdenhando da nossa luta ou dando menos importância a ela. Nossa luta é o que nos faz acordar e colocar os pés em uma rua que não nos respeita. Em nossas faculdades e locais de trabalho que nos oprimem. Muitas vezes, até mesmo em nossas próprias casas. É de mãos dadas que nós nos reerguemos a cada queda. É de mãos dadas que sobreviveremos a cada dia.

3.      Do mundo que está ficando chato

- O mundo está ficando chato – disse o opressor.
- Está ficando? Ele sempre foi. Nós só estamos tentando transformá-lo em menos insuportável para que possamos, ao menos, sobreviver – respondeu o(a) orpimido(a).

Marina N. Martins

segunda-feira, 7 de março de 2016

8 de março





Vamos lá, queridos e queridas, primeiramente um pouco de história (fonte mais simples possível: Wikipedia).


A ideia de criar o Dia da Mulher surgiu nos primeiros anos do século XX, nos Estados Unidos e na Europa, no contexto das lutas femininas por melhores condições de vida e trabalho, bem como pelo direito de voto. O Dia Internacional da Mulher e a data de 8 de março são comumente associados a dois fatos históricos que teriam dado origem à comemoração. O primeiro deles seria uma manifestação das operárias do setor têxtil nova-iorquino ocorrida em 8 de março de 1857 (segundo outras versões, em 1908), quando trabalhadoras ocuparam uma fábrica, em protesto contra as más condições de trabalho. A manifestação teria sido reprimida com extrema violência. Segundo essa versão, as operárias foram trancadas dentro do prédio, o qual foi, então, incendiado. Dia 8 de março de 1917, trabalhadoras russas se manifestaram por melhores condições e vida e trabalho, sendo violentamente reprimidas. Nos países ocidentais, o Dia Internacional da Mulher foi comemorado no início do século, até a década de 1920. Depois, a data foi esquecida e só foi recuperada pelo movimento feminista na década de 1960. Hoje em dia, a data não tem mais seu sentido original, tendo adquirido um caráter festivo e comercial.


Pois bem, por que eu quis colocar historinha de Dia da Mulher aqui? Porque muita gente não sabe o motivo dele existir. Então, todo 8 de março eu faço questão de deixar claro que essa data tem história, tem simbolismo e, acima de tudo, tem luta. Não é uma data pra gente falar “ah, mas dia da mulher é todo dia, não precisamos de data certa”. Querides, que todo dia é nosso dia, isso é óbvio. Mas precisamos dessa data sim! Esse dia foi determinado para que a gente nunca esqueça o que as mulheres do passado já fizeram pelas mulheres do presente e do futuro e que nossa luta não pode parar. As datas existem para que a gente nunca se esqueça da importância de um fato e o Dia Internacional da Mulher está aí para isso. 


Então, eu deixo aqui minhas reflexões e meus pedidos.


Primeiro, às moças.


Manas, que a gente não se esqueça que a luta não pode parar. Que sejamos eternamente gratas pelo que nossas mulheres já fizeram por nós e que nós demos continuidade a isso. Que a gente aprenda que, juntas, somos mais fortes. Não adianta de nada nós competirmos umas com as outras. Nós temos de entender que as outras mulheres não são uma competição, elas são o que vai te manter em pé quando a sociedade quiser te derrubar. Que as nossas trocas de olhares não sejam plenas de julgamentos e pré-conceitos, mas sim de cumplicidade. Que a gente veja na outra uma companheira de luta. Que a gente entenda que somos livres para escolher. Escolher a roupa que usamos, as pessoas que beijamos, os pelos que tiramos. E que nada disso seja motivo para que a gente se distancie, e sim que a gente se aproxime, pois, nos apoiando umas nas outras, somos gigantes. Que a gente entenda que, mesmo dentro do nosso movimento, ainda existem mulheres com mais privilégios do que outras. Infelizmente. Que a nossa voz grite mais alto do que a de qualquer machista que já tentou nos silenciar. Eu sou eternamente grata às mulheres conhecidas e desconhecidas que me fortalecem a cada dia, mesmo quando parece que não há mais esperança. Que a gente ame nosso corpo e respeite o de nossas irmãs. Nosso corpo é nosso templo, é o que nos move, é o que abriga nossa alma e nossa mente, cheias de questões, indagações, angústias, alegrias... nós temos que aprender a amá-lo seja ele como for, se enquadrando ou não em um padrão de beleza opressor. E que a gente se desprenda desse padrão, pois nossa beleza não pode ser determinada ou padronizada. Que a gente aprenda que a beleza está na diferença e que esta não deve ser apenas aceita, como celebrada. Eu só queria dizer que tenho muito orgulho de ser mulher. Por maior que seja a nossa dor, por mais sofrida que seja a nossa luta, eu encho o peito para dizer que faço parte dela. Porque eu não quero o melhor para mim, mas para todas nós. E é isso que eu desejo nesse dia.


Agora, aos rapazes.


Por favor, respeitem as mina! Por favor, chega de diminuir a nossa causa, ignorar a nossa dor, transformar tudo em TPM, em mimimi... Ouçam o que nós temos a dizer! Historicamente, a voz sempre foi de vocês. Então, eu peço encarecidamente, calem a boca de vez em quando. Às vezes, vocês não entendem a mulher pelo simples fato de não escutá-la. É muito difícil discutir com pessoas que querem falar sozinhas e nós mulheres sofremos muito com isso quando tentamos dialogar com homens. Compreendam o lugar privilegiado de vocês, simplesmente por terem nascido homens. Não diminuam as mulheres. Não diminuam nossa luta. Isso é horrível. Vocês nunca nos chamariam de loucas, histéricas, surtadas e tagarelas se apenas se calassem para ver o que temos a dizer. Eu garanto que nenhuma de nós precisaria gritar se vocês nos dessem a honra da palavra.


*E, antes que alguém, fale... sim, a gente sabe que nem todo homem é assim. Ainda bem que existem exceções, ainda bem mesmo. Tanto que a gente torce para que, um dia, essa exceção se torne regra e nada disso precise ser dito.*


Eu quero desejar um feliz dia a todas as mulheres. Todas, sem exceção. Que a nossa união prevaleça. Que nossa voz seja ouvida, nem que a gente tenha que se esgoelar. Mas se o grito nos fizer perder a voz, que a gente respire fundo e a recupere. Feliz dia de luta.

Marina N. Martins

sábado, 9 de janeiro de 2016

Wanderlust

É, ok. Viajar é uma fuga, por que não? Mas não pensem que é uma fuga irresponsável. Viajar, para mim, é a responsabilidade que tenho comigo mesma. É uma fuga em busca da minha felicidade. Uma fuga para buscar vida.

Marina N. Martins, novembro/2015

345



Quem?

Quem vai cuidar de mim
quando o vento bater
quando a febre arder
para eu não esquecer?

Quem vai cuidar de mim
para eu desabafar
quando me acabar de chorar
em que colo vou sentar?

Quem vai cuidar de mim
se todos precisam ser cuidados
se dentro de cada peito apertado
há um choro censurado?

Se vivemos numa incerteza sem fim
se estamos juntos, mas todos a sós
quem vai cuidar de mim?
Quem vai cuidar de nós?

Marina N. Martins, novembro/2015