domingo, 13 de novembro de 2011

230

Onde foi que eu errei?

Um dia eu não vou aparecer.
E você vai ficar ligando.
A campainha vai tocar, mas não vou atender.
E você vai ficar esperando.

A agonia vai remoer a sua alma.
E eu ainda estarei sumida.
Você tentará manter a calma.
Mas suas unhas já estarão todas ruídas.

Você chegará a sentir até calafrios.
Estará tentando adivinhar onde eu estarei.
Sua vontade secreta será a de chorar rios.
E você pensará “onde foi que eu errei?”.

Marina Martins

sábado, 12 de novembro de 2011

Conversas com o mar


No cantinho após o posto 12, lá está ela a ver o mar. Casais se acariciam, pessoas passam correndo, o menininho brinca com o cachorro, bem maior que ele, enquanto seu pai dá mais atenção ao cachorro do que a ele. “Que vontade de agarrar esta criança! Que lindo!”, ela pensa. A música em seus ouvidos parece adivinhar o que ela quer escutar. Os Beatles narram o que ela está pensando, Jack Johnson narra as idas e vindas do mar, os Red Hot Chilli Peppers narram a brincadeira do garotinho com o cachorro e, então, toca Yann Tiersen. O pássaro que sobrevoa o mar dança a música instrumental francesa em perfeita sintonia. Ele tenta pegar um peixe, mas não consegue, então volta a dançar. Depois, tenta novamente, mas não consegue novamente. A música termina e o pássaro voa para longe, – de repente ele tenha sim pegado o peixe – parece que combinou com a música seu momento de sair de cena. Que delícia ser um pássaro! Quanta liberdade! Seu corpo baila pelo céu e ele alcança as nuvens, ou o mar, a areia... Ela pensa que, talvez, um pássaro jamais possa desapontar alguém. Então, pensa que o céu e o mar também não. Mas não, não é bem assim. O céu, por exemplo, está nublado bem no feriado. Que ofensa! O céu desaponta sim, e muito. Muitas vezes. Mas o mar... o mar é diferente. Parece que ele sente o que ela sente e tenta sempre ajudá-la. Pelo menos com ela é assim. É como se suas ondas, por maiores ou menores que estejam, conversem com ela e pensassem como ela. O mar é misterioso e até assustador, mas não desaponta. Nunca. As pessoas sabem dos perigos dele e desconhecem seus mistérios, não podem se fazer de inocentes quanto a isso. E lá está ela, vendo o mundo girar. Sua cabeça gira com o planeta e ela fecha os olhos para que ele possa girar em paz, enquanto está sentada em uma canga no cantinho após o posto 12.

Marina Martins

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

229

Frações de duas metades

Suas condições de vida são perfeitas
Você se encaixa neste sistema
Se algo lhe acontece, tudo se ajeita
Se não se ajeita, vira um grande problema

Você é inserida na sociedade
Fecha os olhos para quem não é
Você é repleta de uma falsa ingenuidade
Afinal, tem tudo o que quer

Você se conforma com a cidade partida
Não se importa com quem está sofrendo
Você diz que não faz parte da sua vida
Se incomodar com o que está acontecendo

Você está no papel de conformista
Mas diz que todos precisamos de paz
Você não sabe o que é ser humanista
E nem sabe o que faz ou o que não faz

Enquanto você não quiser saber
Eles precisarão pegar em armas
Assim eles se sentem no poder
Assim eles criam ainda mais carmas

São os bandidos contra a polícia
Os bandidos contra sua posição
A polícia honesta contra a milícia
A nossa cidade nesta situação

Marina Martins

228

Levanta a bunda do sofá

Levanta a bunda do sofá
Reclama e sobe na cadeira
O mundo quer te ouvir falar
Quer te ver erguer tua bandeira

Pinte-se de amarelo e verde
E cuidado para não fazer lambança
Todos sabem de tua sede
De tua vontade de fazer mudança

Pensa em quais são teus ideais
Mostra que queres paz e amor
Mostra que teus desejos são reais
E que tu não suportas mais ver dor

Coloca pra fora o que te incomoda
Não adianta ficar parado
Porque enquanto tu te acomodas
O planeta sofre calado

Marina Martins

227

Sonho de Lua

Fui procurar pela Lua,
mas ela não estava lá.
Saí correndo pela rua
para ver se conseguia encontrar.

Talvez seja pique-esconde,
pois não a vejo brilhando.
Queria encontrá-la, mas onde?
E também, o sono já vai me dominando...

Acho que pode ser vergonha,
isto de não querer aparecer.
Mas quem sabe se a Lua sonha
e, em sonho, possamos nos conhecer?

Marina Martins

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O meu amor a Chico

O meu amor

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que me deixa maluca, quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

Chico Buarque

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

226

Passos

Ter o primeiro amor, o primeiro namorado
Fazer o primeiro mês, ganhar a primeira rosa
Sorrir sorrisos bobos, trocar olhares apaixonados
Dedicar o primeiro poema, a primeira prosa

Guardar ingressos dos filmes, ganhar o primeiro cartão
Ficar batendo papo em vez de estudar
Ter o primeiro estresse, a primeira discussão
Perceber que não podemos mais brigar

Começar a notar os defeitos, as estranhices
Antes de dormir, pensar sempre na mesma pessoa
Tentar abstrair algumas bobagens e criancices
Esquecer das coisas ruins para se lembrar das boas

Ser feliz como nunca antes tinha sido
Amadurecer ou até mesmo regredir
Ver que o mundo pode ser bem mais colorido
Não querer largar na hora que temos de ir

Se orgulhar em dizer que está amando
E poder curtir cada passo que passamos
Não demorar para ver que não damos certo brigando
E sentir que, por sermos tão diferentes, nos completamos

Marina Martins

225

Tal

Sou como qualquer outro fulano
Chamado apenas pelo sobrenome
Sou apenas mais um ser humano
Com sorte de não passar fome

Ganho tanto de salário
Passo o dia em um almoxarife
Sou apenas mais um otário
Que vai a restaurantes pedir bife

Detesto aprender matemática
Nunca fui bem no boletim
Cresci sem saber gramática
Às vezes olham feio para mim

Sou o ser humano de número tal
Um dos que ficou de recuperação
Não sei se me considero normal
Não sei se vivo na alienação

Trabalho para conseguir dinheiro
E viver neste mundo capitalista
Uma vida com rotina e sem roteiro
Dessas que não são vida de revista

Sou apenas mais um daqueles números
Que às vezes depende do dólar em baixa
Sou alguém que vive dias efêmeros
E que acabará dentro de uma caixa

Marina Martins

224

Uniformes

Ela sabe como é que é
viver por trás de fantasias.
De dia, menina, à noite, mulher
escutando cuspidas poesias.

Encosta o sapato de salto
ao lado da meia arrastão.
Desabafa um suspiro bem alto
e senta, triste, no chão.

Lava o rosto em frente ao espelho,
a água escorre em preto,
os lábios borram em vermelho,
o cabelo fica preso e sem jeito.

Está cansada de sempre ouvir
falsas palavras de um falso amor.
Não consegue mais distinguir
se o que faz é trabalho ou é dor.

Marina Martins

terça-feira, 25 de outubro de 2011

223

Lista do que fazer nos próximos dias

Lamento por não ter rido de bobagens
Por não ter abraçado na hora certa
Por não ter respondido mensagens
Por ter perdido a oportunidade de ficar quieta

Arrependo-me por não ter sorrido para ele
Por não ter me declarado às minhas paixões
Por não ter tatuado minha pele
Por não ter inventado certos bordões

Desculpe-me se guardei muitas coisas para mim
Se ignorei alguns fatos importantes
Se disse muito “não” no lugar de “sim”
Se me distanciei em certos instantes

Queria poder ter dito que o amava
Ter aprendido a tocar violão
Ter dito que por você, eu ficava
Ter te segurado e te dado meu coração

Marina Martins