quinta-feira, 8 de maio de 2014

Cinema.





- Eu faço Engenharia na UFRJ.
- Caramba, que legal! Nossa, deve ser muito difícil, né?
Nas entrelinhas: se deu bem, vai ser rico.
- Eu faço Direito na UERJ.
- Nossa, parabéns, que máximo!
Nas entrelinhas: que gênio, vai ser rico.
- Eu faço Medicina na UFRJ.
- Uau! Passou de primeira? Vai para que área?
Nas entrelinhas: que máximo, que inteligente, vai ser rico.
- Eu faço Economia na PUC.
- Po, parabéns, mandou bem!
Nas entrelinhas: quer ser e vai ser rico.

Sim. As “entrelinhas” que escrevi são completos estereótipos do que as pessoas pensam quando ouvem sobre essas profissões. Mas, em um sistema capitalista como o que vivemos, ser rico é bom. Então, esses pensamentos, mesmo que você que esteja lendo isso não pense assim, são bons. Muitas vezes a gente nem pensa assim, mas acaba brincando com isso e também levando na brincadeira. Citei essas quatro profissões porque, assim como as “entrelinhas”, elas são um estereótipo: dinheiro. É comum a gente pensar que quem está cursando-as será bem sucedido. Muito melhor sucedido do que uma estudante de... cinema.

- Eu faço Cinema na PUC.
O que costumo escutar:
- Caramba, corajosa!
Nas entrelinhas: coitada, é corajosa, porque escolheu ser pobre.
- Que legal! Eu pensei em fazer cinema, mas... é... sei lá.
Nas entrelinhas: ... mas escolhi não ser pobre.
- Uau! Eu quis fazer cinema, mas meu pai não deixou.
Nas entrelinhas: meu pai não quis que eu fosse pobre.
- Mas você vai ficar no Brasil mesmo?
Nas entrelinhas: tem que ir pra Hollywood, menina, senão vai ser pobre.
- Nossa, que máximo, cinema, uau! Que legal você é!
Nas entrelinhas: nossa, ela só deve ver filme cabeça, deve saber sobre todos os diretores do mundo, deve ser muito cult.
- Nossa, profissãozinha difícil essa que você escolheu, heim? – Ouvi essa hoje, de uma desembargadora que disse ter preconceito contra o cinema brasileiro e se recusa a ver qualquer filme do próprio país. Não precisa de entrelinhas, ela já foi bem sincera.

Você talvez esteja se perguntando onde eu quero chegar com tudo isso. Pois é. Acontece que eu não escolhi uma carreira “normal”. Das duas uma: ou a pessoa sente pena da minha futura pobreza e da vida difícil que eu terei, ou ela me acha extremamente foda. Claro que eu estou dramatizando um pouco, existem as exceções – ainda bem –, mas, como são exceções, obviamente não é o que vejo na maior parte das vezes. Eu prefiro que me achem muito cool por fazer cinema do que tenham pena do futuro não promissor que terei na minha vida, mas não tem como a pessoa ter uma reação normal? Poxa, seria muito melhor se a pessoa em questão achasse só legal, em vez de me achar alguém extremamente conhecedora do mundo cinematográfico ou de achar que serei sustentada por meus pais pelo resto da vida!

Desculpe decepcionar, mas não é só porque eu faço cinema, que eu já tenho visto todos os filmes, clássicos e não clássicos, do mundo. Não é só porque eu faço cinema que eu goste de todos os filmes conceituais e experimentais. Que eu conheça todos os diretores do Leste Europeu. E da Ásia. Que eu seja viciada em Cinema Alemão. Que eu queira fazer besteiróis brasileiros. Ou que eu queira ir pra Hollywood fazer filmes comerciais. Eu só tenho 19 anos, uma faculdade e uma vida inteira pela frente para conhecer mais sobre o mundo cinematográfico. Também não é só porque eu escolhi ser cineasta que eu vá ser dura. Que eu seja maconheira (detesto essa palavra). Que eu seja hippie. Que eu não consiga realizar meu sonho.

Qual seria a saída, então? Escolher uma profissão que eu goste médio, ou que eu não goste, só porque tenho mais chances de fazer dinheiro com ela? Eu odeio exatas (elimina Engenharia e Economia). Fico enjoada com sangue (tchau, Medicina). Não ia suportar passar o dia sentada num escritório, usando salto (não serei executiva). Pronto, não posso mais ser rica. História, teatro, psicologia... tudo coisa de pobre. Aí eu vou e escolho cinema. Credo, pior ainda né?

Os estereótipos são coisas muito chatas e eu fico completamente incomodada com eles diariamente. É só eu falar que faço cinema que eles pulsam das veias dos desconhecidos – e de muitos conhecidos. Ainda bem que meus pais sempre me apoiaram na profissão que eu escolhi para ser. Eu nunca escutei deles “tem certeza?”. Nunca. Agradeço imensamente por ter tido a “liberdade” (que na verdade é um direito) de ter escolhido algo que me faça feliz e que me deixe apaixonada. De vez em quando, escuto muito o quão dura e pobre serei e vou conversar com a minha mãe, desesperada. Minha terapeuta também já escutou muito. Eu costumo não me importar com o que dizem sobre mim, mas chega uma hora que a insegurança vem – e vem bem forte. Eu começo a pensar que eu nunca vou poder ser o que sonho em ser, que não vou poder ter os filhos que queria ter, que não vou poder mais viajar... Os estereótipos já me proporcionaram muitos momentos de desespero. Mas agradeço por ter pais que confiem em mim e dizem que têm certeza de que serei uma ótima profissional. Graças a eles, a amigos e a familiares, eu continuo tendo a esperança de que vou ser feliz, milionária, rica, ou dura, se eu fizer o que amo. E eu acredito nisso.

Eu sou uma pessoa normal e adoraria que a minha futura profissão fosse também. Cineasta não é duro, não é maluco, não é gênio, é uma pessoa normal. E, em como toda e qualquer carreira, há profissionais bons e ruins, ricos e pobres, inteligentes e idiotas. Toda carreira carrega seu estereótipo, mas eu me incomodo muito com os da minha. Ou pelo menos como eu os sinto. Se não existissem os médicos, muitas pessoas teriam morrido. Se não existissem os engenheiros, muitas construções teriam caído. Se não existissem os cineastas, não haveria cinemas e muitos casais deixariam de se formar. Não teríamos Tropa de Elite, Cidade de Deus, Poderoso Chefão, Pulp Fiction, Manhattan, E.T., Volvér, American Pie, Meninas Malvadas, High Scool Musical, Psicose, Sexto Sentido e eu poderia passar o resto da minha vida nessa lista. Eu faço cinema e não sou uma pessoa “extra-ordinária” por causa disso. E nem pretendo ser. Eu faço porque amo e dispenso estereótipos. Desejo ser apenas admirada como profissional e pelo meu talento, e não estereotipada por isso. Fim de história.

Marina Martins, em momento de desabafo.

Obs: aproveito para deixar o link de um vídeo que eu fiz para um trabalho:
https://www.youtube.com/watch?v=rUFovcI80iY&sns=fb 

segunda-feira, 31 de março de 2014

Mais um outro de machismo.



O título é esse porque já tenho um texto chamado “Mais um de machismo”. Já que me estresso constantemente com essa palhaçada, tenho vários textos sobre o assunto e tudo o que está relacionado a ele. Com toda essa campanha contra estupro, depois da pesquisa que saiu, não podia ser diferente. Aqui estou eu, escrevendo mais um outro de machismo. Hoje de manhã, ao entrar no Facebook, já me estressei com uma imagem:







Queria dizer que há uma diferença tremendamente grande entre moda e campanha. Gostaria de saber desde quando lutar pelos direitos (mais básicos) da mulher é uma modinha. Por favor, né! Se uma CAMPANHA dessas existe, é porque, infelizmente, tem um motivo. E que bom que várias mulheres (e homens) estão participando dela, postando fotos dizendo algo extremamente simples, óbvio e básico: Ninguém merece ser estuprada. Também queria dizer que, se alguma mulher diz que homens bonitos podem estuprá-la, essa mulher tem sérios problemas psicológicos e sexuais. Não interessa se é bonito ou feio: se forçou, já não pode. Até porque, se você quer que alguém te estupre, é porque você quer transar com essa pessoa. Essa frase é burra e não faz sentido. Ninguém quer fazer nada a força. Ninguém quer comer o que não gosta. Ninguém quer estudar o que detesta. Ninguém quer transar com quem não sente vontade. Simples assim. Não entendo a dificuldade de certas pessoas de entenderem isso.



Mulher nenhuma facilita estupro. Se há mulheres que gostam de fazer sexo com várias pessoas diferentes por dia e ao mesmo tempo, isso é um direito delas. Mas como já falei, no momento em que alguém é forçada, não é mais direito nenhum de ninguém. O fato de uma mulher usar fio dental na praia não quer dizer que ela quer se mostrar para os homens. Já parou pra pensar que ela pode estar com a autoestima lá em cima e acha a bunda dela linda? Se uma mulher anda de shortinho enfiado no bumbum, isso não quer dizer que ela está dando a entender nada. Se você acha isso vulgar, ok. Mas em hipótese nenhuma isso é motivo para achar que ela quer ser abusada. Muitas vezes, a mulher se veste para ela e não para quem vai cruzar com ela na rua.



Roupa não faz diferença. Quando estou de calça jeans, homens mexem comigo. Quando estou de vestido longo, homens mexem comigo. Quando estou de saída de praia, homens mexem comigo. Quando estou saindo da ioga, homens mexem comigo. Quando estou de moletom, homens mexem comigo. Se eu me vestir de homem, homens vão mexer comigo. Não importa o que estou vestindo, vou atrair olhares indesejados de homens na rua, que não têm o menor respeito para com as mulheres. São os homens que acham que a gente gosta de ficar ouvindo “psiu”, “fiufiu”, “gostosa”, ou, como já aconteceu comigo “se tu fosse minha namorada, não saía da cama nunca”. Alguém acha que me senti bem ouvindo isso? Eu quase chorei de raiva. A minha vontade era de voar em cima do cara e dar um chute certeiro nele. Mas não disse nada. Tive medo.



Medo. É assim que a gente anda na rua. A gente tem medo de reagir quando mexem com a gente. A gente tem medo de sentar do lado de homens no ônibus. Eu tenho medo de pedir para um homem sair do vagão feminino no metrô. Tenho medo de receber entrega quando estou sozinha em casa. Tenho medo de discutir com taxista machista. Minha mãe tem medo que eu pegue ônibus de short curto, porque vou chamar atenção. Olha isso! Eu tenho que ter MEDO de sair de short porque os homens vão me respeitar menos. E o pior disso tudo: vão mesmo. Eu já troquei minha roupa porque me senti insegura. Já estiquei a saia porque o cara do meu lado tava olhando. Já troquei de lugar porque o cara me perguntou as horas enquanto olhava para minha coxa. Um dos meus maiores medos é ser estuprada e isso não ta certo. As meninas e mulheres não têm que andar na rua com medo de serem tocadas e chamadas por quem não querem. Por pessoas sem respeito, educação e noção. Por tarados, pervertidos e doentes. Nesse texto, citei algumas situações pelas quais passei e afirmo que muitas e muitas mulheres passam por isso diariamente. Até hoje, não conheci nenhuma que goste.



Desejo, do fundo do meu coração, que essa palhaçada de jogar a culpa na mulher acabe. Que na próxima pesquisa, esse bando de incompetentes e ignorantes respondam que, EM NENHUMA HIPÓTESE, a vítima tem culpa. De nada! Ninguém pede pra ser assaltada por falar no celular, assim como ninguém pede pra ser estuprada quando usa roupa curta. Ou biquíni. Ou calcinha. Ou cueca. Ou burca. Ou pano. Ou véu. Ou manta. Ou qualquer coisa. A culpa não é nossa. E vivam os feministas e as feministas que apoiam as mulheres na luta por nossos direitos, em pleno ano de 2014. De burca ou roupa rasgada, ninguém merece ser estuprada.

Marina Martins

quarta-feira, 12 de março de 2014

Josés.

Texto escrito baseado na imagem abaixo, para a aula de Técnicas de Comunicação. Era um concurso para ganhar meio ponto. Não ganhei, mas acabei gostando do textinho, então resolvi compartilhar.



Havia passado a noite jogado em um canto, com uma garrafa vazia de 51 e uma sacola debaixo da cabeça, fazendo-a de travesseiro. Não acordou assim que o sol apareceu. Resmungou e colocou a sacola em cima dos olhos, para espantar a claridade. Conseguiu dormir por mais ou menos uma hora. Quando o sol começou a incomodar, levantou-se e começou a andar, cambaleando de sono e bebida. Procurando onde sentar, encontrou um banco onde tinha um homem sentado.

- Se o senhor me dá licença, vou me sentar um pouquinho. É que to cansado, sabe? Corpo cansado, cabeça cansada, em mim ta tudo cansado. E o senhor, cansou também? Ta aí desde ontem... eu to também. Tava encostado ali nas pedras, o senhor deve ter visto. Eu sempre encontro uma “pedra no meio do caminho” para me acolher quando to mal, sabe? O senhor deve ta se perguntando: “se esse desgraçado passou a noite inteira deitado, como é que pode ta cansado?”. Pois é... é que além de cansado, eu to triste, sabe. Meu dia ontem não foi fácil. O senhor deve ta pensando “isso só pode ser por causa de mulher...”. E não é que é mesmo, seu... seu... Como é que é teu nome heim?

Sem obter alguma resposta, decidiu continuar falando mesmo assim.

- Já que o senhor não responde, eu vou te dar um nome. Posso te chamar de José? O senhor tem mó cara de José. Aliás, me chamo Carlos. Prazer, seu José. Olha só, eu tava falando que tava triste por causa de mulher né? Pois é. Mas não é qualquer mulher não, seu José. É minha mãe. Perdi ela anteontem. Aí ontem, depois do enterro, fui pra casa. Botei um trapo qualquer, desisti de dormir, saí na rua. Bebi que nem um condenado, já passou a noite e eu continuo bêbado. To sujo, to fedendo, mas é porque to triste. Me responde, seu José, “por que Deus permite que as mães vão-se embora”? “Mãe é eternidade”, seu José. “Por que Deus se lembra de tirá-la um dia?” Minha mãe era tudo pra mim. Me apoiava em tudo o que eu fazia, seu José. Quando eu tava desempregado, me ajudou a achar emprego. Ela era faxineira, conseguiu me colocar de porteiro em um prédio perto do que ela trabalhava. Provavelmente to desempregado de novo. Não apareci ontem no trabalho, não atendi o telefone. Não sei nem onde é que ta meu telefone, seu José. Acontece que, sem minha mãe, acho que não sou ninguém. Eu morava com ela até hoje, sabe? E era o único filho. Meus irmãos não estão mais com a gente. Um morreu, outra sumiu. Aí né, a mulher vai e infarta. Minha mãe. Infartou! No meio da faxina, morreu. Quando soube da notícia, pensei em me matar junto com ela, mas não matei não. Tentei ser forte. Mas fiquei fraco. Mas morrer, não morri. Sabe de uma coisa, seu José? “Se eu fosse Rei do Mundo, baixava uma lei: Mãe não morre nunca”. O senhor já perdeu sua mãe, seu José? Já, né? É muito triste, não é? Não sei o que vai ser de mim agora. Meu apoio foi embora... “E agora, José?” Que que eu faço da minha vida? Não tenho mulher, não devo mais ter emprego, não tenho mais mãe... Vou chegar pra procurar emprego todo mal vestido, carregando sacola? Alguém vai me escolher? Preto, pobre, favelado... não é isso que o Brasil quer. O Brasil quer alguém assim como o senhor; roupa engomada, sapato arrumado, óculos no rosto e livrinho na mão. Eu nunca li nenhum livro, seu José. É muito difícil ser pobre no Brasil, seu José, muito difícil. Vou ver se vou pra casa tomar um banho. Posso te pedir uma coisa, seu José? Reza por mim. Eu rezo pelo senhor também. Desculpe ter te incomodado, mas obrigado pela sua atenção. Quem sabe a gente não se cruza de novo, né não seu José?

No dia seguinte, Carlos descobriu que não tinha perdido o emprego e que, fazendo força, conseguiria viver sem sua mãe. A caminho do trabalho, resolveu saltar antes e caminhar pela orla de Copacabana. Estava tão bêbado e angustiado no dia anterior, que nem lembrou-se de sua conversa com a estátua do poeta. Viu a estátua, achou bonita e continuou a andar com seu uniforme azul. Carlos era só mais um José.

Marina Martins

326

Ange ou Démon

Você é um anjo
ou uma assombração?
Os cabelos louros...
os olhos azuis...
Aparência?
Enganação?

As vontades de vê-lo,
as outras de matá-lo,
de vê-lo para beijá-lo,
de vê-lo para dar-lhe tapas!

Aquele que me desconcerta
e faz as rimas saírem imperfeitas.
Versos soltos, descombinados,
diferentes daqueles primeiros...
lembra?
Você nem leu.
Não te mostrei.
Não entenderia.

Suas rimas se foram
para um outro
e para o outro,
quiçá quantos outros,
quantas outras
amigas
outros
amantes
outros
amores...
(Ainda consigo fazê-las?)

Pode aparecer nos meus sonhos,
anjo.
Mas pare de me
assombrar.

Marina Martins

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

É o fim.

Hoje, assisti à peça do ator, dançarino e amigo Márcio Januário, o Marcinho. Chamada de Tratado nº5, a peça tem como personagem um “preto, pobre, viado e favelado”, nas palavras do próprio ator, diretor e autor. Nela, ele fala sobre a origem das favelas, as favelas, o preconceito contra favelados, gays, negros e pobres, dentre outras coisas. Ao final, ele disse que não conseguiu escrever um fim para a peça e pediu para que nós pensássemos carinhosamente sobre um final para ele, para nós. Saí de lá pensando e resolvi escrever. Então, este texto dedico a você, Marcinho.
Pensei num fim. Mas o problema dele é que é um pouco utópico. E eu, sinceramente, detesto dizer isso. Me entristece achar que a igualdade e o respeito plenos nunca serão alcançados, e por isso são utópicos, mesmo que eu espere pelo contrário. Enfim. Ontem, assisti ao filme “12 Anos de Escravidão”, que me fez chorar copiosamente. Mais do que por conta das cenas de violência, chorei porque a violência só tinha negros como alvos. Animais, cachorros, macacos, idiotas... assim eram chamados. Tratados como animais selvagens. Pior. Como lixo. O filme, assim como a peça do Marcinho, me inspira a escrever esse texto.
Então, primeiramente, no meu final não existe mais racismo. Os negros e os brancos finalmente entendem que somos todos iguais e que a cor da pele só nos difere fisicamente. Assim como a cor do cabelo. O peso. A altura. Os pelos. As roupas. E por aí vai. Depois, no meu final, a palavra “favelado” perde o sentido pejorativo com o qual é utilizado por muitos membros da elite. Favelado é quem mora em favela, mas não é bandido, não é sujo, não é marginal. Favelado é aquele que conversa com o vizinho (mesmo que ele more há quilômetros de distância), que trata bem ricos, pobres e gringos e a galera da “pista” quando visitamos as favelas. É aquele que pede para ser fotografado, dá mole pras “patricinhas do Leblon” e faz comidas baratas e deliciosas (coisa rara no asfalto). As pessoas da elite passam a entender que gente pobre é muito mais rica do que gente rica em vários aspectos. Elas param de fazer “caridade” e passam a exercer sua solidariedade. Ah sim, e elas param de dizer que “bandido bom é bandido morto” e, antes de falar isso, procuram saber quem é esse bandido e porque ele fez o que fez.
No meu final, as pessoas lembram da homofobia com vergonha e desprezo, assim como a maioria lembra do holocausto. Quem é linchado é aquele que ousa espancar um homossexual pelo simples fato de ele gostar de homens. Elas pensam que a frase “prefiro ter um filho drogado do que um filho gay” é deplorável e nojenta. Ah, e que não faz o menor sentido, pois o inverso de gay não é ser drogado. Elas não precisam mais explicar a seus filhos que “tem menina que beija menina” e “ tem menino que beija menino” porque eles já nascem tendo isso como algo natural. E respeitam a sexualidade de qualquer um, sejam seus pais, irmãos, filhos, primos, tios, amigos, professores, médicos, chefes, empregados...

Resumindo, no meu utópico final, o preconceito acaba. Se não acaba, é mínimo. E quem é punido não são os que sofrem com ele, mas sim os que o praticam, seja de forma oral ou física. No fim, as pessoas se respeitam e se entendem, convivem e se aceitam. Os pobres gostam dos ricos e os ricos dos pobres – na verdade, numa maior utopia ainda, não existe desigualdade. Os pretos e brancos percebem que a mistura de cores sempre originou, na história da humanidade, coisas maravilhosas. A pista vai pra favela e a favela vai pra pista. O Leblon come churrasco no Vidigal e o Vidigal dá mergulho na piscina do Leblon, porque os favelados e os burguesinhos são amigos. Os filhos gays não são expulsos de casa por seus pais. Os travestis podem trabalhar como engenheiros, professores, médicos. As transexuais são chamadas de elas. As lésbicas podem se beijar, sem que os homens as interrompam perguntando se elas topam um ménage a trois. Os gays podem pegar praia deitados na mesma canga, sem ser só na Farme. Para terminar, no meu final só existe respeito e amor. E se não gosta, cara, fica na tua.

Marina Martins

sábado, 22 de fevereiro de 2014

325



-fuck you.

não.
eu não choro mais por você...
mas às vezes me lembro
e só te lamento.
fico pensando
na sua trajetória
de falsidade.
não penso que você é a mesma
prefiro pensar que
morreu
e alguém
entrou
em seu lugar.
outro dia estava ouvindo
a música que costumávamos
cantar juntas;
nunca pensei
que fosse dedicá-la
a você.
então
“through all this pain in my chest
i still wish you the best
with a-”

Marina Martins

Saudade:

Melhor e mais "concreta" definição de tempo e espaço, em uma era digital onde isso "não existe mais".

Marina Martins

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Últimas reflexões do ano


O ser humano é engraçado. Mesmo sabendo que do dia 31 de dezembro para o dia 1 de janeiro, nada mudará de fato, ele insiste em contar os dias para o novo ano que vem. “A última sexta-feira do ano”, “o último domingo do ano”... e daí? Daqui a uma semana é o primeiro domingo do ano que vem e eu serei a mesmíssima pessoa. E, afinal, qual a minha moral pra falar isso? Nenhuma, na verdade. Já estou com a calcinha e a roupa de Réveillon separadas. E tudo novo com algo de branco, é claro. A calcinha, rosa, pra dar muito amor. Normalmente é vermelha, mas esse ano variei. Quanto às metas para o novo ano, desisti de fazê-las há um tempo, pois eu nunca as cumpria mesmo! Mas, assim como todo bom e neurótico ser humano, na última semana do ano eu também fico pensando em como o tempo passa rápido, que já faz um ano desde o último Réveillon e sobre as características da Marina de 2013 e da de 2014. Metas, só na terapia. Mas é isso, o ser humano gosta mesmo de transformar as coisas em “big deal” – eu poderia dizer “grande problema”, mas acho que a expressão em inglês se encaixa melhor.



Aproveitando a deixa, “o último Fantástico do ano” foi totalmente baseado em um “big deal”: o estado de saúde do lutador Anderson Silva. Como se ele tivesse morrendo. Querido Anderson, sei que você deve ter sentido uma dor dos infernos e não quero menosprezá-la, mas, sinceramente, é só uma perna. Sei que operar é horrível e ter de ficar afastado da profissão que gosta e se dedica também, mas repito: é só uma perna. Sua saúde está ótima. Você tem dinheiro e admiradores por todo o mundo. Você poderia estar com câncer. Com AIDS. Ter perdido a casa e família nas enchentes. Ter batido a cabeça, sofrido hemorragia cerebral e estar em coma, beirando a morte, assim como Schumacher que, aliás, seria irônico, se não fosse trágico. O cara passa a vida inteira em alta velocidade e está quase morrendo por conta de uma queda de esqui. E eu com medo do avião que tenho de pegar daqui a uma semana...



Enfim, essa mistureba de assuntos me deixa com algumas reflexões: 1) O que importa se nada muda de um dia para o outro? Dia 31 é data de comemoração, dia de pensar em como o tempo voa e agradecer por estar vivo, sem a tíbia e a fíbola quebradas. É dia de família, amigos e de dar o americanóide e fofinho “midnight kiss” no meu namorado. Dane-se se continuarei igual depois de meia-noite! Estarei arrumada, de roupa e calcinha novas, me obrigando a dar um golinho de espumante para brindar e emocionando-me mais uma vez com os fogos de Copa. 2) As coisas não são um “big deal”. Sempre que está ruim, poderia estar pior. Por isso, andersons desse mundo, agradeçam por estarem ouvindo, enxergando, falando, andando, rindo e chorando! Agradeçam por, acima de tudo, estarem vivos e com saúde. É nas pequenas (ou grandes) coisas que a gente percebe que poderia estar pior.



Um 2014 renovador e inovador para todos! Que o novo ano faça relembrar as coisas boas e nos traga gente boa. Que ele nos faça esquecer e ficar distante de quem nos magoou e decepcionou. Minhas energias e pensamentos positivos às vítimas das enchentes, aos Schumachers e Andersons Silva desse mundo. Cumpram com todas as supertições que acreditam, joguem flores para Yemanjá, chorem, riam, abracem e beijem! Boa virada de ano para todos que me leem (e para quem não me lê também)!

Marina Martins

terça-feira, 26 de novembro de 2013

A neurose das cyberfutilidades



Outro dia, escrevi sobre a neurose alimentícia que está rolando aí pelos Facebooks e Instagrans da vida. Hoje, vou falar de uma outra neurose, mais para uma futilidade absurda, que são aplicativos relacionados a “relacionamentos” e citarei três, porque só conheço esses. Quero deixar bem claro que tudo o que vou escrever são opiniões minhas e não verdades absolutas.

Primeiro, vou falar de um aplicativo que a maioria das pessoas nem sabe que existe, e eu só conheci porque uma professora comentou em uma aula. Eu nem sei o nome dele, mesmo tendo procurado no Google com o meu namorado, mas vou dizer do que se trata. A gente chamou de “rastreador de namorado”. Ele funciona assim: você baixa o negócio – que nem existe mais na PlayStore do Android ou na AppStore do iPhone, pois já foi proibido mais de uma vez – no celular do seu namorado. A gente conseguiu baixar no Google mesmo. Assim, você cadastra o seu número no aplicativo e recebe mensagens com tudo o que ele faz: para quem envia cada mensagem, para quem liga, quando o celular está desligado, sem serviço, enfim. E funciona. A gente testou e eu recebi tudo. E a coisa não para por aí: tem, ainda, a opção de você ESCONDER o aplicativo para o seu namorado não ver que ele existe – mas, para isso, tem que pagar. Quando o meu namorado foi apagar o aplicativo, achou o dito cujo enfiado no sistema do Android, como se fizesse parte do celular. Pois é, gente. Isso existe. E, para mim, isso foi o extremo da neurose tecnológica. A gente se assustou seriamente.

O segundo aplicativo é o famoso Tinder, que nada mais é do que uma página de relacionamentos, como aqueles sites que existem por aí. Com a diferença de que ele conecta com o seu Facebook e procura pessoas que estejam perto de você ou com amigos em comum – me corrijam se eu estiver errada. Há um mês, o aplicativo estava bombando, mas agora percebo que a modinha já passou um pouco para algumas pessoas. Para mim, o Tinder é a doce ilusão de que você vai arranjar um namorado bonitinho pelo celular. Com sorte, essa ilusão dá certo, mas, na maior parte das vezes, não sai nem do chat. Você julga um indivíduo em um movimento feito com a ponta do dedo. Eu acho isso uma loucura! Confesso que às vezes brinco de Tinder com uma amiga minha, fico do lado dela dando xizinnho ou tiquezinho e até me divirto. E talvez, se eu fosse solteira, eu até baixasse o aplicativo. Mas isso não impede que eu ache uma futilidade só.

Por último, vou falar da futilidade mais recente: o Lulu. Também com o meu namorado, baixei para ver o que era. Ficamos chocados. Eu “descobri” coisas de pessoas nada a ver e de gente desconhecida também. Agora, vou listar tudo de errado que tem com o próprio erro que é o Lulu.

1. O aplicativo diz algo como “Ta a fim de alguém? Veja que ele não é tão perfeito assim”. Ok. ATÉ PARECE que se eu estivesse a fim de alguém ia ver o que as meninas falam dele para ver se valeria realmente a pena correr atrás do cara. Faça-me o favor, né? Não consigo imaginar alguém desistindo de ficar com o cara dos sonhos por causa da opinião alheia. Até porque, eu não daria a menor credibilidade aos hashtags que lá estariam. Desculpa se você que está lendo isso é tão dependente do julgamento tosco dos outros, mas eu acho isso inimaginável.

2. Lulu parte do princípio de que todas somos heterossexuais. No começo, achei que era um aplicativo em que não só as mulheres escrevessem sobre os homens, mas o inverso também. Depois descobri que não era. Enfim, fui pesquisar o nome de uma amiga para ver se tinha algo dela, só para poder zoar, e Lulu não deixou. Pois é, mulheres. Se quiserem usar o Lulu, não sejam lésbicas nem bis.

3. Lulu é uma superexposição dos homens. Achei um absurdo o fato de que os caras não autorizam um perfil no aplicativo e qualquer uma escreve o que quiser sobre eles. E eles só descobrem que escreveram algo ou que visitaram seu perfil quando criam uma conta. Ah, e tudo no anonimato, claro.

Concluindo, eu amo a tecnologia e dependo completamente dela, pois hoje não me imagino sem computador, celular, televisão, e por aí vai. Por outro lado, principalmente a Internet é uma porta aberta para idiotices, neuroses, chatices e futilidades. Esses são só alguns exemplos de cyberfutilidades, que dão espaço ao controle do outro, como o primeiro que citei, e estimulam pré-conceitos, como os dois outros. Deletei o Lulu imediatamente e usei o mesmo dedo que joga pessoas fora no Tinder para virar as páginas de um livro.

Marina Martins (em um momento radical)