domingo, 11 de maio de 2014

Rio, você foi feito pra mim?




Eu amo a minha cidade. Por sua beleza inigualável, ela realmente merece o “apelido” de Cidade Maravilhosa. Já dizia Jobim, “Rio de sol, de céu, de mar” e minha alma, assim como a dele, canta quando vejo o Rio de Janeiro e eu sempre morro de saudades, quando estou longe há muito tempo. Andar de ônibus pela praia, enquanto ouço samba ou bossa nova, parece até montagem de cinema, é um poema aos meus olhos e ouvidos! Mas nessa frase, já trago o primeiro problema que faz eu me irritar com o Rio que tanto amo: “andar de ônibus”.



Eu não dirijo, então me locomovo pela cidade de seis outras formas: andando, de ônibus, de metrô, de frescão, de taxi ou de carona. Como nem sempre tem o último, o penúltimo é caro, o antepenúltimo também e o metrô não me deixa em qualquer lugar, para ir de um lugar a outro, diariamente, pego ônibus ou vou andando. Aí moram dois problemas.



O Rio de Janeiro é perigoso e violento, ainda mais para uma mulher, que é ainda menos respeitada. Quando estou andando, coisa que adoro fazer, tenho que olhar para todos os lados, o tempo inteiro, para ver se tem alguém “suspeito”. Não posso mexer no celular. Não posso andar em locais desertos e escuros, pois corro sérios riscos de ser assaltada ou, pior, estuprada. Em qualquer lugar da cidade e hora do dia, ando com medo. Medo. É com esse sentimento que o carioca é obrigado a conviver cotidianamente. Quando ando de ônibus, até me sinto mais segura em relação a assaltos. Mas nem tanto. Eu evito pegar o celular, por exemplo. Só que, na minha opinião, os maiores problemas do ônibus são outros:



1. Respeito: Esse engloba todos os outros. Os passageiros não respeitam os passageiros. Os passageiros não respeitam o motorista e o cobrador. O motorista não respeita os passageiros. E assim somos locomovidos dentro de um ciclo vicioso de completa falta de respeito.

2. Velocidade: Não é a toa que nossos motoristas de ônibus são chamados de pilotos. Eles acham que estão dirigindo um avião. E eu tenho medo que um dia o sonho deles seja realizado e aquela droga voe. Os passageiros já voam dentro daquele foguete, um cai em cima do outro, é uma beleza. A cada freada, uma voada. Quanta diversão!

3. Trânsito: Toda hora acho que meu ônibus vai bater, acho que já fiquei paranoica. É cada fino que ele tira dos carros e de outros ônibus! Os motoristas acham que têm muito poder dentro daquela coisa enorme e saem fechando os carros pelas ruas. Quando estou no carro, tenho ainda mais nervoso disso.

4. Pontos: Os motoristas deixam para frear em cima da hora, em vez de ir desacelerando um pouco antes dos pontos. Isso quando eles não passam direto. Às vezes, a pessoa simplesmente não tem direito de descer do ônibus que ela está. Ou de pegar o ônibus que ela precisa. Isso cabe ao motorista decidir.

5. Climatização: Quando não tem ar-condicionado, parece que é um instrumento de tortura, tanto para os passageiros, quanto para os motoristas. Fica todo mundo com aquela cara de morte. E quando ta lotado!? Vai todo mundo agarradinho, fazendo uma sauninha... ê, que delícia! Quando tem ar, é ótimo. A não ser que o motorista resolva deixar aquela droga com 17º, aí a sauna vira geleira e eu saio de lá com nariz vermelho.

6. Vômito: Além de eu já ter magicamente sentido esse cheiro em mais de um ônibus, é com essa vontade que saio de lá. Os motoristas aceleram e freiam, aceleram e freiam. E, em uns, ainda tem aquela TVzinha. Não dá pra ser feliz assim.



Por esses e outros motivos, cada vez estou mais de saco cheio dessa cidade que tanto amo. Não consigo mais ficar relaxada aqui, nem na praia, onde eu mais deveria ficar. A gente tem que caminhar atento, deitar na areia atento, porque pode ser que nos roubem. Os preços estão todos absurdos. Quatro reais numa garrafa d’água? Seis em um coco??? Isso é uma palhaçada! E isso na praia, agora se a gente for falar de restaurantes, cruz credo. Não vou nem para esse patamar, pelo menos não nesse texto.



Acontece que nós, cariocas, moradores do Rio e brasileiros, sofremos todos os dias com o “público”. Transporte, saúde, segurança... ta tudo errado. Eu não gosto quando falam que o Brasil é uma merda, mas os argumentos para defender meu país, ainda mais minha cidade, estão ficando difíceis! Brasil, eu te amo e não te trocaria por nada (pelo menos não durante toda minha vida). Rio, eu te amo e você é a cidade mais linda desse mundo! Mas fica difícil viver assim.

Marina Martins

https://www.youtube.com/watch?v=bQM-vP5BcGw - Coloquem para tocar, quando quiserem lembrar que o Rio é gostoso, mesmo enchendo o saco. 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Cinema.





- Eu faço Engenharia na UFRJ.
- Caramba, que legal! Nossa, deve ser muito difícil, né?
Nas entrelinhas: se deu bem, vai ser rico.
- Eu faço Direito na UERJ.
- Nossa, parabéns, que máximo!
Nas entrelinhas: que gênio, vai ser rico.
- Eu faço Medicina na UFRJ.
- Uau! Passou de primeira? Vai para que área?
Nas entrelinhas: que máximo, que inteligente, vai ser rico.
- Eu faço Economia na PUC.
- Po, parabéns, mandou bem!
Nas entrelinhas: quer ser e vai ser rico.

Sim. As “entrelinhas” que escrevi são completos estereótipos do que as pessoas pensam quando ouvem sobre essas profissões. Mas, em um sistema capitalista como o que vivemos, ser rico é bom. Então, esses pensamentos, mesmo que você que esteja lendo isso não pense assim, são bons. Muitas vezes a gente nem pensa assim, mas acaba brincando com isso e também levando na brincadeira. Citei essas quatro profissões porque, assim como as “entrelinhas”, elas são um estereótipo: dinheiro. É comum a gente pensar que quem está cursando-as será bem sucedido. Muito melhor sucedido do que uma estudante de... cinema.

- Eu faço Cinema na PUC.
O que costumo escutar:
- Caramba, corajosa!
Nas entrelinhas: coitada, é corajosa, porque escolheu ser pobre.
- Que legal! Eu pensei em fazer cinema, mas... é... sei lá.
Nas entrelinhas: ... mas escolhi não ser pobre.
- Uau! Eu quis fazer cinema, mas meu pai não deixou.
Nas entrelinhas: meu pai não quis que eu fosse pobre.
- Mas você vai ficar no Brasil mesmo?
Nas entrelinhas: tem que ir pra Hollywood, menina, senão vai ser pobre.
- Nossa, que máximo, cinema, uau! Que legal você é!
Nas entrelinhas: nossa, ela só deve ver filme cabeça, deve saber sobre todos os diretores do mundo, deve ser muito cult.
- Nossa, profissãozinha difícil essa que você escolheu, heim? – Ouvi essa hoje, de uma desembargadora que disse ter preconceito contra o cinema brasileiro e se recusa a ver qualquer filme do próprio país. Não precisa de entrelinhas, ela já foi bem sincera.

Você talvez esteja se perguntando onde eu quero chegar com tudo isso. Pois é. Acontece que eu não escolhi uma carreira “normal”. Das duas uma: ou a pessoa sente pena da minha futura pobreza e da vida difícil que eu terei, ou ela me acha extremamente foda. Claro que eu estou dramatizando um pouco, existem as exceções – ainda bem –, mas, como são exceções, obviamente não é o que vejo na maior parte das vezes. Eu prefiro que me achem muito cool por fazer cinema do que tenham pena do futuro não promissor que terei na minha vida, mas não tem como a pessoa ter uma reação normal? Poxa, seria muito melhor se a pessoa em questão achasse só legal, em vez de me achar alguém extremamente conhecedora do mundo cinematográfico ou de achar que serei sustentada por meus pais pelo resto da vida!

Desculpe decepcionar, mas não é só porque eu faço cinema, que eu já tenho visto todos os filmes, clássicos e não clássicos, do mundo. Não é só porque eu faço cinema que eu goste de todos os filmes conceituais e experimentais. Que eu conheça todos os diretores do Leste Europeu. E da Ásia. Que eu seja viciada em Cinema Alemão. Que eu queira fazer besteiróis brasileiros. Ou que eu queira ir pra Hollywood fazer filmes comerciais. Eu só tenho 19 anos, uma faculdade e uma vida inteira pela frente para conhecer mais sobre o mundo cinematográfico. Também não é só porque eu escolhi ser cineasta que eu vá ser dura. Que eu seja maconheira (detesto essa palavra). Que eu seja hippie. Que eu não consiga realizar meu sonho.

Qual seria a saída, então? Escolher uma profissão que eu goste médio, ou que eu não goste, só porque tenho mais chances de fazer dinheiro com ela? Eu odeio exatas (elimina Engenharia e Economia). Fico enjoada com sangue (tchau, Medicina). Não ia suportar passar o dia sentada num escritório, usando salto (não serei executiva). Pronto, não posso mais ser rica. História, teatro, psicologia... tudo coisa de pobre. Aí eu vou e escolho cinema. Credo, pior ainda né?

Os estereótipos são coisas muito chatas e eu fico completamente incomodada com eles diariamente. É só eu falar que faço cinema que eles pulsam das veias dos desconhecidos – e de muitos conhecidos. Ainda bem que meus pais sempre me apoiaram na profissão que eu escolhi para ser. Eu nunca escutei deles “tem certeza?”. Nunca. Agradeço imensamente por ter tido a “liberdade” (que na verdade é um direito) de ter escolhido algo que me faça feliz e que me deixe apaixonada. De vez em quando, escuto muito o quão dura e pobre serei e vou conversar com a minha mãe, desesperada. Minha terapeuta também já escutou muito. Eu costumo não me importar com o que dizem sobre mim, mas chega uma hora que a insegurança vem – e vem bem forte. Eu começo a pensar que eu nunca vou poder ser o que sonho em ser, que não vou poder ter os filhos que queria ter, que não vou poder mais viajar... Os estereótipos já me proporcionaram muitos momentos de desespero. Mas agradeço por ter pais que confiem em mim e dizem que têm certeza de que serei uma ótima profissional. Graças a eles, a amigos e a familiares, eu continuo tendo a esperança de que vou ser feliz, milionária, rica, ou dura, se eu fizer o que amo. E eu acredito nisso.

Eu sou uma pessoa normal e adoraria que a minha futura profissão fosse também. Cineasta não é duro, não é maluco, não é gênio, é uma pessoa normal. E, em como toda e qualquer carreira, há profissionais bons e ruins, ricos e pobres, inteligentes e idiotas. Toda carreira carrega seu estereótipo, mas eu me incomodo muito com os da minha. Ou pelo menos como eu os sinto. Se não existissem os médicos, muitas pessoas teriam morrido. Se não existissem os engenheiros, muitas construções teriam caído. Se não existissem os cineastas, não haveria cinemas e muitos casais deixariam de se formar. Não teríamos Tropa de Elite, Cidade de Deus, Poderoso Chefão, Pulp Fiction, Manhattan, E.T., Volvér, American Pie, Meninas Malvadas, High Scool Musical, Psicose, Sexto Sentido e eu poderia passar o resto da minha vida nessa lista. Eu faço cinema e não sou uma pessoa “extra-ordinária” por causa disso. E nem pretendo ser. Eu faço porque amo e dispenso estereótipos. Desejo ser apenas admirada como profissional e pelo meu talento, e não estereotipada por isso. Fim de história.

Marina Martins, em momento de desabafo.

Obs: aproveito para deixar o link de um vídeo que eu fiz para um trabalho:
https://www.youtube.com/watch?v=rUFovcI80iY&sns=fb 

segunda-feira, 31 de março de 2014

Mais um outro de machismo.



O título é esse porque já tenho um texto chamado “Mais um de machismo”. Já que me estresso constantemente com essa palhaçada, tenho vários textos sobre o assunto e tudo o que está relacionado a ele. Com toda essa campanha contra estupro, depois da pesquisa que saiu, não podia ser diferente. Aqui estou eu, escrevendo mais um outro de machismo. Hoje de manhã, ao entrar no Facebook, já me estressei com uma imagem:







Queria dizer que há uma diferença tremendamente grande entre moda e campanha. Gostaria de saber desde quando lutar pelos direitos (mais básicos) da mulher é uma modinha. Por favor, né! Se uma CAMPANHA dessas existe, é porque, infelizmente, tem um motivo. E que bom que várias mulheres (e homens) estão participando dela, postando fotos dizendo algo extremamente simples, óbvio e básico: Ninguém merece ser estuprada. Também queria dizer que, se alguma mulher diz que homens bonitos podem estuprá-la, essa mulher tem sérios problemas psicológicos e sexuais. Não interessa se é bonito ou feio: se forçou, já não pode. Até porque, se você quer que alguém te estupre, é porque você quer transar com essa pessoa. Essa frase é burra e não faz sentido. Ninguém quer fazer nada a força. Ninguém quer comer o que não gosta. Ninguém quer estudar o que detesta. Ninguém quer transar com quem não sente vontade. Simples assim. Não entendo a dificuldade de certas pessoas de entenderem isso.



Mulher nenhuma facilita estupro. Se há mulheres que gostam de fazer sexo com várias pessoas diferentes por dia e ao mesmo tempo, isso é um direito delas. Mas como já falei, no momento em que alguém é forçada, não é mais direito nenhum de ninguém. O fato de uma mulher usar fio dental na praia não quer dizer que ela quer se mostrar para os homens. Já parou pra pensar que ela pode estar com a autoestima lá em cima e acha a bunda dela linda? Se uma mulher anda de shortinho enfiado no bumbum, isso não quer dizer que ela está dando a entender nada. Se você acha isso vulgar, ok. Mas em hipótese nenhuma isso é motivo para achar que ela quer ser abusada. Muitas vezes, a mulher se veste para ela e não para quem vai cruzar com ela na rua.



Roupa não faz diferença. Quando estou de calça jeans, homens mexem comigo. Quando estou de vestido longo, homens mexem comigo. Quando estou de saída de praia, homens mexem comigo. Quando estou saindo da ioga, homens mexem comigo. Quando estou de moletom, homens mexem comigo. Se eu me vestir de homem, homens vão mexer comigo. Não importa o que estou vestindo, vou atrair olhares indesejados de homens na rua, que não têm o menor respeito para com as mulheres. São os homens que acham que a gente gosta de ficar ouvindo “psiu”, “fiufiu”, “gostosa”, ou, como já aconteceu comigo “se tu fosse minha namorada, não saía da cama nunca”. Alguém acha que me senti bem ouvindo isso? Eu quase chorei de raiva. A minha vontade era de voar em cima do cara e dar um chute certeiro nele. Mas não disse nada. Tive medo.



Medo. É assim que a gente anda na rua. A gente tem medo de reagir quando mexem com a gente. A gente tem medo de sentar do lado de homens no ônibus. Eu tenho medo de pedir para um homem sair do vagão feminino no metrô. Tenho medo de receber entrega quando estou sozinha em casa. Tenho medo de discutir com taxista machista. Minha mãe tem medo que eu pegue ônibus de short curto, porque vou chamar atenção. Olha isso! Eu tenho que ter MEDO de sair de short porque os homens vão me respeitar menos. E o pior disso tudo: vão mesmo. Eu já troquei minha roupa porque me senti insegura. Já estiquei a saia porque o cara do meu lado tava olhando. Já troquei de lugar porque o cara me perguntou as horas enquanto olhava para minha coxa. Um dos meus maiores medos é ser estuprada e isso não ta certo. As meninas e mulheres não têm que andar na rua com medo de serem tocadas e chamadas por quem não querem. Por pessoas sem respeito, educação e noção. Por tarados, pervertidos e doentes. Nesse texto, citei algumas situações pelas quais passei e afirmo que muitas e muitas mulheres passam por isso diariamente. Até hoje, não conheci nenhuma que goste.



Desejo, do fundo do meu coração, que essa palhaçada de jogar a culpa na mulher acabe. Que na próxima pesquisa, esse bando de incompetentes e ignorantes respondam que, EM NENHUMA HIPÓTESE, a vítima tem culpa. De nada! Ninguém pede pra ser assaltada por falar no celular, assim como ninguém pede pra ser estuprada quando usa roupa curta. Ou biquíni. Ou calcinha. Ou cueca. Ou burca. Ou pano. Ou véu. Ou manta. Ou qualquer coisa. A culpa não é nossa. E vivam os feministas e as feministas que apoiam as mulheres na luta por nossos direitos, em pleno ano de 2014. De burca ou roupa rasgada, ninguém merece ser estuprada.

Marina Martins

quarta-feira, 12 de março de 2014

Josés.

Texto escrito baseado na imagem abaixo, para a aula de Técnicas de Comunicação. Era um concurso para ganhar meio ponto. Não ganhei, mas acabei gostando do textinho, então resolvi compartilhar.



Havia passado a noite jogado em um canto, com uma garrafa vazia de 51 e uma sacola debaixo da cabeça, fazendo-a de travesseiro. Não acordou assim que o sol apareceu. Resmungou e colocou a sacola em cima dos olhos, para espantar a claridade. Conseguiu dormir por mais ou menos uma hora. Quando o sol começou a incomodar, levantou-se e começou a andar, cambaleando de sono e bebida. Procurando onde sentar, encontrou um banco onde tinha um homem sentado.

- Se o senhor me dá licença, vou me sentar um pouquinho. É que to cansado, sabe? Corpo cansado, cabeça cansada, em mim ta tudo cansado. E o senhor, cansou também? Ta aí desde ontem... eu to também. Tava encostado ali nas pedras, o senhor deve ter visto. Eu sempre encontro uma “pedra no meio do caminho” para me acolher quando to mal, sabe? O senhor deve ta se perguntando: “se esse desgraçado passou a noite inteira deitado, como é que pode ta cansado?”. Pois é... é que além de cansado, eu to triste, sabe. Meu dia ontem não foi fácil. O senhor deve ta pensando “isso só pode ser por causa de mulher...”. E não é que é mesmo, seu... seu... Como é que é teu nome heim?

Sem obter alguma resposta, decidiu continuar falando mesmo assim.

- Já que o senhor não responde, eu vou te dar um nome. Posso te chamar de José? O senhor tem mó cara de José. Aliás, me chamo Carlos. Prazer, seu José. Olha só, eu tava falando que tava triste por causa de mulher né? Pois é. Mas não é qualquer mulher não, seu José. É minha mãe. Perdi ela anteontem. Aí ontem, depois do enterro, fui pra casa. Botei um trapo qualquer, desisti de dormir, saí na rua. Bebi que nem um condenado, já passou a noite e eu continuo bêbado. To sujo, to fedendo, mas é porque to triste. Me responde, seu José, “por que Deus permite que as mães vão-se embora”? “Mãe é eternidade”, seu José. “Por que Deus se lembra de tirá-la um dia?” Minha mãe era tudo pra mim. Me apoiava em tudo o que eu fazia, seu José. Quando eu tava desempregado, me ajudou a achar emprego. Ela era faxineira, conseguiu me colocar de porteiro em um prédio perto do que ela trabalhava. Provavelmente to desempregado de novo. Não apareci ontem no trabalho, não atendi o telefone. Não sei nem onde é que ta meu telefone, seu José. Acontece que, sem minha mãe, acho que não sou ninguém. Eu morava com ela até hoje, sabe? E era o único filho. Meus irmãos não estão mais com a gente. Um morreu, outra sumiu. Aí né, a mulher vai e infarta. Minha mãe. Infartou! No meio da faxina, morreu. Quando soube da notícia, pensei em me matar junto com ela, mas não matei não. Tentei ser forte. Mas fiquei fraco. Mas morrer, não morri. Sabe de uma coisa, seu José? “Se eu fosse Rei do Mundo, baixava uma lei: Mãe não morre nunca”. O senhor já perdeu sua mãe, seu José? Já, né? É muito triste, não é? Não sei o que vai ser de mim agora. Meu apoio foi embora... “E agora, José?” Que que eu faço da minha vida? Não tenho mulher, não devo mais ter emprego, não tenho mais mãe... Vou chegar pra procurar emprego todo mal vestido, carregando sacola? Alguém vai me escolher? Preto, pobre, favelado... não é isso que o Brasil quer. O Brasil quer alguém assim como o senhor; roupa engomada, sapato arrumado, óculos no rosto e livrinho na mão. Eu nunca li nenhum livro, seu José. É muito difícil ser pobre no Brasil, seu José, muito difícil. Vou ver se vou pra casa tomar um banho. Posso te pedir uma coisa, seu José? Reza por mim. Eu rezo pelo senhor também. Desculpe ter te incomodado, mas obrigado pela sua atenção. Quem sabe a gente não se cruza de novo, né não seu José?

No dia seguinte, Carlos descobriu que não tinha perdido o emprego e que, fazendo força, conseguiria viver sem sua mãe. A caminho do trabalho, resolveu saltar antes e caminhar pela orla de Copacabana. Estava tão bêbado e angustiado no dia anterior, que nem lembrou-se de sua conversa com a estátua do poeta. Viu a estátua, achou bonita e continuou a andar com seu uniforme azul. Carlos era só mais um José.

Marina Martins

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Ange ou Démon

Você é um anjo
ou uma assombração?
Os cabelos louros...
os olhos azuis...
Aparência?
Enganação?

As vontades de vê-lo,
as outras de matá-lo,
de vê-lo para beijá-lo,
de vê-lo para dar-lhe tapas!

Aquele que me desconcerta
e faz as rimas saírem imperfeitas.
Versos soltos, descombinados,
diferentes daqueles primeiros...
lembra?
Você nem leu.
Não te mostrei.
Não entenderia.

Suas rimas se foram
para um outro
e para o outro,
quiçá quantos outros,
quantas outras
amigas
outros
amantes
outros
amores...
(Ainda consigo fazê-las?)

Pode aparecer nos meus sonhos,
anjo.
Mas pare de me
assombrar.

Marina Martins