terça-feira, 20 de maio de 2014

329

Dos encantos do Carioca



As pernas pulam
Inquietas
E não param
Quietas
Um segundo que seja.
Aliás,
Param.
Mas o corpo continua
Em um rebolado único.
O sorriso charmoso e
Branco
Se destaca na linda pele
Negra.
Nossos olhos são lentos
Em comparação aos corpos inquietos.
Nossas bocas abertas
Esquecem de se fechar,
Surpresas.
Além do gingado,
O charme na ironia,
Na brincadeira.
A beleza deles
Se confunde com a da dança.
Ou a da dança
Se confunde com a deles?
Poderiam ver
E chamar
De break dance.
Mas no Rio, o nome é mais simples:
Chamamos de passinho.
 
Marina Martins

328

Por favor

Por favor,
paciência,
me dá
forças,
me traz,
por favor.

Por favor,
me traz
forças,
me dá
paciência,
por favor.

Marina Martins

327

(sem título)

você me toca
mas não fisicamente
- infelizmente

Marina Martins

segunda-feira, 12 de maio de 2014

O Otimismo e suas Vantagens



Na verdade, abri o Word para estudar, mas acabei me inspirando para escrever isto aqui depois de lavar louça. Sentei para estudar Schopenhauer, filósofo pessimista, que afirma que o mundo é de todo cruel. Somos todos infelizes e, quando achamos que estamos felizes, voltamos ao nosso estado de infelicidade. Para vivermos bem, temos que ser ascéticos, ou seja, nos livrar de todas as nossas vontades. To-das. Resumindo, é isso. Também estou estudando a filosofia de Nietzsche, filósofo trágico. Trágico porque aceita a descrição do caos e da vida sem sentido. O livro aborda os dois pensamentos e se chama O Pessimismo e suas Vontades. Eu estou gostando de aprender sobre eles, estou gostando do livro, das aulas sobre eles, mas isso não quer dizer que eu concorde. Pelo contrário.

Hoje, a professora disse, em aula, que a melhor coisa da vida é a morte. Schopenhauer também pensava assim. Ela também disse que sortudos são aqueles que morrem aos 18 anos. E que todo dia ela pede a Deus para morrer. Se você pensou “uau”, essa foi a reação que tive também. E “que pena”, porque, realmente, é uma pena alguém pensar assim. Ainda bem que eu e grande parte dos seres humanos não pensamos dessa forma.

Por que eu pensei nisso tudo lavando a louça? Bom, a Jane, que trabalha aqui em casa às terças e quintas, não vem amanhã por conta da greve dos ônibus. Assim, minha mãe falou: “a pia é toda sua”. Normalmente, segundas e quartas à noite são os dias que podemos nos liberar dos pratos, mas hoje eu tive que me responsabilizar por eles. E pelas panelas, copos, potes, enfim. Já que eu tinha bastante louça para lavar, peguei meu sonzinho, conectei meu iPod e deixei tocar umas músicas bem dançantes. Se um desconhecido me espiasse pela janela da cozinha, ia achar que eu tinha tomado um ácido e estava numa rave. Particular. No claro. Desastrada que sou, me surpreendi por não ter quebrado nada. E lá estava eu, na maior vibe, dançando ao som de “I follow rivers”, “Elle me dit”, “Waka Waka” (tão nostálgica!) e algumas outras. Eu transformei uma coisa que poderia ser chata em algo bem mais prazeroso e divertido. Me livrei do tédio, do qual tanto fala Schopenhauer.

Enquanto estava escrevendo esse texto, minha mãe apareceu no meu quarto me oferecendo um “sorvetinho de doce de leite”. Hesitei, mas acabei aceitando. Ela entrou de novo, com o “sorvetinho” na mão e disse “com amor”. Minha mãe fez o simples ato de me dar um sorvete se tornar algo amoroso. Para Schopenhauer, o amor é pura ilusão. Minha professora disse que quem acredita nele é inocente. Tudo bem, eles dizem isso se referindo ao amor romântico, mas achei válido citar aqui.

Eu sou uma pessoa feliz. Quando eu era pequena, meus pais me falaram, um dia: “Nossa, Nina, como você ta feliz!” e eu respondi: “Eu sou uma criança feliz”. E sabem de uma coisa? Isso não era ilusão, muito menos inocência de criança. Por mais que existam problemas, momentos tediosos e infelizes, eu sou uma pessoa privilegiada. Tenho comida no prato todo dia, estudo em uma Universidade que adoro, tenho um namorado que me ama de verdade (olha só, a inocente aqui acredita no amor romântico, que boba!), amigos que me amam, família que me ama e eu amo todos eles de volta... e eu vou ficar perdendo o meu tempo reclamando de barriga cheia? Por favor, né! É claro que tenho meus momentos de pessimismo, de angústia, mas ainda bem que não sou todos. E nem a maioria. Nem perto disso! E se isso tudo de vida feliz é uma bobagem... como é bom ser boba!

Marina Martins

domingo, 11 de maio de 2014

Rio, você foi feito pra mim?




Eu amo a minha cidade. Por sua beleza inigualável, ela realmente merece o “apelido” de Cidade Maravilhosa. Já dizia Jobim, “Rio de sol, de céu, de mar” e minha alma, assim como a dele, canta quando vejo o Rio de Janeiro e eu sempre morro de saudades, quando estou longe há muito tempo. Andar de ônibus pela praia, enquanto ouço samba ou bossa nova, parece até montagem de cinema, é um poema aos meus olhos e ouvidos! Mas nessa frase, já trago o primeiro problema que faz eu me irritar com o Rio que tanto amo: “andar de ônibus”.



Eu não dirijo, então me locomovo pela cidade de seis outras formas: andando, de ônibus, de metrô, de frescão, de taxi ou de carona. Como nem sempre tem o último, o penúltimo é caro, o antepenúltimo também e o metrô não me deixa em qualquer lugar, para ir de um lugar a outro, diariamente, pego ônibus ou vou andando. Aí moram dois problemas.



O Rio de Janeiro é perigoso e violento, ainda mais para uma mulher, que é ainda menos respeitada. Quando estou andando, coisa que adoro fazer, tenho que olhar para todos os lados, o tempo inteiro, para ver se tem alguém “suspeito”. Não posso mexer no celular. Não posso andar em locais desertos e escuros, pois corro sérios riscos de ser assaltada ou, pior, estuprada. Em qualquer lugar da cidade e hora do dia, ando com medo. Medo. É com esse sentimento que o carioca é obrigado a conviver cotidianamente. Quando ando de ônibus, até me sinto mais segura em relação a assaltos. Mas nem tanto. Eu evito pegar o celular, por exemplo. Só que, na minha opinião, os maiores problemas do ônibus são outros:



1. Respeito: Esse engloba todos os outros. Os passageiros não respeitam os passageiros. Os passageiros não respeitam o motorista e o cobrador. O motorista não respeita os passageiros. E assim somos locomovidos dentro de um ciclo vicioso de completa falta de respeito.

2. Velocidade: Não é a toa que nossos motoristas de ônibus são chamados de pilotos. Eles acham que estão dirigindo um avião. E eu tenho medo que um dia o sonho deles seja realizado e aquela droga voe. Os passageiros já voam dentro daquele foguete, um cai em cima do outro, é uma beleza. A cada freada, uma voada. Quanta diversão!

3. Trânsito: Toda hora acho que meu ônibus vai bater, acho que já fiquei paranoica. É cada fino que ele tira dos carros e de outros ônibus! Os motoristas acham que têm muito poder dentro daquela coisa enorme e saem fechando os carros pelas ruas. Quando estou no carro, tenho ainda mais nervoso disso.

4. Pontos: Os motoristas deixam para frear em cima da hora, em vez de ir desacelerando um pouco antes dos pontos. Isso quando eles não passam direto. Às vezes, a pessoa simplesmente não tem direito de descer do ônibus que ela está. Ou de pegar o ônibus que ela precisa. Isso cabe ao motorista decidir.

5. Climatização: Quando não tem ar-condicionado, parece que é um instrumento de tortura, tanto para os passageiros, quanto para os motoristas. Fica todo mundo com aquela cara de morte. E quando ta lotado!? Vai todo mundo agarradinho, fazendo uma sauninha... ê, que delícia! Quando tem ar, é ótimo. A não ser que o motorista resolva deixar aquela droga com 17º, aí a sauna vira geleira e eu saio de lá com nariz vermelho.

6. Vômito: Além de eu já ter magicamente sentido esse cheiro em mais de um ônibus, é com essa vontade que saio de lá. Os motoristas aceleram e freiam, aceleram e freiam. E, em uns, ainda tem aquela TVzinha. Não dá pra ser feliz assim.



Por esses e outros motivos, cada vez estou mais de saco cheio dessa cidade que tanto amo. Não consigo mais ficar relaxada aqui, nem na praia, onde eu mais deveria ficar. A gente tem que caminhar atento, deitar na areia atento, porque pode ser que nos roubem. Os preços estão todos absurdos. Quatro reais numa garrafa d’água? Seis em um coco??? Isso é uma palhaçada! E isso na praia, agora se a gente for falar de restaurantes, cruz credo. Não vou nem para esse patamar, pelo menos não nesse texto.



Acontece que nós, cariocas, moradores do Rio e brasileiros, sofremos todos os dias com o “público”. Transporte, saúde, segurança... ta tudo errado. Eu não gosto quando falam que o Brasil é uma merda, mas os argumentos para defender meu país, ainda mais minha cidade, estão ficando difíceis! Brasil, eu te amo e não te trocaria por nada (pelo menos não durante toda minha vida). Rio, eu te amo e você é a cidade mais linda desse mundo! Mas fica difícil viver assim.

Marina Martins

https://www.youtube.com/watch?v=bQM-vP5BcGw - Coloquem para tocar, quando quiserem lembrar que o Rio é gostoso, mesmo enchendo o saco. 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Cinema.





- Eu faço Engenharia na UFRJ.
- Caramba, que legal! Nossa, deve ser muito difícil, né?
Nas entrelinhas: se deu bem, vai ser rico.
- Eu faço Direito na UERJ.
- Nossa, parabéns, que máximo!
Nas entrelinhas: que gênio, vai ser rico.
- Eu faço Medicina na UFRJ.
- Uau! Passou de primeira? Vai para que área?
Nas entrelinhas: que máximo, que inteligente, vai ser rico.
- Eu faço Economia na PUC.
- Po, parabéns, mandou bem!
Nas entrelinhas: quer ser e vai ser rico.

Sim. As “entrelinhas” que escrevi são completos estereótipos do que as pessoas pensam quando ouvem sobre essas profissões. Mas, em um sistema capitalista como o que vivemos, ser rico é bom. Então, esses pensamentos, mesmo que você que esteja lendo isso não pense assim, são bons. Muitas vezes a gente nem pensa assim, mas acaba brincando com isso e também levando na brincadeira. Citei essas quatro profissões porque, assim como as “entrelinhas”, elas são um estereótipo: dinheiro. É comum a gente pensar que quem está cursando-as será bem sucedido. Muito melhor sucedido do que uma estudante de... cinema.

- Eu faço Cinema na PUC.
O que costumo escutar:
- Caramba, corajosa!
Nas entrelinhas: coitada, é corajosa, porque escolheu ser pobre.
- Que legal! Eu pensei em fazer cinema, mas... é... sei lá.
Nas entrelinhas: ... mas escolhi não ser pobre.
- Uau! Eu quis fazer cinema, mas meu pai não deixou.
Nas entrelinhas: meu pai não quis que eu fosse pobre.
- Mas você vai ficar no Brasil mesmo?
Nas entrelinhas: tem que ir pra Hollywood, menina, senão vai ser pobre.
- Nossa, que máximo, cinema, uau! Que legal você é!
Nas entrelinhas: nossa, ela só deve ver filme cabeça, deve saber sobre todos os diretores do mundo, deve ser muito cult.
- Nossa, profissãozinha difícil essa que você escolheu, heim? – Ouvi essa hoje, de uma desembargadora que disse ter preconceito contra o cinema brasileiro e se recusa a ver qualquer filme do próprio país. Não precisa de entrelinhas, ela já foi bem sincera.

Você talvez esteja se perguntando onde eu quero chegar com tudo isso. Pois é. Acontece que eu não escolhi uma carreira “normal”. Das duas uma: ou a pessoa sente pena da minha futura pobreza e da vida difícil que eu terei, ou ela me acha extremamente foda. Claro que eu estou dramatizando um pouco, existem as exceções – ainda bem –, mas, como são exceções, obviamente não é o que vejo na maior parte das vezes. Eu prefiro que me achem muito cool por fazer cinema do que tenham pena do futuro não promissor que terei na minha vida, mas não tem como a pessoa ter uma reação normal? Poxa, seria muito melhor se a pessoa em questão achasse só legal, em vez de me achar alguém extremamente conhecedora do mundo cinematográfico ou de achar que serei sustentada por meus pais pelo resto da vida!

Desculpe decepcionar, mas não é só porque eu faço cinema, que eu já tenho visto todos os filmes, clássicos e não clássicos, do mundo. Não é só porque eu faço cinema que eu goste de todos os filmes conceituais e experimentais. Que eu conheça todos os diretores do Leste Europeu. E da Ásia. Que eu seja viciada em Cinema Alemão. Que eu queira fazer besteiróis brasileiros. Ou que eu queira ir pra Hollywood fazer filmes comerciais. Eu só tenho 19 anos, uma faculdade e uma vida inteira pela frente para conhecer mais sobre o mundo cinematográfico. Também não é só porque eu escolhi ser cineasta que eu vá ser dura. Que eu seja maconheira (detesto essa palavra). Que eu seja hippie. Que eu não consiga realizar meu sonho.

Qual seria a saída, então? Escolher uma profissão que eu goste médio, ou que eu não goste, só porque tenho mais chances de fazer dinheiro com ela? Eu odeio exatas (elimina Engenharia e Economia). Fico enjoada com sangue (tchau, Medicina). Não ia suportar passar o dia sentada num escritório, usando salto (não serei executiva). Pronto, não posso mais ser rica. História, teatro, psicologia... tudo coisa de pobre. Aí eu vou e escolho cinema. Credo, pior ainda né?

Os estereótipos são coisas muito chatas e eu fico completamente incomodada com eles diariamente. É só eu falar que faço cinema que eles pulsam das veias dos desconhecidos – e de muitos conhecidos. Ainda bem que meus pais sempre me apoiaram na profissão que eu escolhi para ser. Eu nunca escutei deles “tem certeza?”. Nunca. Agradeço imensamente por ter tido a “liberdade” (que na verdade é um direito) de ter escolhido algo que me faça feliz e que me deixe apaixonada. De vez em quando, escuto muito o quão dura e pobre serei e vou conversar com a minha mãe, desesperada. Minha terapeuta também já escutou muito. Eu costumo não me importar com o que dizem sobre mim, mas chega uma hora que a insegurança vem – e vem bem forte. Eu começo a pensar que eu nunca vou poder ser o que sonho em ser, que não vou poder ter os filhos que queria ter, que não vou poder mais viajar... Os estereótipos já me proporcionaram muitos momentos de desespero. Mas agradeço por ter pais que confiem em mim e dizem que têm certeza de que serei uma ótima profissional. Graças a eles, a amigos e a familiares, eu continuo tendo a esperança de que vou ser feliz, milionária, rica, ou dura, se eu fizer o que amo. E eu acredito nisso.

Eu sou uma pessoa normal e adoraria que a minha futura profissão fosse também. Cineasta não é duro, não é maluco, não é gênio, é uma pessoa normal. E, em como toda e qualquer carreira, há profissionais bons e ruins, ricos e pobres, inteligentes e idiotas. Toda carreira carrega seu estereótipo, mas eu me incomodo muito com os da minha. Ou pelo menos como eu os sinto. Se não existissem os médicos, muitas pessoas teriam morrido. Se não existissem os engenheiros, muitas construções teriam caído. Se não existissem os cineastas, não haveria cinemas e muitos casais deixariam de se formar. Não teríamos Tropa de Elite, Cidade de Deus, Poderoso Chefão, Pulp Fiction, Manhattan, E.T., Volvér, American Pie, Meninas Malvadas, High Scool Musical, Psicose, Sexto Sentido e eu poderia passar o resto da minha vida nessa lista. Eu faço cinema e não sou uma pessoa “extra-ordinária” por causa disso. E nem pretendo ser. Eu faço porque amo e dispenso estereótipos. Desejo ser apenas admirada como profissional e pelo meu talento, e não estereotipada por isso. Fim de história.

Marina Martins, em momento de desabafo.

Obs: aproveito para deixar o link de um vídeo que eu fiz para um trabalho:
https://www.youtube.com/watch?v=rUFovcI80iY&sns=fb