quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

244

Cartão de aniversário à Isabella Nunes, mãe.

Exemplos do porquê de um exemplo

Um dia eu morei em sua barriga
E era você que me carregava
Desde o começo já éramos amigas
Pois você não reclamava quando eu te chutava

Quando eu morava em você
Já logo começava a dançar
Depois que nasci, pude entender
Que eu realmente tive a quem puxar

Até hoje você estimula em mim a cultura
E isso me acompanha desde pequena
Com todo seu carinho e sua doçura
Você me tornou amante de teatro e cinema

Você sempre me disse que eu seria artista
Independentemente da minha profissão
Mesmo se eu escolhesse ser cineasta ou estilista
Você sempre soube que eu usaria meu coração

Se tento disfarçar algo, não consigo
Você me conhece em todo estado de humor
Pelo menos seu colo sempre foi um abrigo
Nele sempre posso receber mais do seu amor

Você sabe que somos igualmente bagunceiras
Mas me importuna para eu arrumar meu quarto
Nem adianta você dizer que estou falando besteira
Pois uma prova disso é nosso closet de sapatos

Afirmo que você é o exemplo que vou seguir
Em vários momentos da minha vida
Até porque nunca deixarei de admitir
Que sempre fomos muito parecidas

Mesmo que eu reclame de certas coisas que você faz
Meu amor por você cresce a cada segundo
E mesmo que eu reclame, você sabe que sempre foi capaz
De ser, para mim, a melhor mãe do mundo

Marina Martins

243

À Yasmin Caravalho, à Bárbara Betts, às férias sem sol e a algumas outras coisas que vieram à cabeça após assistir a um filme.

A relação entre saudade e ansiedade

Quero voltar ao tempo
Quero que ele vá pra frente
Quero um novo momento
Quero repetir outro novamente

Quero que chegue quinta-feira
Quero que chegue fevereiro
Quero parar de falar besteira
Quero viver as férias primeiro

Quero que chegue o Carnaval
Quero que chegue terça que vem
Quero que chegue antes o Natal
Quero que o tempo não vá além

Quero voltar pra outubro
Quero muito ir à praia
Quero parar de querer tudo
Quero colorir aquela saia

Quero encontrar meu namorado
Quero sair para dançar
Quero gente do meu lado
Quero mergulhar no mar

Quero engolir minha ansiedade
Quero viver o presente
Quero parar de sentir saudades
Quero ver logo essa gente

Marina Martins, em um pequeno surto causado pela falta de sol e pela falta que está sentindo de uma prima e uma amiga.

Aos pequenos prazeres da vida.

À Beatrice Moss.

"Pedrinhas de areia"

Eu chego à praia e começo a passar meus pés descalços por cima de todas as pedrinhas de areia. Alegro-me pela presença de um grande número delas. Estico a canga no chão e sento-me sobre ela. Compro um Globo doce e um Matte Leão geladinho. Ao final do biscoito, devoro todos os farelos e me sujo com eles. Deito na canga. Começo a esfolar as pedrinhas de areia que estão debaixo dela. Aproveito cada etapa de seu esfolamento até chegar ao final. Depois, fico um pouco mais ousada e resolvo esfolá-las diretamente com minhas mãos, sem a canga por cima. Aproveito mais ainda seu esfolamento. Mas antes, dependendo do tamanho delas, faço um buraco no meio de uma, até ela se partir em duas e, dessa forma, esfolo as duas. Após um tempo de praia, levanto, sacudo minha canga esfarelada de farelos de polvilho e de areia, e volto a pisar nas pedrinhas de areia, esmagando-as pouco a pouco com meus pés, enquanto caminho de volta à calçada.

Sorvete e calda de chocolate

A sobremesa chega à mesa ao lado. Nós olhamos para o doce e depois nos olhamos, com sorriso e olhar cúmplices. “Você vai querer sobremesa?” “Acho que sim.”. Isto basta. Passamos o momento final de nossas comidas saboreando com os olhos a sobremesa da mesa ao lado. Então, finalmente chega a nossa hora. Pedimos o mesmo doce. Ele chega à mesa. Eu pego a jarrinha de calda de chocolate e a despejo quase por inteiro por cima do sorvete de creme. Minha pele se arrepia. Suspiro. Pegamos nossas colheres e enfim, pegamos o primeiro pedaço da sobremesa. Minha pele se arrepia. Ao final do doce, nos restam apenas um sorvete quase derretido e uma calda espalhada. Brincamos com os restos mortais e fazemos caminhos de chocolate e sorvete pelo prato. Divertimo-nos durante alguns minutos com a nossa brincadeira infantil, experimentando diferentes modos satisfatórios de mexer com a colher na calda e no soverte já derretido. Minha pele se arrepia. Ao final de tudo, paramos para pensar: o que deu mais prazer? Será que foi a sobremesa ou será que foi o que restou dela?

Marina Martins

O que esperar?

De mim, nada.

Não adianta sofrer pelo amanhã enquanto ainda se pode aproveitar o hoje. Sofrer pelo amanhã é válido quando esse amanhã já virou hoje. Mas, se isto tranquilizar, o amanhã, que virou hoje e faz sofrer, vai virar ontem, como tudo nesta vida. A vida é preenchida por passado, presente e futuro. Não adianta se lamentar do passado e nem querer revivê-lo, apenas relembrá-lo. Pode-se tentar copiá-lo, mas ele nunca será a mesma coisa, feliz ou infelizmente. Por isso, penso antes de falar, mas falo o que penso. Quem sabe assim eu me arrependo menos. Mas muitas vezes também penso demais e acabo não falando o que penso. Acabo me arrependendo. De que me adianta? Na maioria das vezes não vou conseguir voltar atrás, mas posso (e devo) seguir em frente. Como? Falando o que penso, mas pensando antes de falar. Talvez pensando um pouco menos.

Há quem diga que guardo muito meus sentimentos comigo. Verdade. Na maioria das vezes, eles se soltam de mim em forma de lágrimas. Às vezes em dança, música, teatro. De repente, enquanto eu não fale, nunca conseguirei livrar-me deles por completamente, tirar o peso e o espaço que ocupam. Muitos sonhos e nenhuma lógica, é assim que eu funciono. Vivo intensamente o presente, com a certeza de que ele vai virar passado, por isso sinto tudo tão profundamente. Alcanço cada pedacinho de sentimento, o que pode ou não ser bom. É assim que os filmes me fazem chorar, as músicas, às vezes as coisas mais bobas. Não tenho medo do futuro, e nem pressa para ele, tenho apenas curiosidade. De vez em quando, ansiedade, já que o futuro pode ser amanhã, semana que vem ou daqui a trinta anos.O que penso do meu futuro? Responderei quando ele for presente. Tentarei não pensar tanto antes de falar o que penso.

Mas é assim. Pretendo viver cada segundo por mais ou menos especial que ele seja, pois ele passa. Tudo passa, tudo passará. Por exemplo, alguém que eu tinha a certeza de que iria encontrar novamente, agora não tenho mais. Tenho a leve impressão de que sim, mas não é mais obrigação. Não acredito no destino propriamente dito. Não acredito que seja algo que nascemos com ele pronto, mas acredito que traçamos o nosso próprio. Nossas escolhas, nossas amizades, nossos amores, tudo isso faz com que construímos nosso destino, nosso futuro. Escrevo este texto falando o que penso, meio sem pensar e sem esperar. Não espero que gostem e nem que não gostem, não sei o que espero. Afinal, o que esperar do futuro se uma coisinha pode mudar em um piscar de olhos? É por essas e outras que pretendo, a partir de agora, pensar um pouco menos antes de falar.

Marina Martins

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

242

Dois Anos

Lembrou-se de quando algo cutucava seu interior
E ela distraía-se com a televisão
Atualmente não é mais sofrimento ou dor
Mas ainda sente-se melhor com o caderno na mão

Enquanto assistia ao programa semanal
Antes o desenho era a terapia
Não que hoje o desenho seja algo banal
Mas agora ela prefere a poesia

Agora sua memória confunde sua cabeça
E a coloca em algum outro mundo
Seus pensamentos estão às avessas
E se encontram em local profundo

São rostos que se embaralham
Com tipos diferentes de saudades
As diversas lembranças se espalham
Enquanto ela lembra que já está ficando tarde...

Marina Martins

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

241

Soneto da Alegria

Dizia no bilhete que ela partira
E que não sabia se iria voltar
Eu sentia tristeza, sentia ira
Não sabia como me explicar

Fiquei um tempo afundado em pensamentos
Sempre esperando a porta se abrir
Minha mente era uma confusão de sentimentos
Meu coração não sabia mais o que sentir

Mas um dia aconteceu o inesperado
A Alegria me voltava novamente
No aconchego de uma nova mulher

Finalmente me sentir de novo amado
E o final terminava com "felizmente"
Quando a Alegria rasgou aquele bilhete qualquer

Marina Martins

240

Peso

Se tudo importa
e todos se importam,
mas não se portam
e nem se comportam,
então melhor fechar a porta,
pois ninguém suporta
este tipo de suporte.

Marina Martins

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

239


Não gosto de nada que me remete a você

Não gosto de nada que me remete a você
Seja qualquer música ou filme
Seja qualquer vestígio de que um dia tive prazer
Quando você me beijava e me segurava firme

Não gosto de lembrar que vi você escrever
Versinhos de amor e poesia pra mim
Mas isso serviu para eu aprender
Que a vida não é feita de momentos só assim

Não gosto de olhar para algo e me lembrar
De que você um dia esteve perto
Dizendo que ia sempre me amar

E agora eu vivo escondendo esta tortura
De que meu coração não está mais aberto
A única coisa que restou foram suas rachaduras

Marina Martins

238

Eis a questão

Ser ou não ser?
O que ser
Ou não ser?
Ser o que
Quando crescer?
E não ser
Se não crescer?
Ser o que
E ser pra quê?
Ser somente por ser
Ou ser somente um ser?
Seja o que for?
Que seja!
Mas o que ser?

Marina Martins

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

237

Soneto de dança

Os pés descalços arrastam no chão
As mãos se balançam no ar
A barriga se mexe com a respiração
A boca inquieta quer cantar

Os olhos se fecham para ela sentir melhor
O corpo se move com calma
A mente acompanha o “lá-si-dó”
Os movimentos purificam sua alma

Pula e sente a gravidade
Rodopia e encosta no vento
Alegra-se como quando criança

Este instante da mais pura felicidade
É um simples e puro momento
Que depende de uns passos de dança

Marina Martins