segunda-feira, 29 de abril de 2013

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biblioteca

cabelos longos
longos cabelos louros
louros cabelos curtos
olhos azuis
verdes olhos
olhares
e as trocas deles
foco
e a falta dele
silêncio:
barulho de papeis

 Marina Martins

316

de grão em grão

seu primeiro grão de amor
cresceu
virou
meu primeiro grande amor

Marina Martins

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Nos braços da Rainha




Abençoado por Yemanjá, o mar me acolhe. Flutuo imersa num abraço caloroso e fresco, em uma imensidão indecisa entre o verde o azul. As ondas estouram tímidas, então ouço apenas minha respiração, distraída e relaxada. As nuvens, generosas com o sol, deixam ele queimar meu rosto, de forma delicada e gentil, enquanto as ondas vem e o afundam, refrescando-o. O céu é de um todo azul, deixando à mostra um princípio de Pedra da Gávea, escondidinha bem atrás dos Dois Irmãos. Com os ouvidos cobertos pela água, quase tudo some. Há somente eu, o barulho do mar e minha respiração, em total sintonia. Meu corpo em contato com uma natureza pura, selvagem e impecavelmente natural. Eu em perfeita harmonia com fogo (do sol), ar, terra e água, protegida pelo sol de Ipanema.

Marina Martins

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

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Chão

Somos dois corpos atirados no chão
Cansados após uma brincadeira infantil
Somos o silêncio preenchido por respiração
Não há nada em volta, o mundo sumiu

Nosso silêncio é o que diz mais de mil palavras
Mas também é o que esconde muitas delas
Naquele momento, enquanto te olhava
Só conseguia pensar nas que eram mais belas

Minhas mãos caminhavam por seu rosto
Acariciando-lhe, lhe dando arrepios
Via seu sorriso, enquanto meu encosto
Era o seu ombro, duro e macio

O momento passou, na memória o conservo
Mas por ter sido tão simples e envolvente
Fecho meus olhos enquanto escrevo
E mantenho a primeira estrofe no presente

Marina Martins

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Mudanças



Seus olhos já não brilhavam como antes

Sua voz não mais trazia tanta alegria

Seu abraço já não era reconfortante

Sua presença não melhorava mais o dia



Suas palavras deixavam de passar confiança

A cabeça trabalhava para tentar esquecer

E para um encontro, o que antes era ânsia

Tornava-se vontade de não querer mais ver



Os ouvidos não aguentavam mais mentiras

O silêncio queria gritar tristes verdades

Pois os encontros provocavam certa ira

E estar junto deixava de significar felicidade



As lágrimas do céu encostam gentilmente nas minhas

Tentar segurar o choro é árduo dever

Se tenho em mim uma parte que se sente sozinha

Mas, um dia, as outras partes conseguirão o prender

Marina Martins

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

313



Choro.

Choro. Penso naqueles cujos hospitais não têm cama,
Nas mães perdendo os filhos com um tiro,
Nos que, quando há chuva, têm as casas afundadas em lama,
Nas crianças que, com uma arma na mão, dão um último suspiro.

Choro, pois há pessoas que não sabem a própria idade,
Aquelas que, quando nascem, nascem sem certidão.
Choro, pois há pessoas sem pai na identidade,
Só há o nome da mãe no espaço de filiação.

Choro quando um pastor diz que homossexualismo tem cura,
Ou quando sei de meninas e mulheres estupradas.
Penso nos moradores de rua levando a vida na amargura,
Choro quando lembro que há crianças sexualmente abusadas.

Penso nos meninos e meninas que nas drogas se perdem,
Penso nos bebês que são paridos sem terem colo.
E quem deveria não faz nada, mesmo se eles pedem.
Enquanto isso, penso que por isso choro.

Marina Martins

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Mais um de machismo

Ta escrito e é em rosa!

E mais uma vez tenho um dia onde preciso me indignar com o machismo. Mais uma vez me irrito, me estresso, fico me lamentando. Tudo começa na Timóteo da Costa, a caminho do ponto de ônibus. Em frente a um prédio, há um grupo de quatro homens passando uma porta, ou uma placa, de vidro, do edifício para o caminhão. Paro ao lado do caminhão para atravessar a rua, estou no celular com o meu namorado. Ainda não atravessei a rua, então um deles me diz “Pode passar por aqui, já acabamos”. Ingênua e um pouco desligada, agradeço e passo entre os homens. Pra que? Enquanto um sorri pra mim com um sorriso nojento e tarado, o outro me diz “Que coisa mais linda”, com uma voz nojenta e tarada, e os outros dois aproveitavam antes dos colegas para apreciar a parte traseira do meu corpo. Não aguentei e comecei a falar bem alto no celular, para o meu namorado, o quanto aqueles homens eram idiotas e desrespeitosos.

Já esperando o ônibus na Visconde de Albuquerque, há uma Kombi vindo bem devagar. Já me preparei para o pior. E não é que estava certa? O pirralho que estava no banco do carona fez questão de dizer “Que coisa mais linda”, novamente com aquela voz tarada e nojenta. O moleque deve ter aprendido com o papai dele a ser grosso com as mulheres! E não adianta dizer que essas pessoas estão me elogiando, ou que eu estava com um short muito curto (eu uso a roupa que eu bem entender), ou que sou uma pessoa bonita mesmo... não se trata de nada disso. O que esses idiotas fazem é invadir o espaço das mulheres de maneira covarde e desrespeitosa, achando que elas não se importam em ouvir esses “elogios” que acabam se tornando ofensas. Não importa a roupa que estou vestindo, a maquiagem que estou usando, meu corte de cabelo... isso não é motivo para homem nenhum achar que está no direito de comentar sobre mim de maneira grosseira! Eu não ia me importar se qualquer pessoa me pedisse licença, me parasse na rua e dissesse “Só queria te dizer que você é muito bonita”. Isso sim seria um elogio! Aí sim eu agradeceria e continuaria bem, feliz, sem precisar me irritar com gente desrespeitosa.

E como se já não bastasse, pego o vagão das mulheres no metrô mais tarde, sentido Zona Sul. Que absurdo... Entro no vagão procurando um lugar para sentar e não acho. Quando me dou conta, há sim um lugar vazio. Andando para sentar no banco, sou interrompida por uma pessoa que é mais rápida do que eu. Ah, sim! Essa pessoa é um homem. Penso se vou pedir licença pra ele, se vou avisar que o vagão é de mulheres, se vou falar com ele. Mas assim como as outras mulheres, não digo nada. Tenho medo do que ele pode me responder, do que ele pode fazer. Não sei quem é ele, não sei o que ele pode ter na cabeça, ou na bolsa. As estações passam e fico eu lá, em pé perto dele, olhando pro rosto dele, muito indignada. Outro banco vaga, vou até lá, assim paro de ter que olhar pro imbecil sentado, enquanto uma mulher está em pé em seu próprio vagão.

Em cada estação, entram mais e mais homens. Fiscalização? Tem sim, mas apenas no sentido Zona Norte. No sentido que vai à Ipanema, os homens entram, sentam e deixam mulheres em pé. As mulheres entram COM os homens em um vagão que é DELAS. Ninguém olha, ninguém diz nada, ninguém faz nada. Não há guardas, não há fiscalização. Não seria mais simples alterar o vagão das mulheres para: FUNCIONAMENTO APENAS EM SENTIDO ZONA SUL? Para que inventar a merda de uma regra que não é cumprida? Ninguém se importa, ninguém se indigna! As próprias mulheres acham normal, não se incomodam e desrespeitam o seu PRÓPRIO direito. O vagão das mulheres poderia ter seu nome trocado para: vagão das mulheres, dos homens que fingem ser desligados, daltônicos ou analfabetos, e dos machistas. Ah, e dos poucos que realmente estão apressados e distraídos e se enganam, pois eles também existem e não fazem por mal.

Ao longo dos anos, sofremos tanto com o preconceito, que é cada vez mais vencido, mas que ainda existe... somos uma maioria tratadas como minoria insignificante em pleno século XXI. Tanta tecnologia, tantas mudanças e a cabeça das pessoas continua quase a mesma. Que vergonha. Precisamos ter nosso próprio vagão porque certos homens não conseguem respeitar nosso espaço e intimidade, então temos que nos manter longe deles, para que não haja assédios. Ainda assim, nem eles, e nem as próprias mulheres conseguem respeitar um espaço dedicado a nós. Mais uma vez o Brasil vai mostrando a cara e deixando mulheres, como eu, indignadas. Mais do que isso: envergonhadas de seu próprio país e da sociedade em que vivem. 

Marina Martins