terça-feira, 9 de junho de 2015

Don't let it bring you down

“Na PUC só tem cuzão”; “desprezo”; “PUC vai se foder”; “toda puquiana dá o cú e mama e senta no piru”. Algumas das coisas que eu soube e li que foram ditas nos JUCS (Jogos Universitários de Comunicação Social). Não, eu não fui ao evento, pelo simples motivo de que não é o tipo de evento que me atrai. Mas quando fiquei sabendo que houve denúncias de ESTUPRO, outros tipos de violência, além dos tristemente óbvios machismo, racismo e homofobia, decidi entrar na página “Spotted: JUCS”. Eu estou enjoada, com dor de cabeça e com choro preso. Alguns podem achar que sou sensível demais, chata, ridícula e eu não me importo. Eu só fico assim porque sei que esse tipo de coisa que acontece nesses JOGOS é errado, feio, triste ou até crime. Então a minha reação não me assusta. O que me assusta são as pessoas que tomam as atitudes que me machucam, mesmo eu não estando perto. Aliás, isso é o que mais vem acontecido ultimamente. Praticamente todos os dias eu fico triste por atos que não presencio, mas são como se me dessem um tapa na cara. Ou um soco no estômago.

Enfim, nessa página, alguém reclamou, anonimamente, de uma torcida que chamava as jogadoras adversárias de “puta feia”, “piranha”. A pessoa citou uma torcida, mas imagino que isso não ocorra só em uma. E depois falou de outra que se proclamava “só moleque estuprador”. No post, comentários como “se não gostou, vai pra igreja”, “gritei o jogo inteiro ‘gay’, ‘dá cu’”, “vai pra JMJ”, “não fode feminista chata do caralho”. Tais comentários feitos por homens e, pasmem, mulheres. Ah sim! E uma hashtag “turma do estupro”, acompanhada de um comentário “ano que vem vai ser pior”.

Vamos lá, por partes. Eu sou estudante da PUC com muito orgulho. Conheço muita gente bacana lá que está longe de ser “cuzão”. Generalizar os estudantes da PUC como ricos, segregacionistas, patricinhas e playboys preconceituosos está errado. Isso é preconceito. Eu adoro a minha faculdade e não me sinto representada por esse tipo de pessoas. E tenho certeza de que muita gente partilha da mesma opinião. Desculpa se eu estudo na PUC. Desculpa se eu não passei pra UFRJ e nem pra UFF. Desculpa se, se eu tivesse passado para a UFRJ, faculdade que acho incrível, eu não iria porque não tem curso de cinema (coisa que sempre quis que tivesse para eu poder tentar estudar lá). Desculpa se, se eu tivesse passado pra UFF, eu continuaria em dúvida entre ela e a PUC porque sempre tive um carinho enorme pela minha faculdade. Desculpa por estudar em uma faculdade particular e não me enquadrar num elitismo escroto. Desculpa por gostar muito do campus da PUC e dxs amigxs e colegas que fiz lá. Desculpa por dizer que gente escrota existe em qualquer faculdade. Que sorte a minha de poder estudar numa faculdade tão bonita, com tantos eventos legais e que, como todas, tem seus problemas. E que pena que ela seja representada nos Jogos por uma minoria preconceituosa que canta alto músicas racistas e elitistas. Universidades, faculdades e escolas superiores existem, se superam em alguns cursos, outros não, às vezes todos, têm mais e menos problemas, são públicas e particulares, são diferentes. E que bom que existem para – espera-se – formar bons intelectuais e profissionais. Que triste essa guerrinha entre faculdades. Que triste luta de classes. Que triste a desunião dos jovens universitários. Isso não é uma competição.

Mais cedo ou mais tarde, quem xinga e quem é xingado se cruzará no mercado de trabalho, nas agências, redações e produtoras da vida. Fico pensando que, se em jogos se tratam assim, como será que vai ser no trabalho? Acho que o jovem que hoje exalta o estupro e se orgulha de – ai que nojo de escrever isso – ser um estuprador, será o chefe que vai escolher as funcionárias pelo corpo e tentar comer elas (sim, com esse linguajar) através de chantagens ou ofertas melhores no emprego. Ou ‘pelo menos’ o chefe que vai dar cantadas diariamente nas funcionárias. Ou pior: estuprá-las. O jovem de hoje que ‘xinga’ alguém de gay – “xingar” e “gay” não cabem numa mesma frase para mim – será aquele que, na hora de contratar, não vai gostar da voz afeminada daquele profissional incrível e vai discriminar o outro porque é casado com um homem. O jovem de hoje que faz uso de xingamentos racistas vai ser aquele que vai preferir contratar o branco sem nenhuma experiência do que o negro com um currículo incrível. Que vai preferir alguém só porque é rico do que alguém que é pobre. Que tristeza.

Que tipo de juventude é essa que acha que orientação sexual, gênero, cor e tipo físico é xingamento? Que tipo de juventude é essa que não consegue participar de competições sem que haja troca de agressões verbais e físicas, violências psicológicas, físicas e sexuais? Que juventude é essa que vive em constante troca de ofensas, em constante luta de classes, generalização, pré-conceitos, preconceitos e desunião? São alguns desses os futuros geradores de mídias, entretenimentos. Fora os futuros advogados e médicos que também gostam de ofender nos Jogos Júridicos e nos de Medicina. Que juventude é essa? Nossa, estamos em 2015, e eu querendo voltar no tempo para ser jovem nos anos 60, 70, 80, até 90! Basta ver os protestos das Diretas Já! e dos Cara Pintada. Várias pessoas de diversas idades unidas, lutando todas pelo bem delas e de seu povo, pensando no melhor para sua sociedade. E aqui estamos hoje, repito, em 2015, tendo que ouvir XINGAMENTOS como preto, pobre, sapata, viado, puta, piranha e por aí vai. Será que os jovens se tornam mais conservadores à medida que o tempo passa? Qual o sentido disso? Que juventude é essa que ainda xinga com essas palavras? Na boa, quem são vocês? Quem somos nós? Quem é a maioria? Quem nos representa? Quem é quem?


Diante disso tudo, fui pegar o metrô hoje e coloquei meu iPod, para tentar me desligar do mundo. Coincidência ou não, apertei no shuffle e começou a tocar a música “Don’t let it bring you down” (Não deixe isso te deprimir), do Neil Young. Poderia ser uma cena de filme com a trilha sonora perfeita, mas foi real. Eu acabei de ler a tradução da música e me assustei com a coincidência. Deve ter sido o mundo, tão louco, me passando uma mensagem. Essa não é a juventude, futuros adultos profissionais, que quero trabalhar e conviver na minha vida. Esses xingamentos não me representam. Então, para quem sente a minha dor e tristeza diante de tudo isso, e até mais, repasso a mensagem que me foi enviada por uma energia maior, ou por uma incrível coincidência dada pelo meu iPod: “não deixa que isso te deprima, são apenas castelos queimando, encontre alguém que está mudando, que você dará a volta por cima”. Não deixemos que isso nos deprima. Algum dia –ah! ALGUM DIA! – nós daremos a volta por cima.

Marina N. Martins

terça-feira, 28 de abril de 2015

Um futuro feliz

Eu deveria estar estudando. Na verdade, estou. Só parei um segundo porque me inspirei. E nessas horas que a inspiração vem, não posso recusá-la, a vida me ensinou isso. Acabo de mostrar a primeira versão, ou copião, da edição de um curta que escrevi e dirigi para minha aula de Direção ao meu pai. Mais cedo, mostrei à minha mãe. A versão está incompleta e errada em algumas partes. Eles amaram. Mas amaram de verdade. Eu nem tinha amado tanto assim até vê-los amando. É que eu sou muito crítica com algumas coisas que faço – acredito que muitas pessoas sejam. Meu pai está até agora emocionado. Em vários aspectos da minha vida, eu sou muito decidida e segura. Nunca fui uma pessoa com problemas de autoestima. Mas em outros, a insegurança predomina por vários momentos e junto dela o nervosismo, a sensação de incapacidade. No entanto, as pessoas que me cercam conseguem me botar pra cima.

Fiz o meu curta com meu melhor amigo na câmera, uma amiga no som; minhas atrizes eram uma amiga do Tablado, uma amiga da faculdade, que é atriz, minha prima de 12 anos e minha irmã mais velha, atriz desde bem antes de eu nascer. E agora tenho um amigo fazendo uma trilha sonora especial para mim. Como diretora de primeira viagem, eu muitas vezes não sabia o que falar e todas essas pessoas que citei me ajudaram o tempo inteiro. Sem a ajuda delas, eu com certeza teria tido crises de choro e momentos de puro nervosismo. Mas isso não aconteceu. Eu nunca dirigi atores na minha vida e, no entanto, o resultado me deixou muito feliz. Ter minha irmã Juliana no meu primeiro curta é um marco na minha vida pessoal e profissional. Mas quem me surpreendeu mesmo foi minha prima Sofia, de 12 anos. Essa menina não faz teatro. Ela não tem o costume de decorar texto. Mas sua capacidade de decorar diálogos em minutos e sua expressividade me deixaram boquiaberta, como deixaram também a meus pais. Ela não precisou de uma diretora profissional para fazer o que fez. E fez. O meu feeling de escrever uma personagem pensando nela como atriz deu mais do que certo e estou orgulhosa disso. Ela é artista desde pequena. Ela, a mais nova da nossa equipe, vai brilhar nessa vida. E eu digo com certeza. Assim como ela disse, no amigo oculto do Natal passado: “a pessoa que eu tirei vai ser uma grande cineasta”, me fazendo debulhar em lágrimas, eu digo a ela que ela também será uma grande. Grande no caminho que ela escolher.

Sobre a minha insegurança que é apagada por muitas pessoas em diversos momentos, muitas delas sabem disso, mas outras não têm nem ideia. Vocês não imaginam como fiquei emocionada com cada recadinho, whatsapp, mensagem, abraço que recebi no meu aniversário. As mais diferentes pessoas dizendo para eu continuar sendo a pessoa que sou, escrevendo o que escrevo, me chamando de futura cineasta, dizendo que tenho um futuro brilhante... aqui estou eu, chorando. Ver que palavras como essas se repetiam nos desejos de “feliz aniversário” me deixou perplexa. É graças a isso que levanto a cabeça quando acho que nada vai dar certo. É por causa de cada palavra assim que eu faço uma combinação comigo mesma que eu devo, sim, continuar sendo a pessoa que sou, do jeito que sou. Porque é esse jeito que fez e faz as pessoas falarem que gostam do que digo, do que faço, que gostam de mim. E elas demonstram isso dos jeitos mais diferentes.


Gente, se algum dia eu vier a ganhar um prêmio, seja por ter escrito um livro, um roteiro, atuado em qualquer coisa, dirigido um filme ou seja lá o que for, eu vou lembrar desse dia. Eu vou lembrar do dia em que recados de “parabéns” pelos meus vinte anos, idade bonita, me fizeram uma pessoa ainda mais feliz, forte e confiante. Eu vou lembrar do primeiro curta que dirigi e de cada pessoa que me ajudou. Eu vou lembrar que o fiz pensando na minha avó Margarida, que estaria vibrando em ver duas netas trabalhando juntas, assim como meu pai vibrou ao ver suas filhas juntas. Eu vou lembrar desse texto que estou escrevendo. Eu vou lembrar de cada um e cada uma que um dia me fizeram acreditar que eu poderia chegar lá. E não me importa agora onde será “lá”. Se eu estiver feliz, eu lembrarei de quem já me fez, faz e continuará fazendo feliz.

Marina Martins

terça-feira, 31 de março de 2015

Vênus (não) é a saída.

A imagem não é de Vênus, é a Lua feita por George Meliés, mas eu gosto muito dela. E acho que ela retrata como eu me sinto de vez em muito.


"Na luta entre você e o mundo, apoie o mundo." - Franz Kafka

Eu gosto de escrever sobre o que me incomoda. Isso não tira o nó que fica na minha garganta e nem me livra de engasgos, mas pelo menos tira um pouco de peso da minha cabeça. Hoje, agora, muitas coisas estão reunidas dentro de mim e me dando dor no estômago. A quantidade sempre grande de propagandas machistas, que retratam a mulher como um corpo, a aprovação da proposta que reduz a maioridade penal e estudantes de medicina vestidos com roupas semelhantes às da Ku Klux Klan estão batendo na minha cabeça e me dando um enjoo terrível. Estão inclusive me atrasando no que eu deveria estar fazendo, mas não estou, porque preciso colocá-las para fora. Nem que seja através de letras.



Vamos começar por esses estudantes. Essas pessoas escolheram uma profissão que cuida de pessoas. Da vida de pessoas. Com certeza, elas estudaram muito para poder entrar na faculdade, pois passar para medicina não é uma tarefa fácil. Aí resolvem fazer uma recepção de calouros em que suas fantasias são roupas idênticas às usadas pelos membros da Ku Klux Klan (KKK). A única diferença é a cor – de branca, mudou pra preta. Pra quem não sabe, a KKK foi uma seita ocorrida nos Estados Unidos que defendia a supremacia branca, sendo extremamente violenta com os negros e tendo como objetivos, exterminá-los. Então não quero ver ninguém falando que o que esses estudantes fizeram foi uma brincadeira, pois há momentos na história com os quais não se pode brincar. Há fantasias que não podem ser reproduzidas. Há referências que só podem ser mencionadas quando coberta de críticas. E esse caso é um deles. Me deixa extremamente triste ver jovens fazendo “brincadeiras” de tanto mau gosto e tão violentas como essa. Isso gera um pessimismo muito grande em mim, pois nós, jovens, somos o próximo futuro ou o futuro próximo. E ter tantas pessoas que brincam com coisas sérias assim ou que pensam de formas conservadoras me desestimula como ser humano. A atitude desses estudantes me faz pensar em todos os podres que existem na juventude atual e, nesse caso, só me resta lutar para um mundo melhor. A parte boa disso tudo é que existem jovens que também pensam como eu. Isso faz com que pelo menos um suspiro de otimismo respire dentro de mim.



Sobre a redução da maioridade penal, que medida é essa? É inacreditável que acreditem que colocar jovens de 16 anos na cadeia reduza a violência. Por favor, não é colocando pessoas na cadeia que faz com que elas se redimam, muito menos no Brasil. Todos sabemos como é nosso esquema carcerário; celas sujas e superlotadas, pessoas suando juntas, passando mal de calor... não tem como achar que isso vá tornar alguém um cidadão melhor. Creio que, em muitos casos, a situação das cadeias enraivece mais ainda quem um dia já esteve lá. É desumano. Eu até acho que há certos criminosos que merecem apodrecer em locais horríveis, pois a partir do momento que alguém estupra, mata, essa pessoa está tirando o direito humano da outra, então não acredito que ela mereça ser defendida através desse mesmo direito. No entanto, não é o caso da maior parte de nossos presos, principalmente tendo em vista que a maioria da população carcerária nesse país é pobre e negra. Enquanto isso, ricos e políticos têm penas reduzidas ou mais leves do que o apodrecimento em celas claustrofóbicas e superlotadas.



Indo agora para a questão do machismo, estou cada dia mais impressionada com as peças publicitárias veiculadas nos meios de comunicação. A Revista Forum publicou uma matéria com dez exemplos das propagandas mais preconceituosas do último ano e, aqui, vou exemplificar três (duas delas também se encontram no link).


1.    Tresemmé


2.      A Verão da Itaipava – vocês com certeza já viram essa. Se não viram, fiquem a vontade para quererem se matar comigo:
https://www.youtube.com/watch?v=a5hzteameeU




3.    Nivea, apresentando um creme contra celulites: a mulher pergunta “sabem por que estou me sentindo tão confiante, por que me sinto tão bonita? Basta olhar para o meu bumbum”.



Parece sacanagem, né gente? Mas não é. Isso existe. Isso é aprovado. Isso é transmitido. Fico me perguntando quem são os responsáveis por criar e aprovar peças como essas. E o pior é que tem gente que nem percebe a gravidade disso! A primeira propaganda, além de machista, é completamente racista, pois todos sabem que as mulheres negras não costumam ter cabelos naturalmente lisos. Então como dizer que é isso o melhor delas? Como dizer que um cabelo é o que ressalta o melhor de uma mulher? Por que o cabelo crespo é sempre chamado por algo pejorativo, é o cabelo ruim, bombril, pixaim? A segunda delas é só mais um dos inúmeros exemplos de propagandas machistas de cerveja. Aqui, o verão é, na verdade, uma mulher “gostosona”, que vive de biquíni pequeno ou sainha bem curtinha. O verão é reduzido a mulher e cerveja. E a mulher é reduzida a um corpo. Como sempre. Sobre a da Nivea... gente! Não preciso nem falar nada né? A mulher é tão nada, é tão só corpo, que a confiança dela vem de uma bunda sem celulite. E ela convida para que todos olhem sua bunda. E tal bunda é filmada o anúncio inteiro.



É por causa desse tipo de coisa que a sociedade machista continua machista e não muda. O que nós vemos em muitas propagandas, tanto as exemplificadas aqui, quanto em muitas outras (produtos de limpeza, de comida, carros) são mulheres reduzidas a um corpo, que muitas vezes é um peito e uma bunda. Essas propagandas ressaltam apenas características físicas da mulher e não defendem nem mesmo sua naturalidade. A maior parte dos cabelos é falsa, assim como as próprias bundas e os próprios peitos. As coxas e pernas também são moldadas em busca da “perfeição”. A mulher bonita é aquela magérrima (vejam as Angels da Victoria’s Secrets) ou aquela malhadona, com bundão e peitão.



E o que mais me impressiona nisso tudo é ver que, por exemplo, no curso de publicidade da PUC-Rio (faculdade onde estudo cinema), a maior parte dos estudantes é de mulheres! Gente, cadê essas mulheres no mercado publicitário? Já chega dessa visão machista a respeito do que se resume a mulher (e por acaso ela se resume?), já chega de mostrá-la como um objeto, como alguém fútil e idiota. Ao mesmo tempo que temo a juventude em que vivo, eu coloco fé nela. Coloco fé porque acredito que ainda existem cabeças que podem mudar essas imagens e que podem mudar o mundo. Eu tenho a esperança de que ainda há pessoas boas nesse mundo.



Com tudo isso que acontece, eu fico querendo fugir. Sair daqui, dessa cidade violenta, desse país preconceituoso. Mas... ir para onde? Cada país tem seus problemas, seus preconceitos, seus machismos, seus xenofobismos, seus absurdos... me dá vontade de pegar um foguete e povoar Vênus para tentar criar um mundo mais agradável de se viver. Mas já que isso não é possível, o jeito é tentar lutar para que o nosso mundo seja melhor. Mesmo que isso leve anos. Eu não quero achar que é utópico um mundo em que homens, mulheres, brancos, negros, gays e heteros têm os mesmos direitos. Isso não é utopia. Isso é cidadania básica. Isso é necessidade para uma convivência normal nesse planeta Terra. Nós merecemos isso.

Marina N. Martins

sábado, 7 de março de 2015

Dia da Mulher

Parabéns às que são mães, avós, bisavós, tias-avós, primas, sobrinhas, tias, irmãs, sogras, madrastas, noras, enteadas, amigas. Parabéns àquelas que pariram, às que ainda não, mas ainda vão, às que nem não nem vão, às que fazem parir e às que abortaram. Parabéns para as que nasceram. Para as que morreram. Para as que ainda vão nascer e para as que estão no fim de seu viver. Parabéns às formadas, às estudantes, às profissionais, às batalhadoras e às que lutam diariamente por elas e pelas(os) outras(os). Parabéns às solteiras, às casadas, às viúvas, às santas, às putas, às puras, às freiras, às ateias, às religiosas. Parabéns para aquelas que pegam homens. Àquelas que pegam mulheres. Àquelas que pegam mulheres e homens. Àquelas que optaram por não pegar ninguém. Àquelas que gostam mesmo é de pegar geral. Parabéns às virgens e às que estão longe de ser. Parabéns às que vivem com a mesma pessoa há anos e às que vivem cada dia com uma nova. Parabéns às que vivem sozinhas. Parabéns às femininas, às feministas, às masculinas. Parabéns às altas, magras, baixas, gordas, peitudas, bundudas, sem peito, sem bunda, lindas, feias, loiras, morenas, carecas, cabeludas, peludas, depiladas, peladas, vestidas, estilosas, largadas, arrumadas, elegantes, hippies, hipsters, patricinhas, peruas, praieiras, festeiras, intelectuais, divertidas, sérias, engraçadas, alegres, deprimidas, simpáticas, apáticas, centradas, histéricas, neuróticas, estressadas, loucas, calmas, tranquilas, frias, quentes. Parabéns às que andam de biquíni, de burca, de shortinho, de saia longa, de bota, de calça, descalça, de saia, de top, de sutiã, de calcinha, de salto, de tênis, de vestido, de macacão. Às que estão felizes com corpo, às que não estão, às que sempre querem mais, às que sempre querem menos, às esportistas, às sedentárias, às gulosas, às controladas. Parabéns às escritoras, leitoras, cientistas, professoras, atrizes, diretoras, roteiristas, faxineiras, secretárias, médicas, motoristas, babás, advogadas, engenheiras, enfermeiras, companheiras, parteiras, psicólogas, psicóticas... Resumindo: parabéns a todas as minhas irmãs, a esse sexo nada frágil, a essa gente que batalha, que sofre, que luta, que trabalha. A todas que correm atrás de seus direitos, lutam contra todos os desrespeitos, que dão de comer do próprio peito, cada uma com seu jeito. Parabéns a todas as mulheres. Que continuemos batalhando pelo o que não temos e melhorando o que já temos. Que continuemos lembrando que, sem mulher, não tem mulher. Não tem homem. Não tem povo. Eu acredito em um mundo que ainda nos respeitará melhor, um mercado que nos dará salários iguais aos dos homens, num povo que saberá nos dar mais valor. Tenho certeza que o mundo vai melhorar para todas nós. E devemos sempre lembrar que somos todas de um sexo, de um gênero (mesmo que trans) e que temos isso em comum. Nós somos todas mulheres. Parabéns, irmãs, pelo nosso dia!

Marina N. Martins

Superpoderosas(os)



Queria tirar um momento para agradecer às principais pessoas que me ajudaram a ser mulher, ou seja, ser a pessoa que sou hoje do jeito que sou hoje.
Obrigada, Vó, por ter sido a mulher mais incrível e forte que já conheci. Você pariu quatro outras incríveis e fortes mulheres, as educou lindamente ao lado do amor de sua vida, você era linda, amada, cheia de atitude, viva e se mostrou forte e corajosa até o fim da sua vida.
Obrigada às minhas tias, primas, à minha irmã e minha sobrinha, mulheres lindas e especiais, cada uma com seu jeito de ser.
Obrigada ao meu primo que outro dia disse a frase: “Por que você ta chamando ela de puta? Ela não cobra nada!”, enquanto defendia mulheres que simplesmente fazem sexo.
Obrigada ao meu pai, para quem eu pergunto: “pai, ta curto demais?” e ele sempre diz que não. Obrigada por nunca ter dito que minhas roupas eram vulgares, curtas ou sexys demais, mesmo quando eu estava com medo do que os outros iam achar. Obrigada por sempre me ouvir e apoiar nos meus desabafos sobre machismo e patriarcalismo, os preconceitos humanos. Obrigada por sempre dizer, mesmo sem palavras, que a culpa nunca é minha. Obrigada por mostrar que homens não têm o direito de se sentir superiores a mulheres. Obrigada por me ensinar que, quando um homem me falta o respeito, ele merece um chute no saco. Ao mesmo tempo, obrigada por dizer: “cuidado, filha, há homens que são perigosos”. Obrigada por ser um admirador e respeitador das mulheres, apaixonado por elas, um verdadeiro feminista. Obrigada por dizer que eu estou linda quando estou toda produzida e quando acabei de acordar. Obrigada por criar uma feminista.
Obrigada à minha mãe, a melhor mulher de todas. Obrigada pelas suas preocupações; mesmo que às vezes eu as ache exageradas, sei que tudo o que você quer é o meu bem. E que você só se preocupa porque nossa sociedade, infelizmente, pede isso. Obrigada por sempre lutar pelos seus direitos, pelos meus e pelos das mulheres. Obrigada a me ensinar o que é o feminismo, sem precisar dizer “isso é feminismo”. Obrigada por me fazer crescer feminista. Obrigada por dizer que sou capaz, que sou forte, que sou bonita. Obrigada por dizer que as preocupações com meu corpo são bobagens, dizer que ele é lindo e que nada que eu julgue “errado” é errado. Obrigada por me influenciar a ser natural. Obrigada por ser essa mulher grande que é você, cheia de atitude, o meu exemplo de pessoa e de profissional. Obrigada por sempre apoiar minhas escolhas, por sempre amar meus trabalhos e minhas personagens no teatro, sejam quais forem.
Obrigada aos meus pais, que sempre me fizeram ter uma relação natural e boa com meu corpo e minha pessoa, com meu cabelo, com minhas roupas. Obrigada por sempre desmistificarem a nudez e a sexualidade. Obrigada por me deixarem dormir com meu namorado.
Obrigada ao meu namorado, quem diz que sou a mulher mais linda do mundo – mesmo que eu não acredite –, que me elogia diariamente e me deixa sem graça, que não vê nada de errado com meu corpo, que nunca pergunta meu peso, que gosta de qualquer corte de cabelo, que nunca reclamou de uma roupa, que gosta quando eu visto saias longas e curtas, que me acha bonita de qualquer jeito. Obrigada por me fazer sentir à vontade e levantar minha autoestima sempre.
Obrigada a todos e todas que levantaram e levantam minha autoestima. Que, carinhosamente, me elogiaram, disseram que sou bonita, que me admiram, que gostam de mim, do meu jeito, das minhas roupas, do meu corpo, da minha pessoa. Obrigada pelas palavras que disseram e pelos gestos que fizeram e me deixaram melhor.
Obrigada às minhas amigas, mulheres lindas que me fazem ser uma mulher melhor. Obrigada às que se incomodam com a nossa cultura machista e lutam pelos nossos direitos.
Obrigada a cada uma e a cada um que me ajudou a ser a mulher que sou hoje. Posso dizer que cada palavra linda e cada palavra horrorosa que já escutei nessa vida me fizeram uma mulher com autoestima na maioria das vezes alta, uma feminista que se preocupa com o papel da mulher na sociedade, uma pessoa que já se desapegou de vários problemas que via no próprio corpo, uma pessoa que tem o próprio estilo, usa as roupas que quer, com toda a noção que a sociedade pede. Obrigada também às bobagens que já escutei, aos homens que invadem o vagão das mulheres no metrô, a existência desse vagão. Afinal, graças a isso tudo, eu pude perceber que o mundo ta todo errado. E por último, obrigada ao Cartoon Network, canal marcante na minha infância, por me ensinar que os dias podem ser salvos graças às meninas superpoderosas. E esses dias virão.

Marina N. Martins

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

"é de lágrima"



343

(sem título)

Senti esse caminho

Esse carinho

Tortuoso

E bruto

Que fazem as lágrimas

Ao arranharem meu rosto.


344


Água

As lágrimas
correm
escorrem
percorrem
meu rosto
ultrapassam-no
molham pescoço
escorregam
fazendo cosquinha
carinho
no colo
descem barriga
sabe-se lá
onde vão parar
e se vão parar
elas podem escalar
e voltar a molhar
até calar.
 
Marina N. Martins