domingo, 18 de dezembro de 2011

248


A um roteirista iludido

Você queria que eu mudasse
E achou que me encontraria mudada
Além disso, queria que eu esperasse
De você, quase nada

Você jurava que me veria
Correndo para você, apaixonada
Ou então, que eu sofreria
E ficaria, sem você, atordoada

Acontece que você sempre se achou
Muito melhor do que realmente é
Você não entende que nossa história acabou
E que não fui feita para ser sua mulher

Infelizmente, a vida é diferente
Do que a gente vê na tela
A minha vida não é simplesmente
Um banal roteiro de novela

Marina Martins

247


Minha vida é poesia

Minha vida é poesia
Romântica, inspirada, concreta
Meus momentos de alegria
Fazem minha vida ser correta

Minha vida é poesia
De poeta amador
Ela é feita de energia
Que é causada pelo amor

Minha vida é poesia
De uma cabeça com imaginação
O que eu faço ou faria
Vem da minha inspiração

Marina Martins

246


Soneto de impedimento

Tudo o que se pode pensar
Mas não é falado
Pois não se pode falar
Se é então sonhado

Pode ser porque seria proibido
Ou por medo de ser vetado
Por ser apenas sonho distraído
Ou pensamento que se evita mau-olhado

Mas já que não se lê pensamento
E não se descobre o que se sonha
Não há porque se preocupar

Já que toda hora é momento
Seja na rua ou em cima da fronha
Não se pode impedir de sonhar

Marina Martins

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

245


Alteregos

Pode ser homem ou mulher
Pode morrer ou se matar
Pode ser quem eu quiser
Basta eu me colocar no lugar

É fácil ser outro ser
Ser eu mesma não é complicado
Na hora que vou escrever
Posso ser o inesperado

Ela sofre por amor
Ele sofre por amar
Ela não aguenta sentir dor
Ele não quer mais esperar

Ela não consegue ser amada
Ele é a pessoa mais feliz do mundo
Ela é muito dedicada
Ele é um vagabundo

Ele escreve poesia
Ele não escreve muito bem
Ele nem sempre está em sintonia
Ele escreve prosa também

Ela sabe e segue seu ofício
Ela tem medo de morrer
Ela se atirou de um precipício
Ela só pensa em viver

Preciso apenas de inspiração
E um lado um pouco louco
A minha imaginação
Ajuda meu cérebro não ser oco

Marina Martins

244

Cartão de aniversário à Isabella Nunes, mãe.

Exemplos do porquê de um exemplo

Um dia eu morei em sua barriga
E era você que me carregava
Desde o começo já éramos amigas
Pois você não reclamava quando eu te chutava

Quando eu morava em você
Já logo começava a dançar
Depois que nasci, pude entender
Que eu realmente tive a quem puxar

Até hoje você estimula em mim a cultura
E isso me acompanha desde pequena
Com todo seu carinho e sua doçura
Você me tornou amante de teatro e cinema

Você sempre me disse que eu seria artista
Independentemente da minha profissão
Mesmo se eu escolhesse ser cineasta ou estilista
Você sempre soube que eu usaria meu coração

Se tento disfarçar algo, não consigo
Você me conhece em todo estado de humor
Pelo menos seu colo sempre foi um abrigo
Nele sempre posso receber mais do seu amor

Você sabe que somos igualmente bagunceiras
Mas me importuna para eu arrumar meu quarto
Nem adianta você dizer que estou falando besteira
Pois uma prova disso é nosso closet de sapatos

Afirmo que você é o exemplo que vou seguir
Em vários momentos da minha vida
Até porque nunca deixarei de admitir
Que sempre fomos muito parecidas

Mesmo que eu reclame de certas coisas que você faz
Meu amor por você cresce a cada segundo
E mesmo que eu reclame, você sabe que sempre foi capaz
De ser, para mim, a melhor mãe do mundo

Marina Martins

243

À Yasmin Caravalho, à Bárbara Betts, às férias sem sol e a algumas outras coisas que vieram à cabeça após assistir a um filme.

A relação entre saudade e ansiedade

Quero voltar ao tempo
Quero que ele vá pra frente
Quero um novo momento
Quero repetir outro novamente

Quero que chegue quinta-feira
Quero que chegue fevereiro
Quero parar de falar besteira
Quero viver as férias primeiro

Quero que chegue o Carnaval
Quero que chegue terça que vem
Quero que chegue antes o Natal
Quero que o tempo não vá além

Quero voltar pra outubro
Quero muito ir à praia
Quero parar de querer tudo
Quero colorir aquela saia

Quero encontrar meu namorado
Quero sair para dançar
Quero gente do meu lado
Quero mergulhar no mar

Quero engolir minha ansiedade
Quero viver o presente
Quero parar de sentir saudades
Quero ver logo essa gente

Marina Martins, em um pequeno surto causado pela falta de sol e pela falta que está sentindo de uma prima e uma amiga.

Aos pequenos prazeres da vida.

À Beatrice Moss.

"Pedrinhas de areia"

Eu chego à praia e começo a passar meus pés descalços por cima de todas as pedrinhas de areia. Alegro-me pela presença de um grande número delas. Estico a canga no chão e sento-me sobre ela. Compro um Globo doce e um Matte Leão geladinho. Ao final do biscoito, devoro todos os farelos e me sujo com eles. Deito na canga. Começo a esfolar as pedrinhas de areia que estão debaixo dela. Aproveito cada etapa de seu esfolamento até chegar ao final. Depois, fico um pouco mais ousada e resolvo esfolá-las diretamente com minhas mãos, sem a canga por cima. Aproveito mais ainda seu esfolamento. Mas antes, dependendo do tamanho delas, faço um buraco no meio de uma, até ela se partir em duas e, dessa forma, esfolo as duas. Após um tempo de praia, levanto, sacudo minha canga esfarelada de farelos de polvilho e de areia, e volto a pisar nas pedrinhas de areia, esmagando-as pouco a pouco com meus pés, enquanto caminho de volta à calçada.

Sorvete e calda de chocolate

A sobremesa chega à mesa ao lado. Nós olhamos para o doce e depois nos olhamos, com sorriso e olhar cúmplices. “Você vai querer sobremesa?” “Acho que sim.”. Isto basta. Passamos o momento final de nossas comidas saboreando com os olhos a sobremesa da mesa ao lado. Então, finalmente chega a nossa hora. Pedimos o mesmo doce. Ele chega à mesa. Eu pego a jarrinha de calda de chocolate e a despejo quase por inteiro por cima do sorvete de creme. Minha pele se arrepia. Suspiro. Pegamos nossas colheres e enfim, pegamos o primeiro pedaço da sobremesa. Minha pele se arrepia. Ao final do doce, nos restam apenas um sorvete quase derretido e uma calda espalhada. Brincamos com os restos mortais e fazemos caminhos de chocolate e sorvete pelo prato. Divertimo-nos durante alguns minutos com a nossa brincadeira infantil, experimentando diferentes modos satisfatórios de mexer com a colher na calda e no soverte já derretido. Minha pele se arrepia. Ao final de tudo, paramos para pensar: o que deu mais prazer? Será que foi a sobremesa ou será que foi o que restou dela?

Marina Martins

O que esperar?

De mim, nada.

Não adianta sofrer pelo amanhã enquanto ainda se pode aproveitar o hoje. Sofrer pelo amanhã é válido quando esse amanhã já virou hoje. Mas, se isto tranquilizar, o amanhã, que virou hoje e faz sofrer, vai virar ontem, como tudo nesta vida. A vida é preenchida por passado, presente e futuro. Não adianta se lamentar do passado e nem querer revivê-lo, apenas relembrá-lo. Pode-se tentar copiá-lo, mas ele nunca será a mesma coisa, feliz ou infelizmente. Por isso, penso antes de falar, mas falo o que penso. Quem sabe assim eu me arrependo menos. Mas muitas vezes também penso demais e acabo não falando o que penso. Acabo me arrependendo. De que me adianta? Na maioria das vezes não vou conseguir voltar atrás, mas posso (e devo) seguir em frente. Como? Falando o que penso, mas pensando antes de falar. Talvez pensando um pouco menos.

Há quem diga que guardo muito meus sentimentos comigo. Verdade. Na maioria das vezes, eles se soltam de mim em forma de lágrimas. Às vezes em dança, música, teatro. De repente, enquanto eu não fale, nunca conseguirei livrar-me deles por completamente, tirar o peso e o espaço que ocupam. Muitos sonhos e nenhuma lógica, é assim que eu funciono. Vivo intensamente o presente, com a certeza de que ele vai virar passado, por isso sinto tudo tão profundamente. Alcanço cada pedacinho de sentimento, o que pode ou não ser bom. É assim que os filmes me fazem chorar, as músicas, às vezes as coisas mais bobas. Não tenho medo do futuro, e nem pressa para ele, tenho apenas curiosidade. De vez em quando, ansiedade, já que o futuro pode ser amanhã, semana que vem ou daqui a trinta anos.O que penso do meu futuro? Responderei quando ele for presente. Tentarei não pensar tanto antes de falar o que penso.

Mas é assim. Pretendo viver cada segundo por mais ou menos especial que ele seja, pois ele passa. Tudo passa, tudo passará. Por exemplo, alguém que eu tinha a certeza de que iria encontrar novamente, agora não tenho mais. Tenho a leve impressão de que sim, mas não é mais obrigação. Não acredito no destino propriamente dito. Não acredito que seja algo que nascemos com ele pronto, mas acredito que traçamos o nosso próprio. Nossas escolhas, nossas amizades, nossos amores, tudo isso faz com que construímos nosso destino, nosso futuro. Escrevo este texto falando o que penso, meio sem pensar e sem esperar. Não espero que gostem e nem que não gostem, não sei o que espero. Afinal, o que esperar do futuro se uma coisinha pode mudar em um piscar de olhos? É por essas e outras que pretendo, a partir de agora, pensar um pouco menos antes de falar.

Marina Martins