terça-feira, 9 de maio de 2017

353 - muda

muda

a vida é assim
num dia,
ele vai te deixar muda
da melhor maneira possível
vai te fazer tremer
do jeito mais gostoso possível
no outro,
vai te deixar muda
da pior maneira possível
vai te fazer tremer
do jeito mais desconfortável possível
mas aí chega um dia
que ele vai vir falar
e você não vai ficar muda
porque você muda
não vai tremer
vai responder
com a maior indiferença possível
e vai pensar
“caralho
eu sou foda”


Marina N. Martins

352 - entre (e saia)

entre
(e saia)


eu te olhava e me doía
porque não sabia
o que você queria


aí eu soube


aí eu te encontrava e me doía
porque a gente sabia
o que a gente queria
mas ali
a gente não podia


aí passou


mas meio


aí eu te via
e me doía
porque você partia
e junto partia
ia
o meu coração


aí perguntei
o que seria
mas
você pensaria
você
pensaria...


e depois
a gente se cruzou
nossos olhos se cruzaram
a gente ria
porque a gente sabia
o que a gente queria
mas ali
ali não podia


mas agora não sei
porque você ficou no entre
e entre não é lugar
o seu lugar
fui eu que dei


porque você não sabe enfrentar
e agora eu cansei
e quanto mais você faltar
mais vai cansar
então o que seria
eu já decretei


eu não gosto do entre
tenho claustrofobia
não seria mais nada
eu decretei

351 - sh.

sh.


outro dia
eu só queria
uma palavra sua
agora você vem
cheio de palavras
eu olho pra você
e só consigo te dizer
“eu não acredito
em mais nada
do que sai
da sua boca”


Marina N. Martins

350 - o doce des-espero

o doce des-espero


era gostoso olhar pra você
e sentir tudo
por mais desesperador que isso fosse
e era


depois era horrível olhar pra você
e sentir tudo
era desesperador


agora é gostoso olhar pra você
e saber que daqui a pouco
não vou sentir nada


não mais me desespero
não te espero mais


Marina N. Martins

349 - escatologia impressa

escatologia impressa


toma aqui esse livro
que escrevi pra você
tem o cheiro do meu perfume
e do meu pum
deixei um beijo de batom
e grudei uma meleca

Marina N. Martins

Quando você foi

Escrito em novembro de 2016.
Enviado só para uma pessoa. Agora sendo publicado.
Umas coisas mudaram, outras não. E tudo bem.

Antes de você ir, era ruim. Por mais que eu evitasse, era inevitável a contagem regressiva. Cada dia era menos um dia com você, era uma aproximação para a hora da despedida. Era aproveitar os últimos momentos, enquanto tentávamos esquecer que eram os últimos. Cada “tchau” era um sofrimento, pois temíamos o “tchau” mais longo que estava por vir. Era muita emoção e muita expectativa. Mais de cinco anos juntos. Como somos um sem o outro? Nem a gente sabia e nem os outros ajudavam. Diziam que não nos imaginávamos separados. E eu comecei a pensar que, antes de tudo, nós somos um. Cada um é um. E só somos dois porque queremos ser dois. Na verdade, estamos. Somos um e estamos dois, quando estamos juntos. E esse estar é uma escolha. No dia que deixar de ser, deixaremos de estar e permaneceremos sendo. Sendo um. Que quando junta com outro, é dois. E só é porque quer.

Quando você foi, senti. Sofri. Chorei. Mas depois, vi que não era tão ruim quanto eu imaginava naquela semana anterior. Percebi, então, que eu era uma. E foi quando conversamos, na primeira semana, sobre isso, que me dei ainda mais conta. E tudo começou a ser mais leve quando cheguei a essa conclusão. Se os outros não nos imaginam separados, o problema é deles e não nosso. Porque temos de entender que somos seres independentes um do outro. Se algum dia formos dependentes, é pra parar e repensar em tudo, porque não é saudável alguém que dependa de alguém dessa forma.

Quando você foi, me vi só, como muitas vezes me vejo. Hoje chove e é véspera de feriado. Minha mãe viaja. Você claramente estaria comigo, mas não está. Assim como ontem. E não estava. Estou só. A casa está só para mim e ninguém mais. Cozinharíamos, comeríamos besteira, veríamos filmes bons ou ruins. Os meus bons, os seus ruins, claro. Brincadeira, não me mata. Ou então veríamos séries. Novos episódios de séries antigas, novos episódios de séries novas, antigos episódios de séries antigas. Começaríamos alguma, continuaríamos alguma, repetiríamos algumas.

Quando você foi, consegui respeitar e aproveitar ainda mais a minha solidão. Minha relação comigo mesma. Entendi que é importante respeitar “a bad”. Quando estou mal, tenho a opção de arranjar alguma coisa para fazer, encontrar minhas amigas, ou simplesmente aceitar que estou mal. Tomar um banho, chorar no banho, ouvir música, deitar na cama, comer, ver filmes e séries. Sozinha. É bom também. É bom entender e respeitar que não precisamos ser felizes o tempo inteiro. Ajuda você a se compreender e se aceitar de várias formas. Ajuda você a se enxergar como ser humano frágil, sensível, imperfeito, saudoso, desejante, normal.

Quando você foi, fiquei mais tranquila do que imaginava. E algumas pessoas achavam essa tranquilidade estranha. As pessoas esperam que a gente sofra mais do que a gente deveria sofrer. Fico feliz de ver que não correspondi a esse tipo de expectativa. Porque você foi ser feliz, então por mais que existam os momentos de aperto, os momentos de lágrimas, a vida continua, e continua comigo sabendo que você está bem. E continua porque aprendemos a conviver um sem o outro. Temos amigos, temos família, temos a nós mesmos, por melhor ou pior que seja isso. Por mais gostoso e mais desesperador que seja estar sozinho.

Quando você foi, desconstruí imagens que tinha de mim mesma. Preocupada, controladora, ciumenta. Eu não sou assim. E não preciso ser assim só porque me considero ou consideram assim. Percebi que sou mais tranquila e mais forte do que pensava. Me conheci ainda mais. Estou evoluindo pessoalmente, tendo visões que nunca imaginei que teria. Estou conseguindo ver o lado bom nas coisas complicadas. Amadureci e me considero mais compreensiva em vários aspectos. Percebi que não sou tão apegada quanto imaginava.

Quando você foi, entendi ainda mais porque estamos juntos. Vi ainda mais a sorte que tenho de te ter na minha vida e, convenhamos, de você me ter na sua. Não porque sou maravilhosa, mas porque somos maravilhosos juntos. Aliás, porque sou maravilhosa também! Também estou tentando aprender isso – inclusive, algo que você sempre me estimulou a fazer – de me permitir me achar maravilhosa. É difícil, mas não seria verdade? Quando estou só, vejo a ótima companhia que sou. E não deveria pedir licença de dizer isso, deveria ter orgulho.

Quando você foi, pude crescer, amadurecer e perceber que essa coisa de posse não está com nada. Eu não pertenço a você, você não pertence a mim. Ninguém possui ninguém e ninguém pertence a ninguém. Como já falei, só estamos com o outro porque escolhemos estar. Pelo menos deveria ser assim. Pertencimento é pura ilusão e pode acabar muito rápido. Pode acabar machucando. Se a gente entendesse que ninguém se pertence, nem se possui, seria tudo muito mais simples. “Eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também”. Por vezes, ama e deseja a mesma pessoa e, aí sim, é a melhor coisa. E se é recíproco, então, nem se fala.


Quando você foi, aprendi ainda mais que, se for para ser, vai ser. Não importa quem passar por nós, por onde passemos. Se é para estarmos juntos, estaremos. E estaremos enquanto quisermos. Pude ver ainda mais que é com você mesmo que quero estar, quando estamos perto. Se eu tenho você perto de mim, eu não quero mais ninguém. Pelo menos por enquanto. E quem vai dizer até quando? Nem nós. Quando for a hora de não ser, a gente vai parar. Mas por enquanto, deixa estar. Estar nós dois. Ser cada um de nós. Ser cada um e estar em dois. Em menos de um mês, estaremos em dois. É bem reconfortante a contagem regressiva de agora ser para te ver, e não para parar de te ver. E posso falar? Não vejo a hora de juntar meu ser com o seu para poder estar. Te amo.

Marina N. Martins

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Oito de maio


“Amor, então,
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima”

Paulo Leminski



Hoje é oito de maio. Se estivéssemos em qualquer outro ano há seis anos, eu estaria postando uma foto nossa e um texto pra você. Mas não sei como agir nessas situações, porque é a primeira vez que vivencio isso tudo. Esse ano está cheio de primeiras vezes. E essa é mais uma primeira vez com você. Só que sem você. Não sei se cabe fazer isso. A foto. O texto cabe porque texto sempre cabe, mesmo quando não cabe. A vocês todos que estão lendo isso nesse momento, saibam: se algum dia vocês forem alvos da paixão e/ou do amor de alguém que escreve, preparem-se para terem alguns poemas e prosas dedicados a vocês. Mesmo que vocês talvez nunca cheguem a lê-los. Alguns são imostráveis, outros impublicáveis. Alguns a gente mostra e publica mesmo se achando loucos por isso. Imagens e palavras imortalizam sentimentos. Talvez por isso eu seja tão obcecada por escrever, filmar e fotografar a vida. Isso tudo me faz lembrar. E me faz viver, reviver, me liberar de sentimentos e pensamentos. Hoje é oito de maio e eu só quero ficar feliz porque eu respeito os encontros e os momentos. Porque um erro de nós seres humanos é achar que pertencemos a outros seres humanos, quando na verdade pertencemos a momentos. Nós não somos de ninguém, nós somos sozinhos, e se estamos com alguém, é porque queremos estar – pelo menos deveria ser assim. E estar com, mas não ser de. Porque essa obsessão pelo pertencimento a pessoas nos torna seres paranoicos, enquanto que a noção de se pertencer a um momento nos torna apenas apegados. E ó, tudo bem ser apegado, ta? Dane-se se, hoje em dia, ouvimos cada vez mais que apego é sinônimo de ser trouxa. Sim, muitas vezes é, mas nem sempre. Eu sou apegada a pessoas, mas também a coisas e momentos. E se tem apego, é porque tem carinho. Apego não é posse, é só isso que a gente deveria entender. Entender que pertencemos a momentos é entender que estamos, não somos. Porque tudo muda o tempo todo. É entender o momento e o tempo do outro e respeitar isso, mas com a responsabilidade de não machucar a outra pessoa. Porque cada um tem seu tempo, cada um tem sua vida, cada um faz o que quer. Basta fazer o que quer, mas sem pensar somente em si. Se eu me apego às pessoas, às coisas e aos momentos, é porque tem algo nele que me completa de alguma forma. E se falta, um pouquinho de mim também falta. Isso não é ser possessiva, porque entendo que a falta faz parte. Isso é só saudade. Saudade também faz parte. Sentir faz parte. Eu me permito sentir. Me permito ficar chateada, ser trouxa, chorar, sorrir, correr atrás, sofrer. Entender que pertencemos a momentos é também se permitir sentir. E é também entender que nem toda relação termina. Tem relação que só muda. A vida é feita de encontros e desencontros, acasos e programações. Momentos. Às vezes, eles nos levam a caminhos distintos. E tudo bem. Tudo bem se isso te fizer sofrer. Pode sofrer. Mas também pode sorrir. Vai, pode sentir. Entender que pertencemos a momentos. Permitir-nos a sentir. Entender que as relações mudam e que isso não é necessariamente ruim. Enfrentar isso. Esses são alguns desejos meus. Também podem brotar flores de uma relação que mudou. Um casal que separou não necessariamente se odeia. Ser “ex” não é necessariamente ruim. Nem toda lembrança dói. Ser casal separado que se ama é respeitar momentos. Sabe o apego? Olha ele aí. O apego bom é aquele que existe para se respeitar, se gostar, se amar, continuar a falar, mesmo quando a vida muda. Porque eu não sou apegada à sua presença e sim à sua pessoa. A sua pessoa é maravilhosa e me fez mais maravilhosa. Meu apego a você não é pensar o que você faz na minha ausência, com quem você está, se você pensa em mim. É sentir falta pra caramba da sua amizade, do seu abraço, de rir com você, te ter do meu lado quando quero chorar. Eu sou apegada a tudo o que você me ensinou e a todos os momentos que já tivemos. Tenho apego à sua felicidade. Sou apegada a você e você não precisa ser meu para isso. Você é seu e pode estar com quem quiser. Hoje é oito de maio. Talvez não estejamos comemorando seis anos de namoro (tudo muda o tempo todo), mas estou comemorando seis anos de crescimento. Hoje é oito de maio e eu só quero que você seja e esteja feliz. Eu sou apegada ao oito de maio porque ele me fez muito feliz. E eu já disse que sou apegada à felicidade. Hoje é oito de maio e estou fazendo mais um texto. E mais um pra você. Hoje é oito de maio, mas como eu não posso te abraçar, eu só fecho meus olhos e penso no sorriso que espero estar estampado em seu rosto. Porque o amor não acabou. Foi só a vida que mudou. Hoje é oito de maio e estou sorrindo e chorando. Deixo o sorriso se instalar e as lágrimas escorrerem. Permito-me. Hoje é oito de maio, você se mudou, você mudou, eu mudei, a gente mudou e faz seis anos que eu amo você. E pra mim não importa como, só importa que.

Marina N. Martins

quarta-feira, 26 de abril de 2017

O corpo

     
Ilustração: James R. Eads


Ontem, durante um encontro com um grupo do qual faço parte, fizemos diversos exercícios corporais. Mais uma vez, fiquei pensando sobre as definições do que é um corpo. É um assunto que está sempre na minha cabeça, já que eu estudo a questão, seja em discussões de gênero, raça, seja na arte, sejam nos dois ao mesmo tempo. E no meu projeto fotográfico chamado Corpo Cru, eu peço para quem participa definir o que significa “Corpo” e “Cru” ou “Corpo Cru”, então essas definições volta e meia martelam em minha mente. Ontem, algumas coisas passaram por ela. Primeiro, eu queria dizer que acho CORPO uma palavra linda. COR PO.

Depois, pensei que o meu corpo só está cru quando estou debaixo do chuveiro de olhos fechados com a água escorrendo e percorrendo-o. Porque quando eu abro o olho e olho para os pelos na perna que me incomodam, para a barriga que poderia estar menor, as espinhas que são feias, os peitos que aff, o esmalte descascado, bla bla bla, ele já não está mais cru. Eu boto mais a mente do que sinto o corpo. Então eu só me sinto crua quando apenas a água encosta nele, pois a água apenas encosta. Ela não olha, ela não fala, ela não julga. E ainda faz bem. O meu corpo no banho é meu corpo mais cru. Não tem roupa, não tem olhar, não tem adjetivos. Ele também é um pouco cru quando eu danço, mas sem ligar para quem está olhando e o que estão achando. Quando eu só danço, fecho os olhos, solto tudo, sejam as partes dele, seja toda a energia que está armazenada ali naquele território.

Então, pensei no corpo como contradição. Outro dia, escrevi um texto falando sobre como o meu corpo não é meu. Mas ao mesmo tempo, ele é muito meu, só meu, meu todinho. O corpo são várias contradições, que vão desde o fato de, por exemplo, a nudez feminina ser bem vista quando faz parte de um padrão e é colocada à venda, enquanto que a nudez natural é proibida, até tudo o que a nossa boca fala e o corpo faz diferente. Dizer que está tudo bem, mas a mão tremer, dizer que está bem disposta, mas bocejar, dizer que não quer comer, mas salivar, dizer que não liga, mas não para de olhar, dizer que odeia quando quer abraçar, e por aí vai.

Por fim, me veio novamente a ideia do corpo como tempo. Essa definição chegou a mim no dia em que uma conhecida da minha idade faleceu. Ela queria fazer parte do meu projeto, mas não deu. Não tivemos tempo. (Escrevi sobre isso também) E ontem eu estava naquele encontro, após exaustivos e deliciosos exercícios corporais, pensando na efemeridade de nós mesmos. Sobre o quão somos bobos por não nos darmos conta de que somos todos temporários. Podemos definir o corpo de qualquer forma, mas ele é, talvez acima e antes de tudo, tempo. Ele carrega o tempo que vivemos e, com o tempo, vai acabar. Vai sumir. Aí a ligação da nossa cabeça com nosso corpo faz com que a gente se preocupe muito com o que os outros vão achar de como ele está agindo. Nos bloqueamos de nossa própria liberdade e propriedade, sim, propriedade nossa sobre o nosso corpo. Porque nenhum ser humano pertence a nenhum outro ser humano, mas o nosso corpo pertence a nós. Ele pode estar pertencendo temporariamente a alguém com quem eu decida compartilhá-lo, mas isso passa, é bem mais efêmero do que a efemeridade de nós mesmos. Eu que sempre continuarei com ele e nele.

Esquecemos que corpo é tempo, então andamos encarando o chão, nos censuramos de nossa nudez, bloqueamos beijos, abraços e até palavras. A mente sabota o que nosso corpo é quando cru: livre. Por exemplo, a minha mente muitas vezes faz com que meu corpo doa, trave e me machuque, porque a gente se bloqueia de sentir. E do sentir, faz parte o sorrir, o chorar, o falar, o gritar. Transformamos nossos corpos em gaiolas de nós mesmos por medo ou vergonha do que os outros corpos pensantes acharão de nós. E pra que isso tudo?

Então eu vejo uma pessoa com câncer, vejo o quanto o corpo dela começa a limitá-la, porém não por desejo dela, vejo o tempo pesando em seu corpo, seja tudo o que já passou por ele ou o curto tempo que há pela frente. Vejo que esse corpo vai sumir, como todo corpo de tudo o vive. E cada não toque, não beijo, não abraço, não palavra, não lágrima, não sorriso, não dança, não nudez, não transa, não prazer, não liberdade, por puro bloqueio, é um não-uso desse corpo-tempo. Um desperdício. E eu fico aqui escrevendo, escrevendo, mas de nada adianta se eu só escrever. Porque vomitar as palavras faz bem para minha mente e meu corpo, mas às vezes eu só quero sentir outro(s) corpo(s) perto de mim. Soltar e compartilhar o meu com o mundo. Mas não sinto. Eu não faço. Eu me paro. Me censuro. Sinto vergonha. Sinto medo. Só que um dia isso tudo passa, sabe. E eu não vou ter feito muita coisa. E vou me arrepender de todo tempo que perdi ao usar mais mente do que corpo. Eu quero poder chegar perto do meu fim, sentindo todo tempo gasto pesar sobre meu corpo, e não lamentando sobre o que foi perdido por pura bobagem. Porque um dia o corpo morre. Um dia ele some. Um dia, nosso corpo acaba.

Marina N. Martins

sábado, 22 de abril de 2017

Cebola

(encontrei a imagem no pinterest)

Adormeceu quando o dia já raiava e amanheceu quando já estava pela metade. Espreguiçou-se e permaneceu uns minutinhos em sua preguiça. Levantou, foi até a cozinha e colocou uma música para acompanhá-la ao fazer o almoço. Colocou a água para ferver, separou o macarrão, o alho, a cebola, os ingredientes do molho de tomate. A música tocava e a cabeça pulsava como o coração em ritmo intenso, embalados pelas músicas. Muita coisa e muita gente fazia com que eles pulsassem em (des)harmonia. Muita coisa, muita gente, muita coisa, pouca gente, muita coisa, essa gente. Como de costume, começou a chorar. As lágrimas escorriam de seu rosto enquanto preparava tudo. Nostalgia, saudade, ansiedade, incerteza, sentimentos. Tanta coisa, tanta gente, tanta coisa, pouca gente, tanta coisaaaaaaaaaaaaa –

Nheeeeé

Alguém abriu a porta da cozinha.

Recompõe-se. Engole o choro. Funga. Passa a mão com cheiro de alho pelo nariz e embaixo dos olhos. Respira num sorriso. Vira-se.

- Oi!
- Oi... ei! Que houve, você ta chorando?
- Nãaao, não. É só a cebola.

É só a cebola.

Marina N. Martins

segunda-feira, 10 de abril de 2017

É o meu corpo, mas não é meu

Ilustração: Layse Almada

O meu corpo não é meu. Só do fato de eu precisar pensar várias vezes o quão sou dona do meu corpo, já mostra que isso não é tão natural quanto deveria ser. E isso é tão louco. A gente banaliza o anormal e se choca com o natural. Eu não pertenço a ninguém, mas a sociedade ainda não entendeu isso. Então entender que eu sou minha é uma batalha. Cada olhar e cada fala que escuto sobre as minhas “imperfeições” ou o que eu posso fazer para “melhorá-las” ou escondê-las, eu me sinto menos minha. Cada olhar de julgamento me tira um pouco de mim. As estatísticas de violência sexual e doméstica contra mulheres mostram que muita gente ainda faz o que quer do corpo das outras. Se meu corpo fosse meu, eu não arrancaria meus pelos quando eles ficam grandes. Ou pelo menos não me incomodaria com os olhares que eles recebem. Eu não ia me submeter à dor de uma cera arrancando meus pelos, ou de uma pinça puxando-os e por vezes machucando minha pele. Não ia me submeter a uma cama numa sala de depilação, em que fico literalmente aberta e sentindo dor. E o pior, não ia me sentir melhor e mais bonita após a dor dos pelos arrancados. Eu não ia me preocupar com a barriga um pouco maior, os cinco quilos que ganhei em um ano, as espinhas que apareceram em mim depois que eu abdiquei dos hormônios da pílula anticoncepcional, as celulites que resolveram aparecer, umas estrias que aumentaram, os meus peitos não seriam um eterno problema para mim. Se meu corpo fosse meu, o espelho seria um reflexo de um sorriso, não um momento de procura do que poderia ser melhor. Eu não me preocuparia com as opiniões diárias das pessoas sobre o que eu poderia fazer com meu corpo. “Passa uma base”, “toma esse remédio”, “troca de roupa”, “por que cortou o cabelo?”, “ta peludinha, heim?”.

Agora, a minha nudez, essa é só minha. Porque minha nudez só é dos outros quando ela se enquadra no que eles gostam. Minha nudez é dos outros quando não traz marcas, gorduras ou pelos. Quando o que é mostrado agrada. Mas quando quero tirar a camisa por calor, minha nudez é minha. Minha nudez não é minha quando vende. Mas aquela nudez que recebe a água do chuveiro, essa só pode ser minha. E ai de mim se quero mostrá-la. E o meu corpo é tão não meu, que eu nem tenho coragem de mostrar essa nudez. Porque minha nudez é tão minha, que quando é para os outros, fico achando que é errada, que podia ser melhor, que não vão aceitá-la. Ela nunca me deixou satisfeita.

Quando ando na rua e ouço comentários, sinto olhares e às vezes até toques, meu corpo não é meu. Porque ele só é meu quando eu deixo tocar, quando eu gosto do olhar, quando eu quero escutar o que têm a dizer sobre ele. Meu corpo, minhas regras? Talvez no dia em que eu parar de tentar me adequar às normas sociais e ao que elas esperam de mim. Por enquanto, eu dito algumas regras e cumpro algumas outras. Minha regra é um corpo livre (um corpo cru, em homenagem ao meu projeto). Um corpo feliz que signifique liberdade e não opressão. Não é só sobre quem vai olhá-lo e tocá-lo. É sobre a minha relação com ele. É sobre diminuir a minha exigência em relação ao que eu enxergo no espelho. Meu corpo não é meu, mas ai de você querer arrancá-lo de mim. Posso até sair de mim, mas do meu corpo, desse eu não saio.

Marina N. Martins